Cheio de crédito

Com fluxo de caixa confortável, BicBanco está no lugar e na hora certos para se beneficiar da retomada do crescimento interno

Captação de recursos / Temas / Edição 72 / 1 de agosto de 2009
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“Travessia do deserto sob sol a pino”. Até parece título de um daqueles livros que narram, com paixão e aventura, os relatos de um viajante solitário e corajoso como o britânico Bear Grylls, conhecido por suas jornadas nas regiões mais inóspitas do planeta. Mas não se trata disso. A frase encabeça o release de divulgação de resultados do terceiro trimestre do Banco Industrial e Comercial S.A. (BicBanco). Não apenas no título sugestivo, mas como em todas as linhas que se seguem no comentário assinado por Milto Bardini, vice-presidente e diretor de relações com investidores (RI), o relatório entoa um ar poético.

“A administração considera, com o recuo que o tempo lhe permite, ter atravessado o período mais árduo em termos de risco-retorno. A exegese do comportamento dos clientes, tanto quanto dos reiterados sintomas de melhoria das economias internacional e local, sedimenta a convicção que o segundo trimestre de 2009 tende a estabilizar, se não impulsionar, os volumes, mitigar as necessidades de provisões, manter o atual nível de spreads, colher integralmente os frutos do processo de redução de despesas, e propiciar um resultado análogo em volume ao do trimestre ora concluído.”

Talvez nem precisasse tanto. Nos últimos seis meses, o BicBanco tornou-se uma estrela em ascensão. Ainda miúda, evidentemente, se comparada aos grandes bancos. Septuagenário, focado na concessão de crédito para capital de giro e com nome igual ao da mais popular marca de caneta francesa (e talvez do mundo), o Bic é um banco médio e vem se destacando no mercado em que atua. As suas ações acumulam alta de 160,1% nos últimos seis meses, até o pregão de 27 de julho; enquanto o Ibovespa, 41% em igual período.

Fundado em 1938, em Juazeiro do Norte, no Ceará, na época como cooperativa de crédito, o Bic só conseguiu se expandir fortemente em função do IPO ocorrido em outubro de 2007 — com oferta primária e secundária —, que reforçou o seu patrimônio em R$ 492,9 milhões. Antes da operação, em maio, os controladores realizaram um aumento de capital de R$ 400 milhões. Com as duas transações, o patrimônio líquido do banco triplicou ao longo do ano, batendo em R$ 1,6 bilhão.

O banco tornou-se, assim, a quarta instituição financeira de porte médio a fazer sua oferta de ações, captando R$ 714 milhões na sua estreia. O precursor foi o Pine, que desembarcou na bolsa em abril de 2007, obtendo R$ 517 milhões com a emissão de ações preferenciais, seguido por Panamericano e Cruzeiro do Sul. Mas, como todas as empresas listadas em bolsa, o Bic sofreu com o mau humor longevo do mercado, que castigou os preços dos papéis. Para inverter essa curva, a companhia partiu para a recompra de ações. A última delas foi aprovada em março desse ano.

Assim como os demais pares do seu setor, o BicBanco sofreu com o aumento da inadimplência e da redução de liquidez. Nos três primeiros meses do ano, anunciou lucro de R$ 74,3 milhões, queda de 19,2% em relação a igual período do ano anterior. Já o resultado da intermediação financeira do primeiro trimestre, considerando as provisões para perdas com créditos, atingiu R$160,9 milhões, acréscimo de 39,9% em relação ao trimestre anterior e um decréscimo de 13,1% ante o primeiro trimestre de 2008.

A rede de distribuição do banco — composta de 36 pontos de atendimento no País e uma agência no paraíso fiscal de Grand Cayman — também não escapou ilesa. Durante os três primeiros meses do ano, a companhia precisou baixar as portas de três pontos de atendimento, sendo um em Goiás e dois em São Paulo. O objetivo, segundo o banco, era redimensionar sua estrutura operacional diante do novo cenário econômico.

Essas medidas ajudaram o BicBanco a manter um desempenho relativamente bom. Apesar do recuo no lucro, o retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio ficou em 19%. A carteira de crédito, como era de se esperar, emagreceu: 5,9% em 12 meses, para R$ 7,3 bilhões. Carro-chefe da companhia, as operações de crédito caíram tanto na carteira comercial (4,8%), para R$ 5,36 bilhões; quanto no financiamento ao comércio exterior (1,3%), para R$ 1,54 bilhão. A dupla representa 94% da carteira total. Para pessoas físicas, o crédito pessoal caiu 49,3%, para R$ 69,3 milhões; e o consignado, 22,6%, para R$ 343,3 milhões.

O perfil da carteira do banco é de curto prazo. Isso quer dizer que, na média, 40% dos créditos vencem em até 90 dias. Essa estrutura é muito importante, pois permite uma administração mais confortável do fluxo de caixa, especialmente em cenários de menor liquidez. Na visão do banco, essa situação já deve melhorar a partir deste semestre. Se a inadimplência recuar, o Bic poderá voltar com força total na concessão de crédito. No primeiro trimestre, as captações totais alcançaram R$ 7,4 bilhões, recuo de 4,1% ante igual período de 2008. Os depósitos a prazo totalizaram R$ 3,3 bilhões.

Os investidores parecem estar confiantes, e tal entusiasmo já se reflete no preço de suas ações. O jeito agora é esperar e ver se as perspectivas otimistas da companhia se confirmam. A seu favor o Bic conta com um cenário de retomada da demanda das empresas por crédito. Segundo dados da Serasa Experian, a alta verificada em junho de 2009 foi de 0,9% — o quarto aumento mensal consecutivo nesse indicador —, confirmando a atual trajetória de recuperação iniciada no fim do primeiro trimestre.


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