A casa caiu

Gestoras independentes enfrentam os tempos de urso, perdem cifras milionárias e saem em busca de um novo modelo de negócio. Diversificar o portfólio e acertar na distribuição será essencial

Gestão de Recursos / Temas / Reportagem / Edição 65 / 1 de janeiro de 2009
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Os gestores independentes estão mais humildes. Essa é uma das conclusões que se pode tirar de conversas com alguns deles após o agravamento da crise financeira no segundo semestre do ano passado. Eles começam 2009 nos mesmos endereços: a sofisticada região da avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, e o badalado bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Mas as cifras milionárias sumiram das suas carteiras. A indústria de fundos perdeu R$ 115 bilhões entre maio e outubro de 2008, segundo dados da Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid). Eles, os independentes, foram os mais afetados — com perdas que alcançaram, na maioria dos casos, mais de 50%. As baixas atingiram desde as estrelas do mercado até os mais desconhecidos. O efeito foi tão avassalador que uns simplesmente fecharam para captação e resgate. Outros demitiram, e um terceiro grupo iniciou um processo de consolidação no setor.

Em meio às seqüelas da crise, teve início também a depuração dos erros, que desembocou em dois ensinamentos principais: adequar o perfil do investidor aos riscos da aplicação e diversificar estratégias. Para resumir o primeiro, nada melhor do que o termo estrangeiro “suitability”. Suspeita-se que, se bem executado, o´ suitability teria evitado saques tão grandes num espaço reduzido de tempo. A prática visa a adequar a distribuição dos fundos ao perfil do investidor. Antes de iniciar a aplicação, o cotista responde a um questionário para que seja verificado se a política de investimento está de acordo com o seu perfil de risco.

Para se ter uma idéia do rombo, no quinto mês do ano, o patrimônio de todos os fundos no radar da Anbid somava R$ 1,186 trilhão. Em outubro, o montante havia recuado para R$ 1,071 trilhão — uma queda de cerca de 10%. Algumas independentes tiveram um tombo significativamente maior. A alavancadíssima gestora GWI, comandada pelo coreano Mu Hak You e especializada em contratos a termo, por exemplo, tinha R$ 940 milhões sob gestão em novembro de 2007 e viu seu patrimônio cair para R$ 293 milhões, em outubro de 2008 (veja quadrona página 22).

Entre maio e outubro, o patrimônio total da indústria de fundos caiu cerca de 10%; entre os independentes, essa redução chegou a 50%

Figura rara no Brasil até o início da década, o gestor independente se tornou comum quando uma leva considerável de talentos deixou os grandes bancos para montar negócios próprios. O intuito era “ficar rico”, como confidenciam alguns. O projeto vinha dando certo. Eles pegaram carona na queda da taxa de juros e no crescimento fortíssimo do mercado financeiro desde 2003, que fez o volume administrado pela indústria ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão. Em 2008, porém, o que era touro virou urso. E os que esbanjavam altas doses de confiança passaram a questionar suas próprias escolhas.

Marcos Elias, da gestora Galleas, é um deles. Engenheiro mecânico formado pela USP com MBA nos Estados Unidos, Elias era analista-chefe do banco -francês BNP no Brasil aos 30 anos. Em 2001, resolveu dar o grande salto na carreira. “Tinha propostas profissionais interessantes, mas queria empreender.” Ajudou a fundar a Gas Investimentos, em 2002. Dois anos depois, entrou como sócio na Link Corretora e, em 2006, abriu a Galleas. No fim de 2007, a gestora tinha um patrimônio de R$ 57 milhões. O número disparou para algo em torno de R$ 200 milhões nos dois fundos sob gestão de Elias, no primeiro semestre deste ano. A curva crescente virou em agosto, quando os índices de desempenho passaram a vir acompanhados de um sinal negativo.

A política de investimento era agressiva. De acordo com Elias, apenas 10% do patrimônio era aplicado em títulos públicos. Os outros 90% estavam alocados em ações de pequenas empresas, com pouca liquidez. Quando o mercado despencou, e a corrida por saques teve início, o desmonte de posições custou caro. “Calculo que mais de 30% das perdas no patrimônio foram decorrentes da depreciação dos ativos.” O restante veio com os saques, um movimento tão forte que obrigou o gestor a convocar uma assembléia para interromper o “efeito manada”. Não ajudou o fato de ser o segundo gestor a reunir os cotistas, logo depois que You, da GWI, arrepiou o mercado ao fazer o mesmo sob suspeita de não conseguir depositar margem para seus contratos a termo. Elias, no fim de outubro, convenceu o grupo de cotistas que ainda restava a aceitar a proposta de 180 dias de lockup, mecanismo que impede os saques na carteira. Além disso, juntou os dois fundos em um, com período de resgate de três meses. Ganhou, assim, 270 dias para gerir R$ 50 milhões, praticamente o mesmo patrimônio que tinha em dezembro de 2007.

“Foi um erro captar tão fortemente no mercado brasileiro”, confessa Elias. Mesmo fazendo entrevistas com os investidores, alertando-os sobre os riscos da carteira e a importância do horizonte de longo prazo, o gestor não conseguiu adequar os cotistas dos fundos ao perfil da aplicação. Ele acredita que os investidores institucionais seriam o destino ideal das cotas, mas elas foram pulverizadas entre pessoas físicas qualificadas que não suportaram acompanhar as perdas diárias no patrimônio dos fundos. A escolha dos investidores individuais foi, segundo Elias, por exclusão. Afinal, fundos de pensão, por exemplo, só podem investir em carteiras com histórico de alguns anos.

Walter Maciel, sócio da Quest Investimentos, foi outro a descobrir tardiamente como o suitability é importante para a saúde da indústria de fundos de investimentos. Após captar intensamente durante 2007, sua empresa independente tinha R$ 3,5 bilhões sob gestão no fim do ano. Em 2008, ele viu boa parte de seu patrimônio derreter até chegar a R$ 630 milhões, em outubro. O fundo Quest 30, que no seu auge tinha metade dos recursos da gestora, foi o mais afetado. Hoje, representa 25% do total. Lançado em 2004, tinha um posicionamento de longo prazo, conhecido como macro, que antecipava o comportamento de juros, dólar e bolsa. A estratégia é chamada de “kit Brasil”, por abarcar praticamente todas as alternativas de investimento possíveis aos multimercados. Com a experiência do seu sócio, o ex-diretor do Banco Central e ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, a carteira dava bons resultados. Em 2007, por exemplo, o retorno rodeou os 140% do CDI. Desde 2004, os ganhos sempre foram acima do indicador. “Isso fez o investidor acreditar que o risco era compatível com o seu perfil”, pontua Maciel. A crença durou até o Quest 30 chegar a 21% abaixo do CDI, no primeiro semestre de 2008.

O cenário não era nada bom para a especialidade da casa — fazer projeções. Ficou difícil, como ainda está, descobrir os rumos da economia. Em julho, a Quest comunicou aos cotistas que mudaria a forma de alocar os recursos da carteira dos fundos. Desfez as posições em renda variável, que representavam cerca de 15% do patrimônio, e passou a realizar operações de um dia (day trade). Embora oposta à expertise da gestora, a estratégia fez com que o fundo recuperasse dez pontos percentuais de rentabilidade até novembro. O patrimônio se equilibrou nos últimos dois meses.

“O investidor brasileiro é muito atento ao retorno das cotas”, resume Thiago Castro, sócio da Tag Investimentos, consultoria que aloca recursos dos seus clientes em carteiras de diversas instituições. Por atuar como intermediário na indústria — analisando o resultado dos fundos e captando investidores dos mais variados perfis —, Castro conhece bem as características do aplicador nacional. A divulgação diária do preço das cotas, por exemplo, inquieta esse investidor. Ela motivou uma das dicas que a Tag dá a seus clientes. “Se o período imaginado para a aplicação está longe do fim, esqueça o valor diário da cota.”

Além de preocupado com o curto prazo, o poupador brasileiro está mal acostumado com as taxas de retorno da renda fixa. Essa expectativa, inclusive, foi um fator decisivo para a migração de recursos para os fundos multimercados. Alcançar o CDI tornou-se um patamar mínimo na visão desses aplicadores. “Digo que o investidor nacional acha que tem o ‘direito divino’ ao CDI, aplicação com média de retorno de impressionantes 20% ao ano na última década. Poucas indústrias no mundo trabalham com um paradigma tão alto.”

CONCORRÊNCIA ACIRRADA — O ambiente piora quando outros produtos de investimento aumentam os prêmios, acirrando a disputa pelos investidores. No ano passado, a concorrência que mais prejudicou a indústria de fundos em geral — e os independentes em particular — foi a do Certificado de Depósito Bancário (CDBs) emitido por grandes bancos. Para acompanhar o crescimento da economia e ampliar a oferta de crédito, essas instituições captaram de forma agressiva no mercado nacional, depois que as fontes internacionais secaram no início de 2008. Os títulos de dívida passaram a oferecer rentabilidade acima de 105% do CDI, com pouquíssimo risco. Serve de consolo a expectativa de que, em 2009, a captação dos bancos não deve ser tão forte, visto que a velocidade de expansão da oferta de crédito tende a diminuir. Por essa e outras razões, as perspectivas da Anbid ainda são otimistas. A associação prevê uma expansão de 20% no patrimônio da indústria de fundos de investimento.

A Neo Investimentos é uma das independentes que trabalham com a projeção de recuperação. Os 40 funcionários da gestora, com sede na avenida Faria Lima, geriam R$ 1,1 bilhão em dezembro de 2007. O patrimônio despencou para R$ 520 milhões no decorrer de 2008, e oito profissionais foram dispensados. Wagner Murgel, sócio da gestora, admite que a Neo persiste com capacidade ociosa, mas espera reverter a situação em breve. “Faz parte da estratégia. Os investidores vão voltar e, quando isso acontecer, não precisaremos contratar.”

A Fama Investimentos não precisou demitir. Mesmo com os saques que reduziram o patrimônio de R$ 1,9 bilhão para R$ 700 milhões em um ano, segundo a Anbid, a equipe continua com 15 profissionais. A gestora tem uma década e meia de vida e algumas crises superadas no currículo. De acordo com o sócio Fabio Alperowitch, a experiência levou a escolhas que garantem sua tranqüilidade. Uma delas foi a diversificação das fontes de captação de recursos. “Há anos focamos em fundos offshore, que não aparecem no levantamento da Anbid.” Diversificar o portfólio de produtos é outra preocupação da Fama. No início de setembro, conta Alperowitch, a gestora concluiu a captação de seu primeiro fundo de private equity. Foram comprometidos cerca de R$ 100 milhões que vieram para aumentar o patrimônio e o portfólio da Fama, composto de seis fundos de ações e três multimercados.

UNIÃO DE COMPETÊNCIAS — A estratégia de oferecer produtos variados atenua os efeitos da deterioração provocada por cenários turbulentos. O argumento usado pelas gestoras que se uniram — movimento que pode ser o início de uma ampla consolidação dos independentes — é exatamente o de expandir as modalidades de aplicação. Foi com essa justificativa que a Máxima Asset Management anunciou, no dia 11 de dezembro, a incorporação da Mandarim. Juntas, elas administrarão R$ 400 milhões. A junção propiciará mais expertise para lançar novos produtos e reagir com versatilidade ao humor dos mercados. “Só uma coisa garante a permanência do investidor num fundo: resultado. Fusão tem de gerar retorno para o investidor. Caso contrário, ele vai embora do mesmo jeito”, diz Alperowitch.

O sócio da Fama não acredita em um movimento contundente de fusões das gestoras de recursos. Seu argumento está calcado em uma particularidade desse segmento — a forte ligação do gestor com o cotista. Uniões de gestoras podem enfraquecer essa relação. Outro a duvidar da propagação de negócios entre gestoras é Elias, da Galleas, para quem a demissão de profissionais criará opções de mão-de-obra mais em conta que as fusões. “Incluir sócios não é barato.”

Talvez ainda seja cedo para prever o grau de consolidação deste segmento, mas é certo que a indústria não será a mesma nos próximos anos. A Anbid pretende concluir, até o fim de 2009, o cadastro de todos os clientes de private banking do País. É o passo fundamental para instituir o suitability na maior clientela das gestoras independentes. Duas conseqüências são esperadas: ao mesmo tempo em que os cotistas passarão a estar mais adequados às características do investimento — dando mais conforto aos gestores —, o volume aplicado em multimercados e fundos de ações tenderá a diminuir. Isso porque, pelo visto, o apetite por risco do investidor brasileiro foi superestimado.


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