A busca pelo nirvana da gestão

Disciplina de processos pode ajudar as empresas a alcançarem resultados extraordinários

Bimestral/Gestão de Recursos/Prateleira/Temas/Edição 79 / 1 de março de 2010
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Como disse o guru da reengenharia Gary Hamel em seu último livro (O Futuro da Gestão), em um mundo de vantagens competitivas fugazes, a gestão é uma das poucas habilidades que nunca perdem espaço. Em O Verdadeiro Poder, o renomado consultor Vicente Falconi deixa isso claro ao relatar suas experiências. Ele foi responsável por auxiliar grandes companhias como Ambev e Lojas Americanas a alcançarem resultados extraordinários.

Nesse livro, Falconi mostra que gerenciar nada mais é do que resolver problemas. Logo, todo processo de gestão deve se iniciar pela identificação do que está errado. Eis o primeiro entrave à adoção dessa ideia, já que o mais comum é ouvirmos que “em nossa empresa não há problemas”. A partir da identificação do que vai mal, as companhias devem sistematizar soluções por meio de processos, além de acumular conhecimento para perseguir constantemente a inovação.

Para que os problemas possam ser claramente reconhecidos, eles devem ser objetivos e mensuráveis. No mundo corporativo, nada melhor que investigar indicadores financeiros para entender padrões de rentabilidade e produtividade, estabelecendo focos objetivos e transparentes de melhoria. Essas metas, por sua vez, precisam desdobrar-se em suas componentes básicas para cada estrato da organização, criando um alinhamento entre as metas da empresa, as das diretorias, as das gerências, as das coordenações e, finalmente, as do chão de fábrica. Esse processo se apoia em, basicamente, três fatores de sucesso: liderança, conhecimento técnico e métodos ou processos.

O autor tem um longo histórico de envolvimento com a metodologia da qualidade total (conceito dos “six sigma”). O ciclo de gestão, em sua visão, pode ser representado pelo método gerencial que se transformou na alma do sistema Toyota de produção, o chamado PDCA (plan – do – check – act). Esse processo é citado várias vezes e compõe um dos pilares da metodologia proposta. Uma interpretação possível é que o livro consiste em uma releitura dos conceitos de gestão de Peter Drucker sob a lente da qualidade total. Embora apresente boa organização de ideias, a exposição densa e sucinta dos conceitos — a obra tem apenas 126 páginas — restringe o público-alvo. O livro torna-se, portanto, mais interessante para a alta gestão, os conselheiros e os consultores seniores.

Falconi também ressalta um aspecto muitas vezes negligenciado pela gestão das organizações: a disciplina dos processos. Para muitos profissionais, essa constatação não deve gerar espanto. Afinal, no mundo corporativo, zelar pela consistência dos processos é uma das tarefas menos glamourosas. Não é raro ouvirmos comentários de que “processos tolhem a criatividade e a flexibilidade”. Aliás, talvez o maior benefício da implementação dos Enterprise Resource Plannings (ERPs) — sistemas que integram todos os dados e processos de uma organização em um único lugar — seja a padronização dos processos. Ao fazer isso, as companhias reduzem significativamente o número de não conformidades.

Contudo, uma pergunta paira no ar após concluirmos a leitura: o que impede qualquer organização de adotar essa metodologia? A rigor, nada. Mas o fator crítico de sucesso é um ingrediente raro: o apoio visível e irrestrito da liderança da companhia. Apenas os líderes empresariais com a determinação e a perseverança de trilhar o árduo caminho da disciplina dos processos têm uma chance de chegar ao nirvana dos resultados extraordinários. Como diz o ditado chinês, uma jornada de mil quilômetros começa com o primeiro passo.


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