Vida simples

Eduardo Giannetti da Fonseca, economista e cientista social: “Tenho aversão à ideia de exercer um cargo público.
Não tenho perfil para isso”.

Retrato/Edição 131 / 1 de julho de 2014
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O economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca nunca exerceu um “trabalho no sentido corriqueiro” do termo, com horário e funções pré-definidas. Bem que tentou. Em 1993, quando já se destacava pela originalidade do pensamento numa coluna semanal da Folha de S. Paulo, foi convidado pelo empresário Jorge Paulo Lemann para dar expediente no Banco Garantia. “Eu vivia apertado com o salário de professor universitário; me sentia culpado por sacrificar a família com a opção de uma vida totalmente intelectual.” O emprego de economista de banco de investimentos durou uma semana. “Um dia, perdido no meio dos operadores, abri um livro e comecei a estudar. Todos me olharam como se eu fosse um E.T. Não podia trabalhar num ambiente onde ler um livro é uma coisa deslocada.”

Lemann entendeu os motivos da demissão, porém lamentou: “Achei que você ia dar um verniz de cultura a essa turma”. A frase nunca mais saiu da cabeça de Giannetti. Talvez porque, duas décadas depois, o trabalho que lhe garante alguma folga financeira e tempo flexível para os estudos seja justamente o de dar um verniz a plateias ávidas por cultura, reflexão, filosofia, análises sociais e econômicas. Só no ano passado, ele foi contratado para 76 palestras pagas, além dos convites sem remuneração que aceita por engajamento. Isso inclui, atualmente, compromissos de campanha da chapa de Eduardo Campos e Marina Silva à presidência da República.

O engajamento partidário deste pensador que até 2010 se orgulhava da total independência das análises econômicas é culpa — ou mérito — da ex-senadora Marina. “Eu nem revelava meu voto, mas depois de conhecê-la resolvi ajudá-la a fazer parte da vida pública brasileira.” Antes que alguém o imagine ministro de um eventual governo, ele adianta: “Tenho aversão à ideia de exercer um cargo público. Não tenho perfil para isso”.

Desde a curta experiência no Garantia, Giannetti vem adequando a vida cotidiana ao próprio perfil, tornando-se quem de fato é, como diria Nietzsche (autor que repousa em sua cabeceira, em trechos selecionados por Gérard Lebrun e traduzidos por Rubens Rodrigues Torres Filho). Ele, que não tem carro nem empregado doméstico, mantém-se informado pelo rádio enquanto lava a louça ou faz a barba. “Simplifiquei a vida para ter mais tempo livre.” Desde a mudança para o bairro paulistano da Vila Madalena, faz tudo a pé. Em deslocamentos maiores, especialmente para o aeroporto, utiliza táxi (entra e pede para ouvir a rádio CBN), embora frequentemente a produção dos eventos lhe envie um carro com motorista.

Giannetti chega sempre tímido aos bastidores da palestra ou do programa de televisão, mas basta os refletores se acenderem para sua presença esguia (1,93 metro de altura) dominar o ambiente. “É como se eu estivesse comigo mesmo; fico alheio à situação”, diz, atribuindo o sucesso das apresentações em público ao treino. “No começo, escrevia até a piada.” Descobriu a capacidade de improvisar por causa de um mal-entendido, quando era conselheiro da Bovespa. Ele esperava o elevador para ir ao almoço do conselho, quando encontrou um amigo: “Eduardo, vim aqui só para ouvi-lo!” Em vez de convidado, Giannetti era aguardado como palestrante. “Tive uns cinco minutos para me estruturar, e ninguém percebeu.”

Mais que treino, porém, as boas apresentações são fruto de uma trajetória acadêmica e intelectual que produziu oito livros (incluindo O valor do amanhã, que gerou uma série estrelada por ele no programa de televisão Fantástico, e o best-seller Felicidade) e se iniciou graças a uma puberdade tardia. Quando estava no ensino médio, Eduardo era o mais baixo da classe, um menino no meio de rapazes, e os livros foram o refúgio natural para sua solidão. “Foi a maneira que encontrei de me manter vivo, protegido de um mundo que de repente se tornara hostil para mim.” A leitura de Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski, aos 16 anos, foi tão intensa que plantou nele “uma semente de fantasia”: passar a vida habitando aquele universo. “Percebi ali que gostaria de não perder o contato com o mundo da interioridade, da reflexão filosófica, da indagação sobre a existência.”

Mas o pai, “um mineiro antigo”, já havia alertado os filhos de que o apoio financeiro acabaria no fim da faculdade. Giannetti desistiu da filosofia para seguir o mesmo curso de economia do irmão mais velho. “Foi uma razão prudencial”, conta. “E também porque eu queria fazer uma pós-graduação fora do País, e as bolsas eram mais comuns em economia.” A prudência, porém, não o impediu de passar boa parte da faculdade na USP militando em uma corrente política trotskista e estudando Marx, enquanto cursava disciplinas da filosofia depois de também ter feito vestibular para ciências sociais. Resultado: quando um professor o indicou para fazer doutorado em economia em Cambridge, viu-se numa enrascada. “No primeiro ano probatório, já na Inglaterra, estava a ponto de bombar em econometria. Eu não tinha feito uma boa graduação, porque passava os dias estudando marxismo e filosofia alemã.”

Para não voltar ao Brasil “com o rabo entre as pernas”, dirigiu-se ao diretor da universidade e propôs uma ousadia: em vez da prova de econometria, ele faria um ensaio sobre os fundamentos hegelianos do marxismo, que seria submetido a um professor especialista em Marx do departamento. “Eu precisava mostrar que não era um idiota.” Não só foi aprovado para o doutorado como mais tarde obteve uma bolsa de estudos em um programa com liberdade para pesquisar o que quisesse durante três anos, perfazendo sete anos em Cambridge. Foi dessa tese que nasceu seu primeiro livro, Beliefs in action. Na obra, Giannetti conclui que o poder e o papel das ideias são extremamente limitados e não influenciam os “homens práticos”, como ele imaginava inicialmente.

São justamente os homens práticos, contudo, aqueles que estão interessados em suas palestras e livros. Ter consciência dessa limitação não o desanima em sua jornada intelectual?, pergunto. Giannetti sorri e responde que isso depende do ponto de vista. “Desanima quanto à motivação transformadora, de mudar o mundo pela persuasão e pelo convencimento. Mas não desanima se a principal motivação é o próprio conhecimento.”




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