Quando o lucro não basta

A busca por um modelo mais holístico para garantir retorno à sociedade

Prateleira / 4 de fevereiro de 2018
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O termo “investimento de impacto” foi cunhado pela primeira vez em 2007, nos EUA. Às vésperas de uma crise financeira que logo eclodiria, desconfortos com o capitalismo como mola propulsora do bem-estar começavam a tomar forma, simultaneamente a uma transição geracional de consequências ainda pouco compreendidas. Hoje testemunhamos a maior transferência de riqueza de uma geração para outra já registrada — a dos baby boomers para os millennials. E esse é um dos panos de fundo de Investing with Impact: Why Finance is a Force for Good, de Jeremy Balkin. 

A obra começa com uma análise dos impactos do capitalismo. A despeito de suas mazelas, ele ainda é o arranjo econômico que propiciou a maior evolução nos padrões de vida no mundo. Nesse contexto, o mundo das finanças existe para conectar ideias inovadoras ao capital necessário para desenvolvê-las. No entanto, essa dimensão econômica parece insuficiente para endereçar as necessidades dos millennials; logo, é preciso expandir o modelo de investimento para que atenda a seus anseios de inclusão social e sustentabilidade.

Pode-se argumentar que investimentos sempre provocaram externalidades positivas, como criação de empregos e impostos para bancar causas sociais. A diferença com relação aos investimentos de impacto diz respeito a causalidade: as externalidades são aqui tratadas com intencionalidade e não como um efeito colateral.

O exemplo mais conhecido é o social impact bond (SIB), um mecanismo financeiro com o qual o governo remunera o investidor pelo sucesso em programas sociais — baseado em resultados reais, mensuráveis e documentados. O pagamento só é feito após encerrado o contrato, ao contrário do que ocorre em programas governamentais, nos quais os recursos são liberados antes dos resultados e é baixa prestação de contas e elevada a ineficiência. A primeira experiência com SIB de que se tem notícia foi no Reino Unido em 2010. Na ocasião, um SIB foi criado para se evitar a reincidência criminal de 3 mil encarcerados não violentos com penas abaixo de 12 meses. O valor do financiamento foi 5 milhões de libras, e os resultados mostram ganhos para todos os envolvidos¹.

O tema é atual e relevante, mas o livro é superficial ao discutir mecanismos para implementação de estratégias de investimento de impacto. O autor escorrega na tática de batizar sua metodologia “revolucionária” com um acrônimo grudento — o “paradigma dos 6 Es” (economics, employment, empowerment, education, ethics, environment), sem qualquer exemplo de aplicação. A metodologia cobre os principais pontos de atenção, mas falha em atribuir-lhes importância relativa, algo fundamental para a classificação de oportunidades e a gestão de recursos. Por exemplo: deve-se aceitar um retorno financeiro medíocre diante de retornos elevados em termos sociais?

Mas esses deslizes não obscurecem uma ideia importante. De fato, não basta preocupação exclusiva com o crescimento da pizza; é preciso considerar como fazer sua divisão e incluir os marginalizados. Essa é a única forma de se promover estabilidade e equilíbrio, fundamentais para que mesmo aqueles que detêm as riquezas possam delas desfrutar com paz de espírito.


Investing with Impact: Why Finance is a Force for Good
Jeremy Balkin
Editora: Routledge
207 páginas
1a edição, 2016


* Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente

 




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Tags:  Gestão de Recursos finanças investimento prateleira investimento de impacto social impact bond SIB Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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