De zero a um

Da ideia revolucionária até o negócio com crescimento exponencial, nas palavras de uma lenda do Vale do Silício

Companhias abertas / Prateleira / Edição 142 / 1 de junho de 2015
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zero_to_oneEm toda criação de um produto ou serviço inovador, há duas etapas distintas. Uma coisa é sair do zero para alcançar o primeiro protótipo ou cliente; a outra reside em, partindo do marco inicial, chegar a milhões ou bilhões de unidades. Esse foi o mote de um seminário de Peter Thiel na Universidade Stanford, que acabou se tornando o ponto de partida de seu livro Zero to one, publicado em 2014. O autor é “empreendedor serial” e investidor: fundou o PayPal em 1998 e foi, em 2004, a primeira pessoa a injetar recursos no Facebook, além de ter desenvolvido vários outros projetos e investimentos por meio de sua empresa Founders Fund.

Ao longo da narrativa não linear — os capítulos são uma coleção de ensaios —, Thiel destila algumas pérolas essenciais de sua experiência como empresário e investidor em startups. Puxando a lista de ideias controversas, defende que os empreendedores deveriam lutar para criar monopólios (o conceito número 1 da lista); essa seria a única maneira de escapar da rentabilidade medíocre que aprisiona todos os participantes de mercados ultracompetitivos. Embora, obviamente, a criação de monopólios não seja algo simples, ele dá pistas a respeito de como chegar lá. Simplificando, trata-se de procurar conceber algo com as seguintes características: tecnologia proprietária; efeito de rede (quanto mais gente usa, mais valioso é o produto); escalabilidade (custo marginal de expansão baixo); e marca.

E, como estabelecer monopólios operando no status quo é muito difícil, deve-se evitar a busca de meros avanços incrementais em relação à tecnologia atual (conceito 2), que trarão vantagem efêmera sobre os competidores. Numa analogia com o jogo de beisebol, não tente bater a bola para alcançar a primeira base; procure arremessá-la para fora do estádio, de preferência para a lua! Não é à toa que o termo da moda, “disruptivo”, apareça sempre ligado à palavra tecnologia.

A ideia seguinte de Thiel é que não adianta juntar otimismo, gente brilhante e capital e simplesmente acreditar que as coisas vão acontecer. Fazer isso equivale a comprar um tíquete de loteria. Em outras palavras, é fundamental planejar e adaptar a visão ao longo do trajeto. O conceito 3 poderia parecer óbvio se não fosse comum, nos círculos de tecnologia, o “argumento” de que planejar é fútil, diante da velocidade de mudança. Mas a sorte parece sorrir àqueles que planejam.

Por fim, o autor recomenda muito cuidado e diligência na escolha de seus parceiros de jornada (conceito 4): os sócios-fundadores, os investidores e os gestores executivos. Como ouvi outro dia, responda a si mesmo se os participantes desse grupo compartilham de um objetivo comum, entendem que dependem das habilidades de cada um para vencer e confiam uns nos outros.

Fazer o que alguém já faz pode levar você de um a “n” (incontáveis clientes ou exemplares de seu produto). Ao executar algo original, contudo, você passa de zero a um. Os campeões de amanhã não vão lançar um novo sistema operacional ou mecanismo de busca na internet; eles trarão algo verdadeiramente revolucionário, alterando o status quo de alguns setores de forma avassaladora e definitiva. Por exemplo, se ainda não viu o vídeo de lançamento das novas baterias da Tesla apresentado por Elon Musk (ex-sócio de Thiel na PayPal), assista na internet e vai entender. Zero to one trata de aspectos filosóficos da experiência empreendedora e, definitivamente, afasta-se do perfil de “manual de faça você mesmo”. Se você é um empreendedor, a leitura vai provocar uma série de questionamentos críticos em seu preparo para a jornada de criação empresarial.

Zero to one: notes on startups, or how to build the future – Peter Thiel e Blake Masters – Editora: Crown Business – 224 páginas, 1ª edição, 2014




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