Contra a corrente

A história da economia comportamental contada por um de seus principais arquitetos

Prateleira / Edição 146
/ 1 de novembro de 2015
Por 


Misbehaving: The making of Behavioural Economics Richard H. Thaler Editora: Penguin 432 páginas 1ª edição, 2015

Misbehaving: The making of Behavioural Economics
Richard H. Thaler
Editora: Penguin
432 páginas
1ª edição, 2015

Em qualquer campo da ciência, as mudanças de paradigma e o alcance de novos patamares de conhecimento pela raça humana dependem, invariavelmente, de alguns “hereges” que desafiam a teoria hegemônica que falha em explicar a realidade. Richard Thaler, autor de “Misbehaving: the Making of Behavioural Economics”, é um desses heróis improváveis. Em seu livro, ele conta sua luta épica contra a ortodoxia econômica desde o surgimento do campo da economia comportamental.

A obra é imperdível para aqueles que apreciam história econômica e o difícil processo de evolução do conhecimento. A aceitação pelo “establishment” das teorias que compõem o campo da economia comportamental pode ser comparada ao desafio de Copérnico para provar que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Thaler conduz sua história ao redor do tema por meio de um texto bem-humorado e rico em situações reais, ao mesmo tempo em que desfila o desenvolvimento da teoria econômica dos anos 70 até hoje.

Em resumo, a ortodoxia econômica prevalecente no século 20 é alicerçada na premissa de que os indivíduos vivem tomando decisões para maximizar seu lucro ou sua utilidade (“economês” para felicidade). No entanto, alguns economistas perceberam que os seres humanos desviam do comportamento esperado numa série de situações práticas. Em outras palavras, humanos não são “econos” (seres míticos que se comportam conforme previsto pela teoria econômica).

O desenvolvimento intelectual de Thaler no campo da economia comportamental nos brinda com a própria história da evolução dessa disciplina. Sua carreira se inicia na Universidade de Rochester, onde, como doutorando e aspirante a professor assistente, começa a colecionar situações práticas nas quais os humanos não se comportam como “econos”. A partir da leitura de alguns textos de psicologia, decide mudar para a Califórnia, onde trava intenso contato com Daniel Kahnemann e Amos Tversky (que viriam a ganhar o prêmio Nobel de Economia) e sua teoria de psicologia das decisões (prospect theory). Continuando sua cruzada intelectual, o autor aborda a questão de autocontrole e como os humanos tratam o valor do prazer futuro versus o prazer presente (a inconsistência temporal é um pesadelo para os economistas ortodoxos). Mas a questão fica mesmo séria quando o objeto do ataque é a teoria dos mercados eficientes e a “lei do preço único” no campo das finanças. A partir daí, a artilharia do “establishment” deixou de desdenhar a guerrilha, e a batalha acadêmica ganhou nova dimensão. Curiosamente, nesse momento a principal fortaleza intelectual das finanças, a tradicional escola de Chicago, acolhe Thaler como professor. Como diria Al Pacino, “mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos mais perto ainda”.

A coragem intelectual e a determinação são fundamentais para o avanço do conhecimento. Após três décadas fustigando alguns dos principais pilares da microeconomia, Thaler volta sua atenção para o campo da macroeconomia, onde existe ainda mais distância entre teoria e prática. Hoje ele é presidente da American Economic Association e, em 2016, seu reputado colega da universidade de Yale Robert Shiller (outro “contrarian”) assumirá a função. Segundo Thaler, agora “os loucos estão tomando conta do hospício”. Quem sabe não veremos avanços também no campo macro?


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