Garimpando inovação

Primeiro fundo brasileiro dedicado exclusivamente ao capital semente começa a preparar sua saída das empresas investidas

Especial/Relações com Investidores/Edições/Temas/Private Equity - Coletânea de Casos 2009/Reportagem / 1 de agosto de 2009
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O plano era empolgante: reunir um grupo de investidores-anjo para aplicar em empresas de forte base tecnológica. A ideia era de Levindo Santos, brasileiro que passou uma temporada em bancos de investimento norte-americanos e viu dezenas de projetos do tipo vingarem. Nos Estados Unidos, montar uma estrutura de investimento como essa é quase corriqueiro, principalmente quando estão na mira empresas de pólos tecnológicos como o Vale do Silício, na Califórnia, berço de negócios hoje colossais como Google, Microsoft e Apple. No Brasil, o passo seria bem mais audacioso. Mas foi assim, a partir de uma aspiração pessoal, que surgiu em 2004 o primeiro fundo destinado exclusivamente ao capital semente no Brasil.

Santos levou o projeto até José Luiz Osório, que acabava de fundar a gestora de recursos Jardim Botânico Partners. O grupo informal de investidores concebido originalmente deu lugar a um fundo de investimento em empresas emergentes inovadoras (FMIEE), modalidade regulada pela Instrução 209 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nasceu, então, o Novarum, com R$ 15 milhões em capital comprometido. Os sócios da Jardim Botânico — três, na época — aportaram recursos próprios, juntamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Icatu e a Coteminas. A estratégia era focar nas empresas com os melhores projetos dentro do segmento de ciências da vida (como biotecnologia) e tecnologia da informação (como desenvolvimento de softwares). Começou aí o desafio.

“Analisamos cerca de 200 empresas durante os três anos previstos para a alocação do capital”, lembra Santos. Não faltavam sonhos e invenções inusitados. Um deles previa um avião para voos espaciais. Outro, a comercialização de um equipamento que facilita o empacotamento com sacolas plásticas no supermercado. Logo de cara, 95% foram rejeitados. Mas 25 projetos foram seriamente analisados. Desses, o comitê de investimentos avaliou oito. Seis foram aprovados, dentre startups e empresas com faturamento de até R$ 500 mil ao ano.

A Sensedia começou com faturamento inferior a R$ 200 mil ao ano. Hoje esse valor ultrapassa R$ 1 milhão

Uma das empresas selecionadas foi a Sensedia. Em 2006, seus sócios tinham saído em busca de recursos para desenvolver produtos de reutilização de softwares — tecnologia que permite o reaproveitamento de partes de um software em outro programa. A técnica acelera o processo de desenvolvimento e racionaliza custos ao evitar que os programadores tenham de refazer itens que já foram usados antes. “Não optamos pelo financiamento via dívida, porque queríamos investidores que agregassem experiência e nos ajudassem com seu networking”, explica Fernando Matt, CEO da empresa. A Sensedia foi apresentada à Jardim Botânico por um consultor de negócios. Em cinco meses, estava tudo acertado para sua entrada na carteira do Novarum, que comprou uma participação de cerca de um terço do capital, além de um dos cinco assentos do conselho de administração.

A Sensedia está colhendo os frutos da parceria com o capital de risco. Começou com cinco funcionários e faturamento inferior a R$ 200 mil ao ano, sempre focada na reutilização de softwares. Hoje, conta com uma equipe de 20 pessoas, faturamento anual de mais de R$ 1 milhão, filial nos Estados Unidos e clientes de grande porte como Vale, Embraer, Nextel e diversas fabricantes de software. As metas da Sensedia são agressivas. Em cinco anos, pretende faturar US$ 20 milhões. “Estamos mais do que dobrando a receita a cada ano”, conta Matt.

O potencial de ganho dos fundos de capital semente é grande. Mas nem todas as investidas atingem as expectativas. O Novarum segue em carteira com cinco das seis empresas escolhidas inicialmente. Além da Sensedia, investe na ComunIP, desenvolvedora de aplicações para transmissão multimídia em tempo real; na Biocancer, focada em pesquisas de drogas contra o câncer; na Bioexton, fornecedora de soluções para tratamento de resíduos orgânicos; e na Nanox, uma startup de nanotecnologia.

O único desinvestimento feito até o momento gerou prejuízo. Após três anos de participação, o fundo deixou a Excegen, empresa mineira focada na pesquisa e no desenvolvimento de produtos e serviços na área da genética molecular. “Percebemos que eles não teriam chance de realizar o projeto”, justifica Santos. Para as demais empresas da carteira, a perspectiva da Jardim Botânico é positiva. O prazo para desinvestimento termina no ano que vem, mas pode ser prorrogado por mais três anos. Enquanto isso, a gestora começa a estudar as melhores oportunidades de saída, apesar de não ter selado o destino de nenhuma delas. As opções em análise são a venda para um investidor estratégico ou para fundos de venture capital, que buscam empresas no estágio de desenvolvimento das investidas do Novarum. Simultaneamente, começa a sair da gaveta o Novarum II. O plano é iniciar a análise de projetos em 2010.




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Tags:  Private equity e venture capital Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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