Querosene verde nos ares

TAM quer criar uma plataforma brasileira de bioquerosene de aviação feito a partir do pinhão-manso

Especial / Governança Corporativa / Temas / Reportagem / Sustentabilidade – Coletânea de Casos / 1 de abril de 2011
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O pinhão-manso, o fruto de casca dura de um arbusto nativo do Brasil e da África, não servia nem para alimentação do gado. Quando os fazendeiros brasileiros plantavam a árvore, era para fazer cercas em suas propriedades. Há alguns anos, porém, pesquisadores em trabalho na África perceberam as qualidades da planta para a produção de fonte rentável de óleos combustíveis. E os brasileiros não demoraram a tomar conhecimento desse potencial. O pinhão-manso, ou Jathropha Curcas L., passou a ser cultivado no País para extração de óleo e para estudos em laboratório. O intuito era aperfeiçoar essa nova e valiosa fonte de biocombustível.

A TAM tornou-se protagonista dessa redescoberta. Em dezembro de 2010, fez o primeiro voo experimental com bioquerosene de aviação da América Latina, trazendo para o Brasil uma tecnologia norte-americana em teste desde o fim de 2008. O voo decolou do aeroporto internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, e sobrevoou o espaço aéreo brasileiro por 45 minutos. O projeto da companhia aérea é criar uma cadeia de valor para a produção de combustível com o pinhão-manso. Ao lado da Airbus, fabricante de suas aeronaves, a TAM quer gerar demanda e desenvolver fornecedores que produzam e distribuam o biocombustível. “A realização do voo experimental materializa a participação da TAM num amplo projeto de desenvolvimento da cadeia produtiva de biocombustível de biomassa vegetal, com o objetivo de se criar uma plataforma brasileira de bioquerosene de aviação sustentável”, afirmou o presidente da TAM, Líbano Barroso, em nota divulgada logo após o voo.

Os estudos de viabilidade econômica do uso do pinhão-manso para a produção do combustível estão no início. Mas seu objetivo é claro: aliar redução das emissões de gases de efeito estufa com geração de renda no campo. Segundo a UOP, empresa do grupo americano Honeywell criadora do bioquerosene de aviação, o Honeywell Green Jet Fuel emite entre 65% e 80% menos gases de efeito estufa que o querosene produzido exclusivamente do petróleo. Ao mesmo tempo, por consumir pouca água, resistir à seca e conviver com outras culturas, o pinhão-manso pode ser uma alternativa de renda tanto para a agricultura familiar quanto para o agronegócio, sem concorrer com o plantio de alimentos. “A produção do biocombustível com o pinhão-manso vai contribuir para uma redução relevante da emissão de gases nocivos ao meio ambiente pelo setor de aviação. Além disso, ao usar uma matéria-prima brasileira, a iniciativa trará benefícios econômicos e sociais importantes para o País”, resume o gerente de energia da TAM, Paulus Figueiredo.

Uma das vantagens do bioquerosene de aviação utilizado pela TAM é o fato de ele não exigir a adaptação dos motores

No desenvolvimento da cadeia de valor do bioquerosene, a TAM trabalha em parceria com a Brasil Ecodiesel, a Curcas, firma brasileira especializada em projetos de energia renovável, e a Associação Brasileira dos Produtores de Pinhão-Manso (ABPPM). Por intermédio da Curcas, a TAM adquiriu de produtores do Norte, Sudeste e Centro-Oeste as sementes de pinhão-manso utilizadas no bioquerosene do voo experimental.

O projeto prevê a construção de uma unidade de plantio, em escala reduzida, no Centro Tecnológico da TAM em São Carlos (SP), onde 4,35 hectares foram destinados para o cultivo experimental de pinhão-manso. O objetivo é estudar as melhores práticas agrícolas, o material genético da planta e a viabilidade do cultivo. “Economicamente, o pinhão-manso ainda não é um caminho viável. Os trabalhos em São Carlos visam a apoiar os avanços de produtividade por hectare”, explica Figueiredo.

Os estudos de sustentabilidade da cadeia — a cargo da Universidade Yale, nos Estados Unidos — serão financiados pela Airbus. A TAM não divulga quanto investe no projeto. Além da Airbus, a AirBP, divisão aeronáutica da British Petroleum, é parceira no desenvolvimento do mercado. Para o voo experimental, o óleo de pinhão-manso semirrefinado foi exportado para os Estados Unidos, onde foi processado em bioquerosene pela UOP e depois importado pela TAM. A AirBP cuidou do transporte e da armazenagem do combustível.

Uma das vantagens de sua tecnologia, declara a UOP, é o fato de a adaptação dos motores ser desnecessária. O bioquerosene é produzido numa mistura meio a meio entre querosene convencional, à base de petróleo, e diversos tipos de óleos vegetais e de algas. Detentora de cerca de três mil patentes mundo afora, a UOP relata em seu site cinco voos experimentais com companhias de aviação civil, desde o fim de 2008, quando a Air New Zealand fez o primeiro teste.

De acordo com o site da UOP, o bioquerosene deverá ser aprovado, ainda em 2011, para uso na aviação comercial pela ASTM International, principal entidade de metrologia do mundo, sediada nos Estados Unidos. A aprovação do uso do Honeywell Green Jet Fuel na aviação brasileira pode ser facilitada pela Parceria para o Desenvolvimento de Biocombustíveis de Aviação, assinada por Brasil e Estados Unidos durante a visita do presidente norte-americano, Barack Obama, em março.


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