Poupança universitária

Pacientes, ousados e com retornos surpreendentes, fundos endowment miram o Brasil

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 54 / 1 de fevereiro de 2008
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Em dezembro de 2007, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga ganhou as páginas das publicações financeiras ao anunciar a venda de 12,5% do capital da Gávea Investimentos, da qual é sócio-fundador, para a Harvard Management Company (HMC). Os valores envolvidos na transação não foram divulgados. Mas o negócio, em si, é suficiente para atrair a atenção, não só pela fama e o sucesso do ex-discípulo do megainvestidor George Soros, mas também porque simboliza o interesse cada vez maior pelo mercado brasileiro de um tipo de investidor estrangeiro ainda pouco conhecido por aqui: o “endowment”.

Nos últimos dez anos, os endowments apresentaram, em média, rentabilidade de 8,6%, ante uma valorização de 7,1% do S&P 500

Endowment é o termo atribuído nos Estados Unidos a fundos cujo propósito é gerar receitas para a manutenção de organizações sem fins lucrativos, sobretudo universidades. Geralmente, a origem desses recursos são doações de ex-alunos. A HMC é a companhia subsidiária da Universidade Harvard, do estado de Massachusetts, responsável por gerir um patrimônio de US$ 42,8 bilhões da estrelada instituição de ensino superior. Desse total, US$ 34,9 bilhões (81,5%) provêm dos cerca de 11,1 mil fundos endowment da entidade. Cada um desses veículos de investimento tem objetivos específicos, como financiar bolsas estudantis, salários de professores ou a construção de centros de pesquisa.

Sempre com horizonte de longo prazo, esses investidores impressionam por sua excepcional capacidade de gestão. Nos últimos dez anos, os endowments de universidades e faculdades norte-americanas apresentaram, em média, rentabilidade de 8,6%, segundo mapeamento do setor divulgado em janeiro pela National Association of College and University Business Officers (Nacubo), que reúne profissionais de finanças de mais de 2,1 mil instituições de ensino nos Estados Unidos. Para se ter uma idéia do tamanho do feito, eles conseguiram superar o índice S&P 500 — que se valorizou 7,1% — a despeito de seus portfólios não se resumirem à renda variável. No ano fiscal encerrado em 2007, o retorno médio dos endowments não excedeu o índice das 500 maiores, mas chegou perto: atingiu formidáveis 17,2%, ante uma alta de 20,6% do S&P. Os fundos alcançaram a marca de US$ 441,2 bilhões em ativos, ou seja, US$ 71 bilhões a mais que em 2006.

O desempenho de alguns endowments faz sombra até a poderosos investidores institucionais. Segundo uma pesquisa finalizada em outubro de 2007 pelos professores Josh Lerner, de Harvard, e Jialan Wang e Antoinette Schoar, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), os fundos das universidades mais ricas figuram entre os investidores institucionais de melhor performance há 20 anos. De 1996 a 2005, 26 endowments de uma amostra de 499 bateram, inclusive, os maiores retornos propiciados por fundos de pensão com mais de US$ 100 milhões em gestão. A média do tamanho de um endowment subiu de US$ 177 milhões (corrigidos pela inflação), em 1992, para US$ 483 milhões, três anos atrás — um salto de 170%. Resultados fabulosos são atingidos principalmente por escolas de elite, como Harvard, Yale e Stanford. Somados, os recursos dessas três instituições correspondem a um sexto dos fundos endowment de 785 escolas superiores radiografados pela Nacubo.

No relatório financeiro de 2007, o presidente de Harvard, Drew Gilpin Faust, orgulha-se do retorno de 23% obtido, 5,8% superior ao próprio benchmark da universidade e 2,4% acima da valorização do S&P 500. Em cinco anos, a marca foi de 18,2%. Entre os determinantes dessa performance, de acordo com o balanço, estão a exposição a mercados internacionais, especialmente os emergentes, e a veículos privados (private equity). Os aportes da HMC em mercados emergentes, como China e Índia, passaram de US$ 2,7 bilhões, em 2006, para US$ 4,5 bilhões, no ano passado. Em private equity, o incremento foi de US$ 2,9 bilhões para US$ 4,1 bilhões. Essas são apenas duas das 11 classes de ativos em que o endowment investe, de fundos hedge a commodities. O conselho de administração da HMC se reúne anualmente com a equipe de executivos para definir a alocação dos recursos, conforme o retorno desejado e o grau de tolerância a risco.

Universidades concedem maior flexibilidade aos gestores de recursos contratados, que se sentem livres para montar carteiras arrojadas

No estado vizinho de Connecticut, os gestores das finanças da Universidade Yale estão rindo à toa. Seus fundos endowment cravaram um retorno de 28% em 2007. Pela terceira vez consecutiva, portanto, ultrapassaram a barreira dos 20%. De dez anos para cá, o patrimônio investido pela instituição cresceu de US$ 5,8 bilhões para US$ 22,5 bilhões, o que a torna dona do segundo maior endowment do país. Quatro quintos dos recursos advêm de doações dos estudantes formados, enquanto o restante são verbas variadas que a universidade decide investir e tratar como endowment. O portfólio de investimentos também se torna cada vez mais diversificado. Em 1987, ele era quase 80% concentrado em ações, títulos de renda fixa e aplicações de curto prazo nos Estados Unidos. Hoje, a meta da política de investimento é alocar apenas 15% dos recursos em valores mobiliários negociáveis no mercado aberto doméstico e 85% em outras modalidades, como mercados estrangeiros e private equity.

Com tanto gás para expansão, esses fundos detectaram no Brasil solo fértil para crescimento. A aproximação se dá por meio de mandatos entregues a administradoras de recursos independentes. Há aproximadamente dois anos os fundos endowment têm analisado mais ativamente oportunidades no Brasil, diz Pedro Rudge, sócio da Investidor Profissional (IP), que já captou recursos desses investidores. Outra gestora carioca, a Dynamo, após um longo processo de seleção, também recebeu mandatos de endowments para aplicar em ativos brasileiros.

Os investidores universitários são o sonho de consumo de gestores independentes. Justamente por se importar com o longo prazo, os endowments concedem maior flexibilidade aos gestores externos, que se sentem livres para montar carteiras arrojadas. Porém, os investidores com esse perfil sabem escolher muito bem a quem confiar seu patrimônio. Afinal, a expectativa é de um casamento duradouro. “Antes de contratá-lo, os endowments querem saber a sua filosofia de investimento, testar as suas convicções e como elas se traduzem na prática”, descreve Elsen Carvalho, sócio da IP responsável pela área de Relações com Investidores. “Eles procuram ter certeza de que estão lidando com um expert local, com uma reputação séria no mercado no qual estão interessados.”

Não só os grandes endowments estão de olho no Brasil. Em setembro de 2007, representantes de fundos das universidades Emory, Howard, Pepperdine e do Estado de Washington estiveram em São Paulo e no Rio de Janeiro num evento promovido pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital. “Eles são atraídos por setores como agronegócios, imobiliário e infra- estrutura”, conta Marcus Regueira, presidente da entidade.

Para Lerner, Wang e Schoar, uma das raízes do persistente sucesso dos endowments mais admiráveis está na sua capacidade de variar os investimentos-alvo e na disposição em correr mais riscos, apostando em companhias com menos liquidez, por exemplo — opções que aumentam o potencial de lucratividade. Mas o porte do endowment e do corpo estudantil também conta para a expressividade dos retornos. Quanto maiores as doações, mais gorda fica a poupança. Assim, segundo os pesquisadores, uma vez alcançado um tamanho crítico, o endowment pode bancar uma equipe de analistas profissional e um comitê de investimento sofisticado para se aventurar em ativos alternativos.

Quando comparados com outros investidores institucionais, os endowments também se sobressaem em algumas características, de acordo com o trio de Harvard e do MIT. Seus comitês de investimento são compostos por ex-alunos da academia e tendem a ser mais ativos. Eles se vêem como estrategistas. O time de profissionais tem experiência e, freqüentemente, atuou em conjunto por muitos anos, vantagem que os ajuda a tomar decisões de investimento complexas e subjetivas — ao contrário de assets tradicionais, onde o grau de rotatividade é mais elevado.

A orientação acadêmica facilita o processo de auto-avaliação. Os administradores desses fundos refletem com freqüência sobre metodologias que levaram a investimentos particularmente bem-sucedidos ou desastrosos. Além disso, o diálogo com os pares de outras universidades costuma ser intenso.

Isso não significa que o modelo adotado pelos endowments possa ser replicado por qualquer gestor, alertam os estudiosos. Mesmo assim, ele tem inspirado o mercado. Os fundos endowment foram os primeiros investidores institucionais a acreditar no segmento de venture capital nos Estados Unidos, ainda nos anos 70. Nas décadas seguintes, acabaram seguidos pelos fundos de pensão. Quando a HMC criou recentemente um programa de investimento em propriedades de terra para reflorestamento, vários fundos copiaram a iniciativa. Se a tradição for mantida, a compra da Gávea pode ser apenas o prenúncio de uma série de robustos investimentos no País.

Conteúdo extra

Acesse Secrets of the Academy: The Drivers of University Endowment Success.


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