Olhos para o mundo

Ativos estrangeiros emplacam na pauta de investimentos dos gestores de fundos nacionais

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 88 / 1 de dezembro de 2010
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Demorou, mas pegou. Autorizado em março de 2007, por meio da Instrução 450 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o investimento de fundos locais em ativos no exterior consolidou-se finalmente este ano como uma estratégia dos gestores para diferenciar a rentabilidade de suas carteiras. A regra liberou aplicações além-fronteiras de até 20% do patrimônio, no caso dos fundos multimercados, e até 10% nos demais produtos. Em fevereiro de 2008, a CVM complementou a norma com a Instrução 465, que permitiu a aplicação de 100% dos recursos sob gestão fora do País desde que o fundo, de qualquer classe, exija investimento mínimo de R$ 1 milhão de cada cotista — os chamados fundos superqualificados.

Ao lançar três fundos com esse perfil durante o ano 2010, mesmo diante da evidente dificuldade em acessar investimentos mínimos de R$ 1 milhão, o BNP Paribas entrou de cabeça nessa onda. “Quando criamos esses produtos, era muito claro que tínhamos uma missão educativa. Queríamos trazer o conceito de investimento no exterior”, afirma Marcelo Giufrida, presidente da asset do banco. Ele observa que, diferentemente da visão que se tinha na década de 1980, quando investir em ativos no exterior era uma medida de segurança para proteger o patrimônio da inflação e dos planos econômicos, essa estratégia integra agora uma visão global de investimento. “O mundo mudou. Falamos hoje em investir em Índia, China, América Latina, global emerging markets. Coisas que não existiam nos anos 80”, diz.

O BNP Paribas tem 25 empresas de asset management com 60 estratégias diferentes de investimento mundo afora. Por isso a asset brasileira criou o conceito de uma família de cinco fundos de fundos que investem em produtos existentes no grupo. Três deles já estão em operação: o Global Emerging Markets, que busca mercados emergentes expostos a diferentes riscos; o USA Companies, que aplica em um fundo de ações norte-americanas com histórico de alta rentabilidade; e o Brazil and Global, que mistura ações de empresas brasileiras e globais. Os dois primeiros começaram em julho deste ano, e o último, em outubro. Os outros dois fundos — o Global Commodities e o Brasil China (o único multimercado da família) — estão previstos para iniciar ainda em 2010.

Por enquanto, os fundos lançados contam com patrimônio de R$ 1 milhão cada. Ou seja, têm apenas um investidor institucional como cotista. “Temos todo esse trabalho educativo de explicar o conceito, o produto, mostrar a lógica e as questões operacionais. É natural que exista aí um prazo até o produto decolar”, explica Giufrida. “Nem sempre o Brasil vai ser o melhor lugar do mundo para investir, e por isso o investidor brasileiro não pode deixar de olhar ao seu redor.”

O interesse maior por mercados emergentes faz com que outras boas opções de investimento fiquem esquecidas

Diferenciar-se dos concorrentes é o que mais estimula os gestores brasileiros a explorar oportunidades no exterior. Eduardo Camara, diretor executivo da Ashmore Brasil, lembra que, antes, quando os gestores locais ficavam restritos aos ativos brasileiros, a correlação entre o desempenho dos fundos era sempre alta, apesar das diferenças na composição das carteiras. Como consequência, o investidor pessoa física que comprasse diferentes fundos para ter uma aplicação diversificada acabava com vários produtos que se moviam de maneira muito similar. “Com a abertura para o exterior, o investidor tem mais opções de investimentos. Se souber compor sua carteira, terá um portfólio mais eficiente”, aconselha.

Focada em mercados emergentes, a Ashmore tem cerca de 10% do patrimônio de R$ 330 milhões do fundo Ashmore Brasil 30 FIC de FIM investidos no exterior desde meados de 2009. Com mais de 350 cotistas, varia sua exposição fora do País entre 5% a 15%, sempre buscando as melhores oportunidades. Para o gestor, atualmente, a melhor aposta é em moedas de mercados emergentes. A guerra cambial dos últimos meses favorece a estratégia. “O dólar depreciado é uma distorção que o governo está criando. Existe uma oportunidade de investimento aí”, observa Camara.

Na Grau Investimentos, 50% dos R$ 250 milhões de patrimônio estão no exterior, entre fundos internacionais e domésticos. O gestor Marcelo Maneo utiliza seu fundo multimercado mais agressivo, o Grau África Fundo de Investimento Multimercado, para oferecer aos cerca de 100 cotistas locais a oportunidade de exposição em ativos estrangeiros. Com patrimônio de R$ 20 milhões, o Africa investe, atualmente, 7,5% em posições cambiais no exterior. “A lógica hoje é ter flexibilidade”, garante. Sua meta é atingir 150% do CDI utilizando os ativos de fora para proteção das principais posições da carteira, dentro de uma estratégia de hedge.

O acesso a setores da economia que possuem poucos players no Brasil também mobiliza os gestores. Rodrigo Felippe Afonso, gerente da divisão de novos canais de distribuição da BB DTVM, tenta trazer esse tipo de alternativa aos clientes private do Banco do Brasil por meio do BB Multimercado Global Private, lançado em maio deste ano. O fundo tem 80% do patrimônio de R$ 55 milhões investidos em renda fixa no Brasil e 15% em dois fundos de ações globais no exterior, um deles gerido pela Principal Global Investors e o outro pela Alliance Bernstein Investments. Desde seu lançamento até 18 de novembro, acumulava rentabilidade de 108% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). A intenção de Afonso é aumentar a exposição no exterior para a faixa entre 18% e 19%. Com 433 cotistas, o fundo veio na esteira da proposta do Banco do Brasil de ofertar produtos mais sofisticados, dirigidos a investidores qualificados.

A Nest investe fora do Brasil para diversificar o portfólio de commodities em setores que contam com apenas uma empresa com liquidez no Brasil, a exemplo do setor de óleo e gás. “Para não ficarmos expostos ao risco de uma empresa, procuramos alternativas no exterior e adicionamos alguns nomes na nossa cesta de ações para representar o setor”, conta Felipe Prata, sócio da Nest.

A Investidor Profissional olha para o exterior desde 2001, quando lançou o fundo offshore IP Global, hoje com patrimônio de US$ 60 milhões. Mais tarde, com a permissão da regulação brasileira, abriu um veículo local para comprar cotas do fundo offshore. A gestora tem ainda dois fundos que aplicam 10% no exterior: o IP Participações, com patrimônio de R$ 215 milhões; e o IP Value Hedge, com R$ 140 milhões. Elsen Carvalho, sócio da IP, acredita que empresas sólidas têm sido negligenciadas lá fora, o que torna seus preços muito interessantes. Um exemplo, segundo ele, é a Johnson & Johnson, que entre 1999 a 2009 entregou US$ 56 bilhões aos acionistas em dividendos e recompras de ações. Embora a receita da companhia tenha subido de US$ 27 bilhões para US$ 60 bilhões nesse período, o seu valor de mercado passou de US$ 145 bilhões para apenas US$ 158 bilhões. “Em um mundo com liquidez destinada a Ásia e Brasil, é natural que o interesse maior seja por mercados emergentes, o que faz com que algumas boas opções de investimentos fiquem esquecidas lá fora”, alerta Carvalho.

GANHO DE ESCALA — Atento ao interesse dos gestores em abrir suas fronteiras, o Bank of New York Mellon criou em janeiro de 2009 o Segregated Portfolio Company (SPC), uma carteira estruturada para servir como veículo aos fundos domésticos que querem investir em ativos no exterior. A vantagem para o gestor é delegar ao Mellon toda a parte de back office, incluindo a abertura de um fundo offshore, e ganhar poder de barganha com os provedores de serviços em razão do volume de recursos acumulado. Segundo o diretor de serviços financeiros do banco no Brasil, Alberto Elias, o custo é menor não só em função do rateio das despesas iniciais, mas também pela possibilidade de negociação em escala de serviços regulares como o de auditoria, por exemplo.

Atualmente, 17 gestores utilizam o serviço, totalizando US$ 300 milhões de dólares aplicados no exterior. Desses, dez estão dentro do SPC, e o restante optou por contratar os serviços do Mellon sem fazer parte da estrutura do fundo. É o caso da Nest Investimentos, que opera no exterior o limite de 20% do patrimônio de R$ 260 milhões do fundo Nest Mile High. Prata conta que preferiu pagar uma vez e meia mais caro para criar um veículo próprio de acesso ao mercado externo, mas utilizando os mesmos prestadores de serviço e a administração do Mellon. “Ficamos preocupados com uma possível contaminação de resultados entre os fundos que operam a estrutura.”

O fundos locais podem aplicar no exterior diretamente ou via fundo offshore. Para Pedro Rudge, da Leblon Equities, que ainda não se aventurou a operar fora do Brasil, o problema das duas opções é o custo, especialmente quando o patrimônio ainda não é muito volumoso. No caso de se criar um fundo offshore, a estruturação custa dinheiro e tempo. E optar por abrir uma conta em corretora no exterior para operar diretamente representará uma carga tributária maior, avalia Rudge.


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