Novos caminhos

Atuação do governo sobre a poupança foi prova inequívoca de sua intenção de baixar os juros — e o marco zero de uma era há muito aguardada pelos gestores de renda variável

Gestão de Recursos/Temas/Reportagem/Edição 106 / 1 de junho de 2012
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Se o mundo dos investimentos em renda fixa fosse um parque de diversões, o Brasil teria sido, durante muito tempo, um prazeroso carrossel. Nele era possível desfrutar, confortavelmente, o generoso retorno dos títulos públicos. Agora, com a taxa de juros embicando mais convincentemente para baixo, será preciso uma carga de emoção para a brincadeira continuar. “Para o meu cliente se divertir como antes, tenho de levá-lo à montanha-russa, mas nem todos aguentam”, diz George Wachsmann, sócio da gestora Bawm Investimentos. Ao telefone com os cotistas, sua missão é responder incansavelmente a uma só pergunta: o que fazer para manter os retornos do passado? E explicar pacientemente que, daqui em diante, não será mais possível conciliar bons retornos no curto prazo, pouco risco e liquidez. “Chegou a hora de abrir mão de um desses itens. Não dá mais para ter tudo”, crava o gestor.

É claro que os investidores vinham notando que o investimento em títulos públicos ou fundos DI já não era o mesmo. Mas o baque chegou com o anúncio do governo, no início de maio, de que as regras da poupança mudariam. Não era para menos. Ao mexer com uma vaca sagrada em pleno ano eleitoral, a presidente Dilma Rousseff remetia em alto e bom tom a mensagem de que a intenção de derrubar a taxa básica de juros era, sim, para valer.

O rendimento fixo da poupança, de 0,5% ao mês mais a taxa referencial (TR) — um total de 6,17% ao ano — funcionava como uma trava para a redução da Selic. Temia-se que, com a queda da taxa, os títulos públicos e os fundos a eles atrelados ficassem pouco competitivos em relação à poupança, cujo rendimento era garantido em lei. O resultado poderia ser uma revoada de recursos para a caderneta, desfalcando os fundos e a própria dívida pública. Com a mudança da lei, a poupança deixou de ser uma pedra na curva descendente da Selic. A nova regra determina que, quando a Selic for igual ou inferior a 8,5% ao ano, a remuneração da caderneta será 70% da Selic mais a taxa referencial. Acima desse gatilho, continua valendo o percentual de 6,17% ao ano.

O anúncio sacudiu os ânimos dos gestores de recursos. Ao mesmo tempo em que tira o sono de quem administra somente fundos DI, a queda da Selic prenuncia uma festa para os gestores de multimercados, fundos de ações ou outros títulos de renda fixa. “É um tipo de movimento no mercado que se vê uma vez na vida”, alerta Beto Domenici, estrategista da Rio Bravo.

ESTRADAS DISTINTAS — Diante da perspectiva de uma nova era, os gestores buscam o caminho mais coerente com a sua estratégia. Nessas horas, identificar a própria vocação é fundamental. Para os fundos voltados ao varejo, a primeira providência foi mexer na taxa de administração. Algumas das maiores instituições financeiras do País, como Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, anunciaram, ao longo de maio, a diminuição da tarifa cobrada para administrar seus fundos e da aplicação mínima obrigatória para ingressar neles.

No dia 16, o Bradesco avisou que, a partir de 1º de junho, reduzirá a taxa de administração de quatro de seus fundos e o piso para ingresso em dez deles. No Prime FIC Referenciado DI e no Prime FIC Renda Fixa, a taxa de administração caiu de 2% para 1,6% ao ano, e o tíquete mínimo, de R$ 5 mil para R$ 1 mil. No último relatório de taxas de administração da Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), divulgado em março de 2012, os fundos referenciados em DI apresentavam taxa média de 0,91% quando considerados todos os tipos de cliente. No caso dos fundos voltados ao varejo, a taxa era de 1,29%.

As taxas de administração vêm caindo consistentemente nos últimos anos. Em 2006, a média cobrada em referenciados DI era de 1,72% e, em março deste ano, estava 25% menor, segundo a Anbima. O consenso é que a cobrança cairá ainda mais, como forma de manter a atratividade dos fundos de renda fixa ou referenciados ao DI. “Na comparação com países desenvolvidos, uma taxa de 2% para um fundo DI é absurda”, comenta Otávio Vieira, sócio da Fides Asset Management. De acordo com uma pesquisa do Investment Company Institute, organização que representa as companhias de investimento norte-americanas, a taxa média anual dos fundos money markets (produtos que mais se assemelham aos fundos referenciados DI) é de apenas 0,22%. “As instituições só podiam se dar ao luxo de cobrar uma taxa elevada por causa do rendimento dos títulos públicos”, explica Domenici.

Já as assets independentes, voltadas a produtos mais sofisticados, tendem a adotar uma estratégia diferente. “O plano não é reduzir as taxas de administração, mas, sim, valorizar a expertise da gestora para selecionar os produtos que mais se ajustem às necessidades de renda e de liquidez do cliente”, avalia Domenici. É o chamado suitability, processo pelo qual o gestor faz um diagnóstico do perfil de risco e dos objetivos do investidor. Baixar as taxas ou o volume de investimento, em princípio, é algo que eles procurarão evitar. Fernando Camargo Luiz, sócio da Orbe Investimentos, vai manter o valor de R$ 30 mil para ingresso e a taxa de 2,3% ao ano em seu fundo de renda variável voltado a pessoas físicas não qualificadas. “Quero um investidor que entenda o que eu faço”, diz Luiz. Em sua opinião, a tarifa mais alta se justifica pela sofisticação da gestão e dos investimentos, baseados em ações.

A redução dos juros também pode acarretar uma demanda maior no longo prazo por produtos financeiros mais elaborados. “Nenhum movimento de política econômica tem resultado imediato, mas daqui a um ou dois anos as pessoas tenderão a notar que o rendimento de suas aplicações diminuiu e, talvez, pensem em mudar o perfil de suas carteiras”, prevê Luiz. Ele acredita que os investimentos baseados em ações devem atrair mais esses investidores do que a renda fixa privada. Isso porque, avalia, os emissores de dívida devem aproveitar a queda da Selic para tentar tomar empréstimos a juros também menores.

O plano não é reduzir as taxas de administração, mas, sim, valorizar a expertise das gestoras em aplicar o suitability

Zeca Oliveira, presidente do Grupo BNY Mellon no Brasil, é outro otimista com os investimentos em renda variável. “Apenas 9% do patrimônio líquido da indústria de fundos está alocado em ações”, observa. Domenici concorda com o potencial da renda variável nos próximos anos, mas aposta que muitos investidores brasileiros ainda vão se manter conservadores, buscando fundos multimercado: “Um cliente que está acostumado apenas com renda fixa não vai se adaptar se elevarmos muito a parcela de ações”.

No curto prazo, as mudanças abrem novas frentes de prospecção para os gestores. Vieira, da Fides, contratou uma agência de rating para avaliar sua firma com o objetivo de torná-la apta a receber investimentos de regimes próprios de previdência. “Está mais difícil cumprir as metas atuariais sendo conservador. É a hora de procurar esses investidores”, conta.

TUDO PODE NÃO MUDAR — Para a queda dos juros se manter constante, contudo, o cenário macroeconômico vai ter de colaborar. “Se a inflação subir, o governo não vai hesitar em aumentar a Selic novamente”, ressalta o professor de finanças do Insper Ricardo Rocha, que crê ser bastante provável que isso aconteça. A economia brasileira desacelerou: o IBC-Br, índice calculado pelo Banco Central que mede a atividade econômica do País, acumulou queda de 1,18% nos três primeiros meses de 2012. Em situações como essa, a inflação tende a se manter estável porque a pressão do consumo sobre os preços diminui. Justamente para vencer a fase de crescimento lento, o governo está baixando os juros. Se a medida der certo, o reaquecimento da economia pode ser acompanhado de um dólar mais alto (em 21 de maio, a moeda norte-americana fechou a R$ 2,04, o maior valor desde maio de 2009), provocando aumento dos preços de matérias-primas e dos produtos importados. O resultado dessa combinação pode ser a elevação geral dos preços e, consequentemente, o aumento da Selic para contê-la.

Uma questão cultural também limita as perspectivas dos gestores de renda variável. Em linha com o raciocínio de Domenici, Rocha atenta para o fato de haver ainda muito receio em relação às aplicações que não oferecem retorno garantido. É bom não esquecer que existe uma geração traumatizada pela hiperinflação iniciada na década de 80. “Muitas pessoas ainda sonham com a carteira assinada para ter a previdência pública, do INSS, pois não poupam para a velhice”, completa o professor. Além disso, Rocha explica que os níveis de poupança no Brasil ainda são muito baixos — de acordo com dados do Banco Mundial atualizados em 2011, o País poupa 17% do PIB, contra 34% da Índia e 53% da China. Não há dúvidas, portanto, de que a sinalização mais concreta de uma redução dos juros é um alento formidável para a indústria de fundos, principalmente para os gestores dos produtos mais elaborados. Mas a verdadeira era de ouro desses investimentos ainda parece longe de começar.




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