Na casa do freguês

Crescem as possibilidades de levar ações à porta do investidor estrangeiro. Mas até que ponto as companhias estão interessadas em cross-listing?



Em tempos de fusões e aquisições, empresas do mundo inteiro precisam ganhar escala para não perder competitividade. Esse já velho ensinamento do capitalismo chegou ao dinâmico mercado das bolsas de valores. Com o desenvolvimento de mercados regionais cada vez mais globalizados, até Nova York, tradicional templo financeiro para captações de recursos no mercado acionário, viu a necessidade de se reinventar para continuar atraindo companhias em busca de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). Se antes a análise para um esforço de venda em bolsa no exterior passava apenas pela Big Apple, hoje ela inclui também, no mínimo, a Nasdaq e a London Stock Exchange (LSE), além de pregões emergentes, como o de Hong Kong.

Para se fortalecer nessa briga, o conglomerado transcontinental Nyse Euronext resolveu entregar ações na porta do investidor, ainda que ele esteja em outro continente. Dono das bolsas de Nova York, Paris, Amsterdã, Bruxelas e Lisboa, o grupo criou, no fim de 2007, o chamado “fast path”. Por esse caminho, companhias negociadas no pregão nova-iorquino podem listar ações de sua emissão nas quatro bolsas européias usando o mesmo prospecto entregue à Securities and Exchange Commission (SEC), o órgão regulador norte-americano. Ou seja, não é preciso mais preparar uma nova papelada adaptada ao idioma e à regulamentação dessas localidades. A idéia é que o processo de listagem seja vapt-vupt e mais barato. Uma vez listadas, as empresas também se submetem às exigências das bolsas. Por enquanto, são aceitas somente ofertas privadas nesse formato, o que explica a baixa adesão ao modelo até o momento, segundo Hans Beerlage, advogado do escritório Clifford Chance em Amsterdã. Espera-se que, quando o fast path decolar, as ofertas públicas também sejam permitidas.

Para Tobias Stirnberg, advogado do escritório Shearman & Sterling em São Paulo, essa iniciativa da Nyse Euronext se insere no contexto do avanço do reconhecimento mútuo das regulamentações dos Estados Unidos e da União Européia. “Na verdade, se você comparar as exigências da SEC e as normas da diretiva de prospecto da Comissão Européia, vai perceber que são praticamente idênticas e também muito similares às brasileiras”, avalia. Em princípio, o fast path é dirigido apenas a companhias listadas na Nyse. Mas Stirnberg lembra que basta reguladores europeus considerarem padrões de outros países equivalentes aos seus para que o fast path seja estendido.

Em 28 de janeiro de 2008, a indiana Satyam Computer Services, companhia de tecnologia com faturamento de US$ 2,13 bilhões, foi a primeira a explorar o sistema estreando no pregão da Euronext Amsterdam. Seus passos foram seguidos pela fabricante de cigarros Philip Morris International, que chegou simultaneamente às Bolsas de Nova York e de Paris, e pela cervejaria Anheuser-Busch, “roubada” da LSE e agora listada na capital francesa e em Nova York. Rumores do mercado indicam que a brasileira AmBev estaria se preparando para fazer o mesmo. A companhia não comenta o assunto.

Recém-listada em Amsterdã, a indiana Satyam quer tornar sua marca mais conhecida na Europa

Os motivos para o vôo à Euronext são variados. Com a listagem na bolsa holandesa, uma das intenções da Satyam é aumentar a visibilidade da marca no continente europeu e demonstrar comprometimento com esse mercado. A participação dos europeus nas receitas da Satyam só perde para os Estados Unidos — cresceu 2% no último exercício, atingindo 20,58%. Segundo Tan Murti, vice-presidente financeiro da companhia, a listagem em euros também ajuda em operações de fusões e aquisições, a melhorar a avaliação da empresa e a remunerar os funcionários residentes na Europa com opções de ações. Além disso, na rota Amsterdã-Nova York, as ações da Satyam chegam a ser negociadas ao longo de 13 horas. “É cedo para colher os benefícios, até porque parte deles é intangível. A listagem faz parte da nossa jornada de acessar uma base maior de investidores”, diz ele.

SERVIÇO DE CONVENIÊNCIA — A essa altura, alguém poderia argumentar que, num mundo globalizado e com plataformas de negociação ultra-sofisticadas, o cross-listing poderia ter perdido o sentido. Investidores podem comprar valores mobiliários em qualquer parte do planeta com apenas alguns cliques. Sob esse prisma, não seria necessário vender ações em bolsas estrangeiras, porque os investidores saberiam buscar o produto na fábrica. É justamente essa crença que a Nyse Euronext tenta desfazer. “Há muitos investidores europeus que podem acessar diretamente o mercado de capitais dos Estados Unidos, mas há fundos menores e investidores de varejo que acham difícil acessar companhias que não estão listadas em seus mercados domésticos”, disse à CAPITAL ABERTO Noreen Culhane, vice-presidente executiva da gigante de bolsas.

“Fundos menores e investidores de varejo acham difícil acessar companhias que não estão em seus mercados domésticos”

De olho nesse filão, 18 companhias brasileiras vendem ações no Latibex, o mercado de balcão organizado do grupo Bolsas y Mercados Españoles (BME) para o comércio de valores mobiliários latino-americanos. A vantagem dessa praça é servir de vitrine para as latino-americanas no continente europeu, com regras simples de listagem — os mesmos documentos de registro no Brasil são aprovados lá. Mas o Latibex tem proporcionado pouco às empresas em termos de liquidez. As negociações com papéis do Bradesco no pregão espanhol, por exemplo, representam menos de 0,1% do total. Segundo Rafael Morales, executivo de contas do Latibex, os melhores exemplos são companhias como Sadia, Bradespar e Usiminas, que conseguem elevar sua liquidez em 5% a 10%, graças às transações feitas nesse mercado.

Devido a sua baixa expressividade e à especialização em empresas latino-americanas, o Latibex não chega a exercer uma concorrência de peso aos demais leilões europeus. Participante dessa praça e da Nyse, a mineira Cemig não descarta se aventurar pelo fast path no futuro. “Consideramos fundamental o acesso ao varejo, pois o investidor individual traz maior liquidez e estabilidade ao papel”, explica Agostinho Faria Cardoso, superintendente de Relações com Investidores (RI) da elétrica. Segundo ele, o fast path resolve um problema do processo de cross-listing, que é a adequação a uma regulamentação diferente, além dos custos e do tempo extras, “muitas vezes não compensados pelo retorno”.

DEMANDA POR ADRS — No caso do mercado de capitais brasileiro, marcado pela presença maciça de investimentos estrangeiros, pode-se ter a falsa impressão de que todos os investidores importantes, de qualquer lugar do mundo, operam aqui. No encontro anual de Relações com Investidores e mercado de capitais realizado em junho pelo Instituto Brasileiro de Relações Investidores (Ibri) e pela Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Noreen Culhane ressaltou que o sucesso da bolsa verde-amarela nos últimos anos não se resumiu ao mercado local. Foi acompanhado por movimentações recordes de ações de empresas brasileiras na Bolsa de Nova York, sob a forma de recibos norte-americanos de depósito de ações (ADRs, em inglês). Levantamento do Bank of New York Mellon mostra que, entre 2004 e o terceiro trimestre de 2007, o volume de negociação da Bovespa teve crescimento médio anual de 64%, enquanto o volume de negociação de ADRs de companhias nacionais saltou 92% por ano. Os números impressionam se levarmos em conta que a quantidade de brasileiras listadas nos Estados Unidos manteve-se em torno de 33, ao passo que as listadas na Bovespa saíram de 390 para 434.

Grifes norte-americanas como Fidelity, com diferentes veículos, investem em companhias brasileiras na Bovespa e na Nyse. “Se você não tem uma listagem fora do país, deixa de ser alvo de uma família de fundos”, diz Curtis Smith, vice-presidente de negócios para o Brasil do Bank of New York Mellon, um dos bancos mais atuantes na emissão de ADRs.

O Bradesco sabe da relevância dos ADRs para a sua liquidez. Em 2003, a Bovespa foi palco de 65%, e a Nyse, de 35% do giro diário de R$ 39 milhões dos papéis do maior banco privado do País. No primeiro trimestre de 2008, o pregão norte-americano respondeu por 68% do volume de negociação de R$ 531 milhões diários, deixando um naco de 32% para a bolsa paulista. O banco também pensa em listagens mundo afora. “Teoricamente, valeria a pena estar em todas as bolsas, com custo e benefícios compatíveis”, diz Domingos Abreu, diretor-gerente da área de RI. “Tudo o que queremos é ampliar a base de acionistas e a liquidez das ações.”

De acordo com o executivo, ao observar a debandada de empresas de Nova York para a City, o Bradesco também avaliou voar para a LSE. Mas, em consultas a investidores estrangeiros, percebeu que não havia demanda para esse movimento. Um mercado que está no radar, segundo ele, é a Ásia. “Temos avaliado isso constantemente”, revela. Muitos fundos asiáticos já investem no banco. No entanto, aqueles que não têm base em Nova York, encontram dificuldades para operar devido à grande diferença entre os fusos horários.

Uma candidata em potencial a receber os papéis do Bradesco seria a Hong Kong Exchanges and Clearing (HKEx), a quinta maior bolsa do planeta em capitalização de mercado. Recentemente, a empresa chinesa sondou o banco brasileiro sobre uma possível listagem. E vem se esforçando para chamar a atenção de estrangeiras. Era esperado para julho o lançamento do programa de recibos de ações (HDRs). Antes dele, companhias tinham de abrir uma unidade em Hong Kong para listarem ações na bolsa insular. Procurada pela reportagem, a HKEx informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que dá “as boas-vindas a empresas de todos os setores e jurisdições”. As portas estão abertas. Resta saber a hora certa e em qual bater.

Conteúdo extra

Faça o download do estudo da Universidade de Roterdã, Holanda, que analisa o impacto do cross-listing no custo de capital das companhias estrangeiras listadas nos Estados Unidos.

Pesquisa norte-americana mostra os benefícios da listagem de ações no exterior. Leia mais.

Estudo examina IPOs de empresas chinesas em Cingapura, Hong Kong e mercados norte-americanos. Veja os resultados.


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