Hora de multiplicar

Depois do trabalho de popularização da Bolsa, empresas arregaçam as mangas para atrair o investidor individual. Menor volatilidade e mais liquidez para as ações justificam a estratégia

Captação de recursos/Edição 8/Reportagem/Temas / 1 de abril de 2004
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A crescente participação dos investidores individuais no mercado de ações brasileiro não está mais restrita às estatísticas de volumes negociados na Bovespa. Além da presença recorde de 29,5% na bolsa paulista, registrada em março, as pessoas físicas começam a ganhar espaço na estratégia das companhias abertas.

A Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), maior empresa do segmento na América Latina, anunciou no início do mês passado uma distribuição pública de ações de R$ 300 milhões, 20% dela especialmente reservada para venda no varejo. Os individuais poderão gastar entre o mínimo de R$ 2 mil e o máximo de R$ 300 mil para adquirir papéis da companhia. Dias depois, a ALL Logística, operadora de malhas ferroviárias no Brasil e na Argentina, divulgou os termos de uma oferta pública de ações que planeja realizar em breve. Neles, informou que contemplaria reservas feitas por investidores pessoas físicas.

Ao que indicam as duas operações, a busca por investidores individuais promete ser uma novidade das emissões esperadas para 2004. Estima-se o anúncio de três ofertas de ações até maio – ALL, Natura e Gol – e de outras três no segundo semestre. Parte desse movimento se deve aos efeitos esperados de uma queda mais representativa das taxas de juros até o final do ano. “As empresas estão atentas à troca de investimentos em renda fixa por renda variável”, conta Maria Helena Santana, superintendente executiva de relações com empresas da Bovespa.

Para Rodolfo Richard, analista do Banco Pactual, instituição que coordena a emissão de ações da CCR, o foco no varejo sinaliza uma mudança de objetivos. “As empresas começam a entender a importância do investidor individual”, afirma. No segundo semestre do ano passado, duas ofertas secundárias de ações deram os primeiros sinais dessa nova percepção.

O BNDES se desfez de sua participação na Votorantim Celulose e Papel e mais de 1.500 pessoas físicas compraram os papéis. A Cia Suzano também fez ofertas de ações ao mercado, uma primária e outra secundária, e direcionou parte da estratégia de colocação para pessoas físicas. Os investidores individuais responderam por 8% da colocação e a base de acionistas praticamente triplicou. Em setembro de 2003, eram 1.260 acionistas, dos quais 1.040 pessoas físicas. Hoje, a Suzano conta com 3.480 acionistas, sendo 2.868 pessoas físicas. Segundo João Nogueira Batista, vice-presidente executivo da Suzano Holding, a operação foi estruturada com o intuito de ampliar a liquidez dos papéis, e os investidores pessoas físicas tinham importância estratégica para a conquista desse objetivo. “Quanto maior a dispersão e a diversidade dos acionistas, melhor”, afirma.

VALE E PETROBRAS DERAM O PONTA-PÉ – Acredita-se que as aplicações de recursos do FGTS em ações da Vale do Rio do Doce e da Petrobras tenham sido o principal incentivo para que investidores pessoas físicas voltassem a se interessar por bolsa de valores. Até então, muitos ainda amargavam a ressaca do boom de 1997, quando a alta do mercado capturou a poupança da classe média para logo destruí-la com a crise asiática que saiu desmoronando bolsas de valores no mundo todo.

O primeiro sinal de retorno dos individuais veio em 2000, quando eles deixaram de representar 16% do volume negociado em bolsa e alcançaram 20%. Em 2003, esse percentual chegou a 26% e, mais recentemente, 30%, incentivado também pelo programa de popularização da Bovespa. Aí não se incluem as aplicações via fundos de ações e tampouco nos fundos criados para investimento do FGTS em Vale e Petrobras.

Agora, mais do que emergente na bolsa, esse público passa a ser estratégico para as companhias brasileiras. Ao conservarem os papéis em suas carteiras por períodos mais longos, investidores individuais amenizam a volatilidade das ações e favorecem a formação de preço. São diferentes dos estrangeiros, que entram e saem da bolsa ao menor sinal de crise. “É por isso que as empresas estão preocupadas em ampliar suas bases de acionistas pessoas físicas”, explica Carlos Henrique Dumortout Castro, gerente de divulgação a mercado da Petrobras.

Uma demonstração de que os investidores individuais podem influenciar positivamente o comportamento das ações foi dada pelo Índice Investidor. Criado pelos organizadores da Expomoney – feira voltada a investidores pessoas físicas realizada pela primeira vez em outubro do ano passado, na cidade de São Paulo – o índice acompanha o desempenho de Banco do Brasil, Braskem, CCR, Cemig, Petrobras, Ripasa, Souza Cruz e Suzano, oito empresas que participaram do evento por acreditarem no potencial dos investidores individuais. Desde a Expomoney, o índice rendeu 113,01%, mais que os 65,28% do Ibovespa ou os 53,86% do Índice de Governança Corporativa (IGC), conta Raymundo Magliano Neto, organizador do evento.

PLANO DE AÇÃO – Para obter sucesso entre os investidores individuais, contudo, é preciso traçar um plano de ação. A Suzano, por exemplo, atribui o bom desempenho da operação do ano passado à contratação de um “sindicato de corretoras”, porque essas costumam ter mais acesso às pessoas físicas que os grandes bancos. Também reduziu o lote padrão de ações de 1 mil para cem, a fim de baratear o custo de aquisição.

Já a VCP criou uma nova política de dividendos (ver matéria na página 8), remuneração que costuma atrair os investidores médios, principalmente aqueles interessados em ativos provedores de renda. Passou a atrelar o dividendo ao fluxo de caixa livre (e não mais ao lucro líquido) e fixou percentual de 60% para a distribuição. “A nova política e o aumento de liquidez gerado pela colocação das ações que pertenciam ao BNDES mostraram resultados imediatos para a companhia”, comenta Alfredo Villares, gerente de relações com investidores da VCP, em referência ao bom comportamento das ações após concluida a operação.

Outra empresa que ressalta a importância da política de dividendos para conquista do investidor pessoa física é a Braskem. A companhia manteve a política de remuneração da sua antecessora Copene, que oferece 6% do capital ou 25% do lucro líquido, a opção que resultar em valor maior. Em setembro, a Braskem decidiu fazer um desdobramento das ações, a fim de reduzir o lote padrão pela metade e viabilizar a compra e venda de lotes menores. Hoje, segundo Vasco Barcellos, gerente de relações com investidores da Braskem, não está descartado um repeteco da operação. A ação valorizou 500% no último ano e já está próxima do valor alcançado quando do primeiro desdobramento.

ATENDIMENTO PERSONALIZADO – A chegada do investidor individual pode exigir ainda que a companhia tome iniciativas para melhorar a comunicação e para lançar produtos específicos. Na Petrobras, foi implementada uma gerência específica para atender às pessoas físicas. Paulo Maurício Campos, executivo que está à frente do departamento desde a sua criação, em outubro de 2002, comenta que a iniciativa surgiu em virtude da demanda gerada pelas aplicações do FGTS em ações, liberadas em agosto de 2000. Naquela época, 250 mil cotistas dos fundos constituídos para esse fim engrossaram a base de investidores.

A Petrobras se prepara também para lançar debêntures conversíveis em ações no segundo semestre, produto que visa captar ainda mais pessoas físicas. “Imaginamos que as debêntures possam trazer investidores de caderneta de poupança ou títulos de capitalização”, afirma Campos. Primeira a lançar o título com foco no investidor individual, a estatal espera, com a iniciativa, novamente triplicar sua base de acionistas, o que significaria formar um contingente de 1 milhão de investidores. Boa oportunidade para mais companhias se verem estimuladas a incrementar a participação de pessoas físicas no seu capital.


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