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Em busca de crescimento acelerado ou até mesmo com viés social, o private equity quer as classes C e D

Bimestral/Governança Corporativa/Reportagem/Temas/Edição 79 / 1 de março de 2010
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Aumento da renda, queda da taxa de juros, maior acesso a mecanismos de crédito, incentivos do governo, níveis de emprego elevados. A chamada classe C é hoje a que mais cresce no País. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, essa camada social passou, de 2003 a 2009, de 42,36% para mais da metade da população brasileira (53,03%). Os rendimentos atrelados ao salário mínimo, como os benefícios pagos pelo governo com o Bolsa Família e outros programas assistenciais, tiveram ganho real nos últimos anos. Para se ter uma ideia, a renda proporcionada pelo trabalho dos 10% mais pobres teve avanço de 4% em 2008, de acordo com o coordenador de trabalho e renda do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Gonzalez. Tudo isso ajudou muitas famílias a migrarem da linha da pobreza para a classe média, estimada hoje em mais de 90 milhões de brasileiros. O cenário, que poderia ser de campanha eleitoral, tem servido como mote para investidores de private equity apostarem em empresas com negócios voltados para essa turma. “Por se tratar de um segmento com demanda fortemente reprimida, o avanço da renda tem impacto direto nas indústrias de alimentos, vestuário, construção civil e celulares”, diz o economista.

A população nordestina, historicamente desprezada pelos setores público e privado, é uma das maiores representantes desse movimento. E isso explica por que fundos de capital de risco, sempre sedentos por potencial de crescimento elevado e acelerado, estão atentos a ela. A gestora de recursos Rio Bravo, por exemplo, tem dois fundos de participações exclusivamente voltados para negócios no Nordeste. Um deles investe em infraestrutura, tecnologia da informação e em alimentos. O segundo fundo, ainda em fase de aplicação, vai comprar participações em cerca de oito empresas da região até o fim deste ano. Os investimentos podem variar entre R$ 10 milhões e R$ 25 milhões. “O foco será em empresas que precisem de capital para crescer e expandir suas atividades, nos setores de alimentos, agronegócio, educação, saúde, turismo e entretenimento, além do setor industrial (metalomecânica e eletroeletrônica)”, informa a Rio Bravo em seu site. A gestora não atendeu ao pedido de entrevista feito pelo reportagem.

Fundo da Vox Capital busca rentabilidade em empresas com capacidade de redução da pobreza

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL — Há também investidores que preferem dirigir suas atenções a quem ainda não alcançou esse patamar: as classes D e E. Só que, nesses casos, os investimentos carregam um viés social, além do rendimento financeiro tradicional. No Brasil, o Vox Capital talvez seja o maior representante dessa categoria. Antonio Moraes Neto, neto de Antônio Ermírio de Moraes, se juntou a dois sócios para montar o fundo de capital de risco que tem a responsabilidade social como uma de suas preocupações centrais.

O fundo busca rentabilidade em empresas que tenham capacidade de redução da pobreza, pelo foco de atuação. A estratégia passa por comprar participações minoritárias (entre 25% e 40%) de empresas em estágio inicial que não sejam tradicionais e que tenham algum aspecto inovador. A captação do primeiro fundo do Vox já foi totalmente concluída, e parte dos recursos foi aplicada. Um segundo fundo só deverá ser aberto no próximo ano. Os investidores são, em sua maioria, estrangeiros.

Um exemplo do tipo de empreendimento que o Vox Capital gosta é a Solidarium. O negócio entre a empresa e o fundo não foi fechado, mas o diretor executivo e cofundador da Solidarium, Tiago Dalvi, diz ser possível considerar essa possibilidade quando sua empresa estiver mais consolidada. A empresa vende produtos de artesanato de cooperativas e associações que seguem princípios de responsabilidade social, como ausência de trabalho infantil e discriminação de sexo ou raça. Além de contar com distribuição pela internet, a Solidarium mantém pontos de venda em grandes redes varejistas, como Wall Mart e Lojas Renner.

A inspiração para o Vox Capital veio do fundo mexicano Ignia, que investe em empresas voltadas para a população de baixa renda e geradoras de impactos sociais positivos. “As empresas tradicionais têm ignorado essa população de aproximadamente 560 milhões de pessoas na América Latina, que representa um mercado estimado em US$ 510 bilhões”, diz o gerente de investimentos do Ignia, Joshua Motta. Seus clientes vão desde pessoas físicas a fundações privadas, passando por fundos de fundos e instituições multilaterais. “Embora todos estejam centrados no efeito social gerado por nossos investimentos, o sucesso financeiro do fundo é igualmente importante e um indicador adicional do sucesso da nossa missão de criar mudanças sistêmicas fundamentais”, assegura Motta. Dentre os seus investidores atuais, estão nomes como Omidyar Network (do fundador do eBay, Pierre Omidyar), o Soros Economic Development Fund (do grego George Soros) e a International Finance Corporation (IFC), do Banco Mundial.

CLASSE C NA BOLSA — Para quem não acessa os fundos de capital de risco, há opções também em bolsa de valores para apostar no potencial de populações emergentes, principalmente as da classe C. Um exemplo são as construtoras que se aproveitaram do programa federal de moradia popular, o Minha Casa, Minha Vida, cujo objetivo é erguer um milhão de novas casas e apartamentos para a população com renda familiar mensal de até dez salários mínimos. O governo aumentou os subsídios, reduziu os custos com seguros e ampliou o acesso ao Fundo Garantidor de Habitação, que refinancia parte das prestações, caso o trabalhador fique desempregado durante o processo de compra. Algumas companhias beneficiadas por isso são MRV Engenharia, PDG, Cyrela Realty (com sua subsidiária para baixa renda, a Living) e Tenda, ressalta Flavio Sznajder, sócio-fundador da gestora de recursos independente Bogari Capital. Aproveitam o embalo fabricantes de materiais de construção, como a Eternit, que produz caixas d’água para a população de baixa renda.

A forte presença no Nordeste faz com que algumas companhias sejam favorecidas pelo desenvolvimento da região, lembra Sznajder. Ele cita o exemplo da M. Dias Branco, dona de marcas de biscoitos e massas alimentícias populares como Adria, Basilar, Fortaleza, Isabela e Zabet. Outra companhia que pode se beneficiar da expansão de renda e de crédito nessa faixa da população, apesar de atuar em todo o território nacional e em praticamente todas as classes sociais, é a Cielo, mais do que a concorrente Redecard, reforça o gestor. Ele lembra que a bandeira acaba acompanhando os bancos que a distribuem, no caso, o Bradesco e o Banco do Brasil, ambos com uma ampla rede no Nordeste.


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