Gigantes pela própria natureza

Fundos soberanos se voltam para mercados emergentes e revelam-se um poderoso agente de financiamento de empresas brasileiras

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 108 / 1 de agosto de 2012
Por  e


Braço de investimentos do governo de Cingapura, a Temasek tem dado provas da solidez de seu envolvimento com o Brasil. Nos últimos meses, seu grupo de empresas investidas no País ganhou ao menos três integrantes: a loja online de artigos esportivos Netshoes, a operadora de logística hidroviária Hidrovias do Brasil e a desenvolvedora de soluções de biotecnologia Amyris. “Continuamos positivos na nossa visão do potencial brasileiro e da região no longo prazo”, disse em nota Matheus Villares, diretor geral de investimentos no Brasil da Temasek, reforçando o interesse pela América Latina como um todo. O apetite da instituição, dona de um portfólio global de R$ 288 bilhões, reflete uma tendência verificada em vários fundos estatais: a busca por ativos em economias emergentes.

A movimentação desses investidores, conhecidos como fundos soberanos (SWFs, na sigla em inglês), vem sendo acompanhada com atenção pela comunidade financeira internacional em razão de seu crescimento acelerado. Embora os primeiros fundos soberanos tenham surgido há décadas — a Kwait Investment Corporation, fundada em 1953, é considerada a pioneira —, eles são um fenômeno recente, pois a maioria foi criada de 2004 para cá, como nota Eva Van Der Zee, pesquisadora da Universidade de Utrecht, da Holanda, em trabalho publicado em junho. Desde 2005, pelo menos 20 fundos soberanos se estabeleceram no mundo, de acordo com o Sovereign Wealth Fund Institute, dedicado a estudar o tema. O instituto estima que, hoje, o patrimônio total desses agentes passe de US$ 5 trilhões, podendo chegar a US$ 10 trilhões até 2020. Não há uma definição estreita de fundo soberano, mas, de maneira geral, podem-se incluir sob esse chapéu fundos controlados por governos (exceto fundos de pensão de empresas estatais) que investem em ativos estrangeiros. Basicamente, há dois tipos: os fundos “poupança”, que buscam destinos em que seus investimentos possam obter retorno financeiro, e os dispostos a promover desenvolvimento econômico.

Eles ganharam destaque entre 2007 e 2008, antes do estouro da crise financeira, preocupando, inclusive, autoridades e reguladores ao comprarem participações relevantes de empresas consagradas em países desenvolvidos, como bancos e outras companhias de setores estratégicos. O temor era de que pudessem estar em jogo fins políticos, já que os SWFs pertencem a governos e vários deles não são dados a muita transparência — alguns dos maiores fundos soberanos são chineses. Mas, hoje, ao voltarem suas atenções para mercados em ascensão, sugerem, que, no fim, eles querem mesmo é retorno financeiro.

De acordo com a consultoria Monitor, em 2010, países emergentes receberam 103 investimentos de fundos soberanos, 60% dos aportes feitos naquele ano, ou seja, acima dos 53% de 2009. A TheCityUK, instituição responsável por promover o Reino Unido como centro financeiro, confirma essa tendência. Segundo a entidade, os Estados Unidos foram o destino campeão dos recursos de SWFs entre 2005 e 2011, respondendo por 19% do volume investido no período. Os britânicos apareceram em seguida, com 17%. As economias desenvolvidas foram as mais agraciadas entre 2006 e 2009. Desde então, a maioria dos aportes tem ocorrido em mercados em desenvolvimento — especificamente, em Brasil, Rússia, Índia e China (o grupo Bric, na sigla em inglês). “Provavelmente, esses países vão capturar uma fatia crescente nos próximos anos”, indica o relatório de 2012 da TheCityUK sobre fundos soberanos. O curioso é que, atualmente, muitos desses fundos também pertencem a países emergentes, o que faz com que as transações bilionárias aconteçam na conexão sul-sul, sem que aqueles estados outrora conhecidos como “grandes líderes” entrem na rota.

No Brasil, o grande momento dos fundos de capital soberano começou quando recebemos o grau de investimento pelas agências de classificação de risco, em abril de 2008. Meses depois, assim que o Lehman Brothers se esfacelou, e o País conseguiu passar sem maiores feridas pela fase de grande turbulência, ficou estabelecido: o Brasil seria um dos principais destinos de aportes feitos pelos fundos soberanos.

Neste ano, diversos fundos sinalizaram disposição em apostar no País. No fim de abril, durante a Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), o fundo do Qatar QIA (Qatar Investment Authority) anunciou que tem US$ 30 bilhões para investir em 2012 e está de olho nas economias emergentes — o Brasil é um de seus focos. Na ocasião, o fundo soberano da Noruega, que já teria US$ 500 milhões em bônus soberanos brasileiros ao fim de 2011, também afirmou que deseja investir em títulos da dívida pública de países emergentes emitidos em moeda local, incluindo o Brasil. O fundo tem US$ 600 milhões para esse fim.

Do lado das transações já efetuadas, uma das mais comentadas ocorreu em 2010, quando um consórcio de nove fundos, que incluía a Government of Singapore’s Investment Corporation, a China Investment Corporation e o Abu Dhabi Investment Council, investiu US$ 1,8 bilhão no BTG Pactual. Também em 2010, foi anunciada a venda de 14,3% da Odebrecht Óleo & Gás (OOG) para a Temasek, por US$ 400 milhões. Neste ano, além da Temasek, outros fundos soberanos anunciaram investimentos em ativos brasileiros. A Mubadala Development Co., fundo de Abu Dhabi voltado ao desenvolvimento econômico, pagou US$ 2 bilhões por uma participação de cerca de 5% no Grupo EBX, a holding de Eike Batista.

“Parcerias com companhias de escala mundial são um elemento-chave para nossa estratégia de investimento e desenvolvimento. A transação com o Grupo EBX marca o nosso primeiro investimento direto significativo em um dos mercados que crescem mais rapidamente no mundo hoje e é um importante passo para o Mubadala no Brasil e na América Latina. Nós estamos confiantes de que essa parceria pavimentará futuras colaborações”, declarou Khaldoon Khalif Al Mubarak, CEO do Mubadala, ao anunciar o negócio com Eike Batista.

Os SWFs pertencem a governos e vários deles não são dados a muita transparência

OPACIDADE — Apesar de eventuais divulgações de negócios realizados pelos fundos soberanos no Brasil, é difícil precisar quantos estão em atuação aqui e em que áreas. De uma maneira geral, os fundos são muito pouco transparentes, reconhece o próprio Sovereign Wealth Fund Institute, que tem um índice para medir a transparência dos SWFs, o Linaburg Maduell Transparency Index. As empresas brasileiras também se esquivam de comentários, assim como os gestores locais, que costumam auxiliar nas transações e receber mandatos de gestão.

Na visão de acadêmicos que observam a atuação desses fundos, a aproximação dos SWFs só tende a produzir bons frutos. Para Robert Hodrick, professor da Columbia Business School, o investimento no Brasil faz com que os fundos soberanos alcancem seus dois maiores objetivos: alto retorno e diversificação. “O crescimento das companhias brasileiras e as perspectivas de desenvolvimento futuro fazem do Brasil um destino de investimento muito sedutor”, afirma Hodrick. “Tudo chama a atenção: as enormes reservas de petróleo, as exportações de aviões, de agricultura, dentre muitas outras coisas”, ressalta Stuart Greenbaum, da Washington University em St. Louis.

Luciano de Castro, professor da Kellogg School of Management da Northwestern University, diz que vê com bons olhos o interesse por fundos estrangeiros no Brasil e que o País deve criar o ambiente certo para receber os aportes. Mas alerta: “É importante acompanhar com atenção a atuação desses grandes fundos soberanos. O ideal era que agissem com mais transparência”. Segundo ele, as maiores oportunidades para os fundos no Brasil estão na área de infraestrutura.

O Brasil, vale lembrar, criou o seu fundo soberano em dezembro de 2008, depois de ter descoberto as reservas do pré-sal da Baía de Santos, para aplicar os recursos obtidos com a exploração e produção do petróleo e “fomentar projetos estratégicos, mitigar efeitos de ciclos econômicos, formar poupança pública e promover investimentos em ativos no Brasil e no exterior”, de acordo com declarações do Tesouro Nacional. Hoje, conta com US$ 11,3 bilhões e ocupa o 33º lugar no ranking dos maiores fundos soberanos do mundo.

Na opinião de Castro, o fundo soberano brasileiro é uma forma de o governo federal diversificar o risco e, principalmente, tentar controlar a pressão sobre o câmbio. A armadilha, em sua visão, está na proximidade do País com o mundo do petróleo. “Há o perigo de passar por todos os problemas que os outros produtores de petróleo tiveram, com o forte desenvolvimento desse setor e um grande atraso em todos os outros, a chamada ’oil curse’ (maldição do petróleo)”. Os efeitos colaterais, adverte o professor, “são pressões políticas e aumento da corrupção”.


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