Exploradores globais

Fundos multimercados apostam em ativos estrangeiros e se saem bem, mesmo em período de crise

Bimestral/Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 82 / 1 de junho de 2010
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Assim que as regras para investimentos no exterior criaram um ambiente propício para aproveitar as oportunidades que vinham de fora, a Gávea Investimentos foi uma das que lançaram uma carteira voltada para comprar ativos estrangeiros. O resultado foi positivo. Constituído em julho de 2008, o Gávea Plus FIC FIM acumula um ganho de 4,66% de janeiro a abril — retorno de 1,96 ponto percentual acima do CDI. Esse fundo de investimento tem 95% de seus recursos no Gávea Master Plus FIM, que, por sua vez, investe 20% do patrimônio no exterior. No ano passado, o retorno do fundo de cotas foi de 22,34%, 12,44 pontos percentuais superiores ao CDI do período. “Em um momento de baixa forte de ativos globais, esses fundos andam muito bem”, diz Rodrigo Fiães, sócio da área de relacionamento com clientes da gestora do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. O patrimônio líquido do fundo era de R$ 211,2 milhões no fim de abril.

“Possuir ativos estrangeiros acaba nos diferenciando e amplia as possibilidades de alocação das carteiras”, acrescenta Fiães. Em um momento como o atual, em que os títulos e as ações de companhias de países europeus com alta dívida pública têm sua solvência posta em dúvida, os gestores podem direcionar seus recursos para países emergentes asiáticos e sul-americanos com situação fiscal e econômica melhores. A Gávea não elege nenhuma classe de ativos em especial para concentrar suas operações, que podem ser com câmbio, juros ou bolsa. As decisões de investimento são baseadas na avaliação do provável cenário macroeconômico futuro, na técnica chamada “top down” (de cima para baixo). “Temos uma posição vendida em euro, porque acreditamos haver problemas estruturais nessa região”, conta Fiães.

O caminho aberto para operações em mercados globais, nos quais algumas classes de ativos possuem mais liquidez, está sendo cada vez mais aproveitado pelos gestores brasileiros. No Brasil, as três linhas predominantes de ativos — câmbio, renda fixa e renda variável — aproximam a correlação entre os fundos nacionais e deixam os retornos muito parecidos. Para se diferenciarem, os fundos multimercados correm atrás de ativos rentáveis no exterior, que se firmam como instrumentos de aumento de rentabilidade e de diversificação de portfólio. “As melhores oportunidades não estão necessariamente aqui”, afirma o diretor executivo da Ashmore Brasil, Eduardo Camara Lopes.

A Ashmore Brasil, subsidiária da gestora britânica Ashmore, percorreu o mesmo trajeto que a Gávea. Lançou um fundo multimercado que investe 20% de seu patrimônio em mercados externos, o Ashmore Brasil FIM. O fundo para novos cotistas, o Ashmore Brasil 30 FIC FIM LP, investe seu patrimônio líquido nesse fundo master e tem dentre seus clientes investidores pessoas físicas de alta renda e pessoas jurídicas. Cerca de R$ 54 milhões, ou 20% do patrimônio de R$ 270 milhões do fundo em 30 de abril, estão alocados em países emergentes da Ásia e da América do Sul. A especialidade da Ashmore é negociar câmbio, juros, ações e derivativos de mercados emergentes como Coreia do Sul, Rússia, Turquia, Brasil, Chile e Colômbia. No acumulado do ano, até o dia 26 de maio, o fundo obteve uma vantagem de 0,34 ponto percentual sobre o CDI, isto é, um crescimento de 3,7% ante os 3,36% da taxa interbancária. De uma maneira geral, o retorno tem sido bom, segundo Lopes. Em 2009, esse fundo rendeu 17,68%, contra um CDI de 9,88%.

ALTERNATIVA PARA O FUTURO — Com a diversificação das carteiras, os fundos prometem atrair grandes clientes, como os fundos de pensão. A Valia, da mineradora Vale, dona de um patrimônio de R$ 12,5 bilhões, olha com cada vez mais interesse para os ativos de fora. A Resolução 3.792 do Conselho Monetário Nacional (CMN), editada em setembro de 2009, ampliou o limite de investimentos em fundos multimercados de 3% para 10%. Isso fez com que os fundos de pensão prestassem mais atenção nessa classes de ativos.

“Nossas equipes estão realizando os estudos técnicos de risco e retorno. Consideramos os multimercados como alternativa para o futuro”, diz o diretor de investimentos e finanças da Valia, Maurício Wanderley. A carteira de investimentos da entidade de previdência complementar é composta basicamente de 62% de ativos de renda fixa, como títulos públicos federais de longo prazo, e 30% de renda variável.

O sinal verde da CVM para os fundos de investimento veio com a Instrução 450, de março de 2007, que permitia a aplicação de até 20% do patrimônio dos fundos multimercados em ativos do exterior, e 10% para os outros fundos. O objetivo da norma era possibilitar investimentos brasileiros em “cenários de menor rentabilidade dos títulos públicos, que se constituíram, ao longo de muitos anos, nos principais ativos dos fundos brasileiros”, explica o texto da regra. Mais tarde, em fevereiro de 2008, a Instrução 465 ampliou a aplicação dos fundos para até 100%.

Valendo-se do conhecimento de seus gestores no mercado internacional, a Gávea foi uma das primeiras a lançar um fundo que investe todo o seu patrimônio fora do País. De janeiro a abril, o retorno do Gávea Investimento no Exterior FIC FIM, que investe 95% de suas cotas no Gávea Master Investimento no Exterior FIM, foi de 7,46%, um ganho de 4,77 pontos percentuais sobre o CDI. Em 30 de abril, o patrimônio líquido atingiu R$ 224,1 milhões. “O Armínio (Fraga) teve experiência profissional no exterior, o que nos deu confiança para lançar um produto com esse perfil”, diz Fiães. Antes de presidir o Banco Central do Brasil, entre 1999 e 2003, Armínio Fraga trabalhou em instituições como o Soros Fund Management e o Salomon Brothers, nos Estados Unidos.

No entanto, a modalidade de fundo multimercado que aplica todo o seu patrimônio em papéis estrangeiros apresenta pouca demanda por uma série de motivos. Um deles é a falta de conhecimento sobre diversos mercados. “Como esses produtos têm baixa correlação com os ativos brasileiros, é preciso se certificar de que o gestor conhece bem onde está aplicando”, ressalta Lopes, da Ashmore. Sem data definida, a gestora britânica pretende lançar o seu fundo 100% voltado a oportunidades externas.

Outro motivo que desestimula a existência desses fundos é o elevado tíquete da aplicação inicial, de R$ 1 milhão, conforme determinado pela Instrução 465. Nos fundos que investem até 20% dos recursos no exterior, o tíquete mínimo fica a critério do gestor. Enquanto o do Sparta Commodities FIM exige aplicação de R$ 5 mil, o Gávea Plus FIC FIM impõe R$ 300 mil. O Ashmore Brasil 30 FIC FIM LP pede um aporte inicial de R$ 100 mil. “Os fundos de 100% são para quem quer ativos muito específicos, como títulos de dívida pública estrangeira”, comenta Ulisses Nehmi, gerente de investimentos da asset paulistana Sparta, que nem cogita criar esse tipo de fundo. “E são muito expostos à variação cambial”, adiciona. Enquanto o rendimento dos títulos dos Estados Unidos beira a zero, aplicar em dívida brasileira traz um retorno superior a 9,5% ao ano.

A atratividade dos ativos brasileiros também é um fator desestimulante, afirma o diretor de investimentos da Safdié Gestão de Patrimônio, Otávio Vieira, que não vê razão para deslocar o dinheiro de seus clientes para o exterior no curto prazo. “A taxa de juro real brasileira é alta, e a Bolsa está mais barata para se investir do que a de outros emergentes como Índia e China.” A taxa básica de juro brasileira, de 9,5% ao ano, que é a maior do mundo, deve subir para 11,75% até dezembro, de acordo com as projeções de mercado publicadas no boletim Focus do Banco Central.

O ambiente externo desfavorável tem feito estragos em alguns fundos. O retorno do Sparta Commodities FIM, da Sparta, está negativo em 0,7% no acumulado do ano até 30 de abril. O fundo, criado em outubro de 2009 e voltado a pessoas físicas, tinha um patrimônio líquido de R$ 3,4 milhões no fim de abril. “Estamos perdendo com a queda das commodities e das bolsas”, justifica Nehmi. O veículo investe em commodities como café, milho e açúcar nas Bolsas de Chicago e Nova York, as maiores praças do planeta para o comércio desses produtos. Apontando o ganho de 3% em 2009, Nehmi aposta no potencial do produto. “Com o fundo, podemos montar posições em mercados que são muito mais líquidos que a BM&F”, observa.


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