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Casa em ordem

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A companhia já traçou seu plano estratégico e considera que uma oferta pública inicial de ações (IPO) é a ferramenta ideal para atingir os objetivos. O que fazer a seguir? Pois bem, esta é a hora de arrumar a casa para receber os investidores. A lista de tarefas é significativa. Começa por modificar o estatuto, para estabelecer as regras da empresa no ambiente de capital aberto. É importante também aperfeiçoar os controles internos e melhorar a contabilidade, para prestar as informações que o mercado de ações requer. Criar uma estrutura de governança corporativa — se ela não existir — inspirará confiança aos novos acionistas. A empresa deve ainda avaliar a necessidade de promover uma reestruturação societária, para fortalecer a oferta. Por fim, é preciso selecionar os parceiros que farão o IPO deslanchar: escritórios de advocacia, bancos coordenadores e corretoras.

A empresa já precisa ter o capital aberto antes de fazer o IPO?
Não. É possível conduzir o processo de abertura de capital e de oferta pública de ações concomitantemente, uma vez que o tempo para se obterem os registros de companhia aberta e da oferta é praticamente o mesmo. Essa, aliás, é a forma mais comum. No entanto, se a empresa já for aberta, a papelada que ela deverá entregar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à BM&FBovespa será menor. A grande vantagem de a companhia ter aberto o capital previamente não decorre de aspectos jurídicos, mas sim de mercado, considera a advogada Fabíola Cavalcanti, do escritório Barbosa Müssnich & Aragão. Isso porque a empresa aberta costuma ser mais conhecida pelos investidores e está acostumada a divulgar demonstrações e resultados.

Quais são os prazos para a abertura de capital e para o registro da oferta pública?
Uma vez protocolados os pedidos de registro da oferta e do status de companhia aberta, a CVM tem 20 dias úteis para examinar a papelada. Caso haja alguma pendência, a autarquia avisa os advogados, que têm 40 dias úteis para resolver as questões — geralmente, porém, esse processo leva em torno de cinco dias úteis. Então a documentação é protocolada novamente na CVM, que tem dez dias para determinar se as pendências foram resolvidas. Caso os documentos ainda não estejam em ordem, eles voltam novamente para a empresa, a fim de que ela possa cumprir as exigências que não foram atendidas. Concluída mais essa etapa, a CVM tem três dias para conceder tanto o registro de companhia aberta como o registro da oferta.

É possível que a CVM aprove apenas o registro de companhia aberta e recuse o da oferta?
Sim. As exigências para obtenção de cada um desses registros são distintas, assim como os departamentos que fazem as análises. No entanto, dificilmente os advogados deixam a situação chegar a esse ponto: quando percebem que o registro de companhia aberta não será dado (um dos motivos pode ser a existência de demonstrações financeiras com ressalvas), retiram o pedido de registro da oferta.

Quanto tempo demora para a empresa preparar um IPO?
“Fazer um IPO é montar um quebra-cabeça de mil peças”, afirma Alexandre Barreto, advogado do Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados. Juntar todas as partes requer tempo. Os resultados precisam estar auditados por, no mínimo, três anos (embora seja possível fazer auditorias retroativas). A companhia deve dispor ainda de uma boa estrutura de governança e área de relações com investidores (RI). Se ela já estiver nesse estágio, a preparação para a oferta pode levar quatro meses. Entretanto, para que o nível de estresse da equipe durante o processo não comprometa a qualidade da operação, é importante evitar que o trabalho seja feito em cima da hora. “Há muita pressão sobre os executivos para não perder uma janela de demanda”, diz Barreto.

Que outras providências precisarão ser tomadas antes de fazer a oferta pública?
O processo pode envolver planejamento sucessório, se a empresa for familiar, reforma do estatuto e, frequentemente, reorganização societária. Muitas vezes, a companhia se apresenta como um caso de investimento interessante, porém precisa antes se organizar para atrair investidores.

Por que o estatuto da empresa deve passar por ajustes?
“Quanto mais preciso for o estatuto, melhor”, destaca a advogada Eliana Chimenti, do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados. É importante o documento se adequar à nova realidade que a abertura de capital representa. Os principais itens a serem modificados nesse contexto são: os aspectos necessários para enquadrar a empresa no segmento de listagem na BM&FBovespa a que ela irá aderir; as ocasiões em que as ações preferenciais terão direito a voto e quais as suas vantagens; o tipo de dividendo (fixo ou mínimo) que será pago; os assuntos de competência do conselho e sujeitos à votação na assembleia; as regras para convocação das assembleias; e os ajustes nas atribuições, na composição e no funcionamento do conselho de administração. Outro ponto importante é a definição de normas que evitem a concorrência entre a empresa e seus acionistas, ao restringir a criação de novos negócios.

Empresas montam área de RI antes do IPOElas ainda nem chegaram à bolsa, mas já começaram o trabalho de relações com investidores (RI). A Altus, empresa do setor de automação industrial, e o Grupo Empreza, que atua com serviços de recursos humanos, estão apostando no relacionamento prévio com o mercado para pavimentar a estrada que leva a um IPO bem-sucedido.

A Altus registrou pedido de companhia aberta e de listagem na BM&FBovespa na primeira quinzena de abril. Seu plano é fazer um IPO no Bovespa Mais até julho de 2015. Enquanto o dia da oferta não chega, quer ganhar experiência como companhia aberta e no relacionamento com investidores. Seu site de RI deve entrar no ar daqui a dois meses.

Segundo Fabiano Favero, diretor de RI da Altus, as dúvidas mais comuns dos investidores se referem à atuação da empresa — ela produz controladores lógicos programáveis (CLPs), que monitoram processos industriais, e realiza a integração de sistemas. A Altus já havia participado de encontros com potenciais investidores promovidos pelo BNDESPar, dono de 39% do capital da companhia, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pela BM&FBovespa.

O Grupo Empreza também descobriu potenciais investidores por intermédio da Bolsa. No fim de 2012, participou de um fórum de empresas candidatas a entrar no Bovespa Mais, em que fez apresentações a pelo menos dez fundos de private equity interessados em conhecer a companhia. É o que conta Dov Najman, diretor de RI do grupo.

Aos poucos, o Empreza vem se preparando para captar recursos: constituiu uma área de RI em setembro de 2012 e contratou uma das maiores firmas de auditoria do setor para escrutinar suas demonstrações contábeis. Até o fechamento deste guia, estava prestes a decidir entre captar recursos via fundos de private equity e fazê-lo via IPO. Em 2012, o Empreza faturou R$ 255 milhões — para 2013, a meta é chegar a R$ 452 milhões.

É necessário adequar as áreas de controle interno e de contabilidade?
Depende do estágio em que a empresa se encontra, mas provavelmente sim, dada a agilidade com que as companhias abertas têm de prestar informações ao mercado. A contabilidade e a área de controles internos, necessárias para dar robustez às demonstrações financeiras, devem estar preparadas para produzir relatórios consistentes nos prazos exigidos pela CVM. Todas as companhias abertas têm de entregar os resultados trimestrais (por meio dos ITRs) em até 45 dias após o encerramento do período. Também precisam publicar as Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFPs) em até 90 dias. O Formulário de Referência (FR) — que é anexado ao prospecto da oferta — deve ter atualização anual e ser entregue à CVM.

A companhia deve ter um conselho de administração montado antes da oferta?
Uma estrutura boa de governança dá segurança aos investidores. Muitas empresas que fizeram IPOs bem-sucedidos já contavam com um conselho de administração atuante, algumas vezes com membros independentes, antes da oferta. Isso é especialmente válido para aquelas que receberam aportes de fundos de private equity, como Localiza, Totvs e Odontoprev. As duas últimas listaram ações na bolsa em 2006, mas possuíam um conselho de administração formado desde, respectivamente, 1999 e 1998. Na Localiza, o conselho foi criado em 1997, oito anos antes do IPO, em 2005.

Quando a área de relações com investidores (RI) deve ser formada?
A área de RI costuma ser estruturada de seis meses a um ano antes do IPO. Isso permite que os trabalhos sejam conduzidos de forma organizada e tranquila. Quando faz o pedido de registro de companhia aberta, o diretor de relações com investidores, que responderá legalmente pela empresa, já deve estar designado. Na Odontoprev, a área foi formada em janeiro de 2006 e o IPO ocorreu em novembro daquele ano. Contudo, há exceções. Na Hering, por exemplo, que fez uma espécie de novo IPO em 2007, o departamento de RI respondia à diretoria de finanças até 2009, quando ganhou independência e profissionais exclusivamente dedicados.

Qual é a formação ideal de um profissional de RI? Ele deve ser buscado na própria empresa?
Encontrar alguém “da casa” é a situação ideal. “Melhor buscar quem conhece bem a companhia”, aconselha Roberto Mendes, diretor de finanças e relações com investidores da Localiza. Além de estar familiarizado com o modelo de negócios e saber os detalhes da operação, um profissional interno pode contar a história da companhia a partir da sua própria vivência. Quando essa opção não é possível, Mendes sugere contratar o profissional com dois anos de antecedência, para que haja tempo de ele se preparar até o IPO.

Reorganização societária

Em que circunstâncias uma reorganização societária é importante?
Sempre que for necessário colocar sob um mesmo guarda-chuva os ativos da empresa que terá ações vendidas no mercado. Isso pode ocorrer, por exemplo, em grupos que atuam de forma verticalizada (em todas as etapas de uma cadeia produtiva), por meio de várias empresas. Nesse caso, é interessante agrupá-las para vender ações de uma só companhia, dando mais robustez à oferta. Outra situação que requer uma reorganização é aquela em que o IPO se baseia no modelo “roll up”. Ele consiste em identificar um segmento fragmentado, desprovido de um grande participante, e criar uma holding para fazer sucessivas aquisições de pequenas empresas, todas com forte potencial de geração de caixa. Seus antigos donos tornam-se sócios da companhia consolidadora. A holding é, então, listada na bolsa por meio de um IPO.

É complexo estruturar o processo de reorganização societária?
Sim. “Ele pode ser complexo tanto do ponto de vista jurídico quanto do contábil”, avisa Alexandre Barreto, sócio do escritório de advocacia Souza, Cescon, Barrieu & Flesch. Dependendo do segmento de atuação da companhia, o processo pode envolver questões regulatórias. No setor de óleo de gás, por exemplo, para que os contratos sejam transferidos de uma empresa para outra, é necessário ter autorização dos parceiros. Outro ponto delicado é a parte contábil: caso a companhia que ofertará as ações seja nova, fruto de uma reorganização, ela deve apresentar uma demonstração pro forma dos últimos três anos.

O que é demonstração financeira pro forma?
É uma espécie de simulação de resultados. Mostra como a última linha do balanço da empresa ficaria, caso já operasse no novo formato. A demonstração também é útil quando a companhia adquire um ativo muito importante, pois revela como a aquisição teria impactado os resultados da empresa. Essa demonstração costuma entrar no item “outras informações” do Formulário de Referência (FR). A CVM colocou em audiência pública uma minuta de instrução detalhando como ela deve ser feita, já que ainda não há regras a esse respeito. Atualmente, as companhias brasileiras costumam apresentar a demonstração pro forma voluntariamente e de acordo com o modelo americano, uma vez que muitas delas fazem esforços de venda para investidores nos Estados Unidos, onde essa demonstração é regulamentada.

Escolha dos parceiros

Quais são os prestadores de serviço que a empresa precisa contratar?
No momento em que a companhia estiver com a casa arrumada e as contas auditadas, ela deverá selecionar os escritórios de advocacia e os bancos coordenadores, que viabilizarão a oferta. Quando há esforço de venda no exterior, geralmente são necessários quatro escritórios para estruturar a operação: dois locais e dois estrangeiros. Com relação aos bancos, em geral há a formação de um consórcio de quatro ou cinco coordenadores, além das corretoras que cuidarão da distribuição para o varejo.

Qual é o trabalho do coordenador-líder e dos demais coordenadores?
O coordenador-líder é o responsável legal da oferta perante a CVM. Junto com os demais coordenadores, ele é responsável por receber as reservas de ações, ajudar a selecionar os investidores e atribuir preço para a ação. De uma forma mais ampla, o papel da coordenação é aproximar os interesses de vendedor (a empresa), que deseja vender suas ações pelo máximo valor possível, e compradores (os investidores), que querem comprar pelo preço mais baixo.

Por que há tantos coordenadores?
Atualmente, os IPOs costumam ser formados por um sindicato de quatro a cinco coordenadores, o que possibilita acessar mais investidores. “Os bancos têm capacidades complementares: alguns se destacam pelo contato com os estrangeiros, outros têm acesso a investidores especializados em determinado setor e outros ainda são voltados a investidores institucionais brasileiros”, explica Cleomar Parisi Jr., superintendente de equity capital market do Santander. Outro ponto é que a visibilidade da oferta aumenta quando ela conta com vários coordenadores, já que eles costumam designar analistas para acompanhar as ações.

Qual é a participação dos coordenadores contratados e das corretoras?
A participação do contratado frequentemente se limita a escalar um analista para acompanhar os papéis e a recomendar a operação. Ele não interfere no livro de preços (bookbuilding) e não recebe ordens de compra das ações. As corretoras são responsáveis por vender as ações para a pessoas físicas.

O que a empresa deve levar em conta na hora de selecionar os coordenadores?
Ao contratar os coordenadores, as companhias analisam capacidade técnica, histórico no mercado, domínio do negócio e conhecimento do setor. Elas ainda olham bastante para o relacionamento deles com cada instituição. Caso o banco já tenha trabalhado com a empresa em outra operação — como fusão ou aquisição —, pode ter costurado um acordo em que tenha preferência nos IPOs. Muitas companhias abrem um processo de seleção, formal ou informal, nos quais os bancos fazem apresentações sobre seu trabalho e, quando possível, levam uma pré-avaliação do valor da empresa. Há empresários que dão mandato de coordenador-líder para a instituição que avaliar a companhia pelo valor mais alto. Aos poucos, contudo, essa mentalidade vem mudando — até mesmo porque, depois, o mercado não dá sustentação para preços considerados irreais, e as ações acabam se desvalorizando.

Transparência e conflitos de interesses

Quais são os conflitos de interesses que permeiam um IPO?
Eles estão relacionados ao valor da ação. A empresa quer vender os papéis pelo preço mais alto possível, enquanto o investidor quer pagar o mínimo. O banco pode se ver tentado a superavaliar a companhia, tanto para conseguir o mandato de coordenador como para ser bem remunerado, já que seu pagamento é um percentual do valor total ofertado. No entanto, as boas instituições financeiras costumam refrear essa ânsia pelo lucro no curto prazo. O risco de somente levarem a mercado operações muito caras é caírem no descrédito dos investidores. Outro possível conflito vai na direção oposta: o banco pode ser levado a privilegiar os investidores, com quem está em permanente contato, e subavaliar as ações da empresa. Isso ocorreria porque o IPO é um evento único e os follow-ons são esporádicos na vida de uma companhia.

Se a empresa pegar um empréstimo pré-IPO com um dos bancos coordenadores, ela será malvista pelos investidores?
Essa prática, chamada de equity-kicker, é malvista no mercado. Ocorre quando a empresa pega um empréstimo que não conseguiria saldar apenas com seu fluxo de caixa. O financiamento é concedido para que a companhia ganhe porte (por meio de aquisições, por exemplo) e se torne elegível a um IPO. Com o dinheiro captado na oferta, a empresa está obrigada, por força das cláusulas do contrato, a pagar o empréstimo. A princípio, uma situação como essa poderia sinalizar que o banco confia na companhia e no seu plano de negócios e, por isso, estaria disposto a correr um risco maior para fazer a operação deslanchar. Após vários IPOs feitos dessa forma em 2007, a conclusão a que se chegou não foi boa: as companhias que pegaram os empréstimos venderam caro suas ações, deixando pouco espaço para valorização dos papéis no longo prazo. Hoje, como o risco de um IPO não dar certo tornou-se maior, os bancos pararam de oferecer esse tipo de financiamento.

A relação entre o emissor das ações e os coordenadores deve ser explicitada?
Sim, ela deve constar nas seções “operações vinculadas à oferta” e “relacionamento entre o ofertante e os coordenadores da oferta” do prospecto. O código de melhores práticas de ofertas públicas da Anbima também regula esse aspecto, para desestimular o equity-kicker. Os bancos participantes devem informar, em “operações vinculadas”, a existência de empréstimos dados à emissora e explicar suas condições, como taxa, prazo e condições de pagamento. Também precisam informar se têm direitos de subscrição de ações da empresa, além de declarar a intenção que tinham ao conceder o empréstimo e possíveis benefícios que obterão em decorrência dele.

A oferta

É possível listar ações na bolsa sem fazer oferta pública inicial?
Sim. Essa é uma forma de companhias de pequeno ou médio porte, que têm mais dificuldade em acessar o mercado por meio de IPOs, se tornarem conhecidas pelos investidores e se acostumarem à rotina de companhia aberta. A desvantagem dessa prática é que a empresa, inicialmente, arca com todos os custos de permanecer aberta, mas não capta recursos do público. Algumas companhias que trilharam esse caminho foram a RJCP, negociada no segmento tradicional da BM&FBovespa, e a Desenvix, listada no Bovespa Mais — nesse segmento, as empresas têm até sete anos para fazer o IPO.

Uma empresa com ações listadas na bolsa só pode fazer ofertas públicas?
Não. Ela pode fazer também aumentos de capital privados, que são bem mais simples que uma oferta pública e podem atender às necessidades de recursos. Para isso, deve aprovar o aumento em assembleia e publicar um aviso ao mercado. Os acionistas têm um prazo de 30 dias para exercer o direito de preferência, se não quiserem ter suas participações diluídas. Caso nem todas as ações sejam compradas, a companhia pode ainda promover duas rodadas de oferta aos sócios. Se nem assim houver demanda pelos papéis, deverá ofertá-los no mercado por meio de leilão de sobras.

Quais são os requisitos para realizar um IPO por meio de leilão de sobras?
O leilão de sobras pode ser realizado se a empresa fez um aumento de capital privado, mas seus acionistas não subscreveram todas as ações. Sua realização dispensa a elaboração tanto do prospecto quanto do anúncio de início de distribuição. De acordo com o artigo 6o da Instrução 400/03 da CVM, para a utilização desse procedimento simplificado, as sobras não podem ser superiores a um terço das ações em circulação no mercado. Em dezembro de 2012, no entanto, a autarquia publicou comunicado informando que as companhias podem fazer IPO por meio de leilão de sobras sem necessariamente observar esse limite, mediante dispensa solicitada e concedida pela CVM caso a caso. Para isso, é necessário que a companhia pertença à categoria A (definição dada pela Instrução 480/09 da CVM) e seja listada num dos níveis diferenciados de governança da bolsa. Nesses casos, o limite máximo para a oferta é de R$ 150 milhões, e os papéis só podem ser destinados a investidores qualificados (com mais de R$ 300 mil em aplicações financeiras).

Qual é o prazo para as ofertas subsequentes?
Uma vez que a companhia já realizou o IPO e quer voltar a mercado por meio de uma oferta subsequente (follow-on), o processo é bem mais rápido e simples, esclarece o advogado Jean Marcel Arakawa, do escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados. A CVM e a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) possuem um convênio pelo qual a associação faz uma análise prévia da documentação e só a encaminha para a autarquia depois de aprovada. Enquanto o sinal verde para o IPO demora mais de dois meses, a liberação da oferta subsequente costuma durar cerca de 40 dias.

O que é uma companhia pré-operacional?
Não há, na legislação, uma definição do que seja uma companhia pré-operacional. O entendimento geral é que se trata de negócios com menos de dois anos de existência e que não tenham origem em outras atividades — a exemplo das várias empresas do grupo EBX, do empresário Eike Batista. Ficam de fora do rol companhias criadas especificamente para o IPO que, contudo, já atuavam no ramo por meio de outras empresas.

O que é necessário para fazer o IPO de uma empresa pré-operacional?
Por conta da falta de histórico de geração de receita, as companhias pré-operacionais devem apresentar ao mercado um estudo de viabilidade, com projeções, de acordo com as instruções 400/03 e 480/09 da CVM. “Nesses IPOs, os cuidados precisam ser redobrados”, adverte Eliana Chimenti, advogada do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados. É preciso estar claro, no prospecto, que a companhia ainda não está operando e quais projeções correm o risco de não se realizar. Devido ao risco elevado, as ofertas de companhias pré-operacionais costumam estabelecer tíquetes mínimos para os investidores, o que acaba por afastar o aplicador de varejo.

O que é o modelo de roll up? Quais são as vantagens dele?
O roll up é um modelo baseado em aquisições de empresas de pequeno e médio portes. Uma das suas vantagens é permitir a arbitragem de múltiplos: a consolidadora paga preços baixos pelas empresas adquiridas, já que elas são pequenas, entretanto consegue lançar ações na Bolsa por valores polpudos devido ao seu porte e à estrutura de transparência e governança desenvolvida para o IPO. Outro atrativo advém da sinergia e do ganho de escala. É possível montar uma única estrutura administrativa, financeira, de controle e de sistemas para atender às várias empresas que fazem parte da holding e, com isso, diluir custos fixos. A companhia constituída de participações em outras menores também ganha acesso a capital mais barato e cria uma marca forte. Como realiza suas compras preponderantemente por meio da troca de ações cotadas na bolsa, não se endivida fortemente e mantém a alavancagem sob controle. Hoje, há três companhias brasileiras que listaram seus papéis na bolsa utilizando o modelo de roll up: Brazil Pharma, Brasil Brokers e Brasil Insurance. Constituídas como holdings, elas atuam em mercados fragmentados e, a partir da compra de empresas regionais, tentam se firmar como líderes nacionais. “Um dos desafios nesse tipo de oferta é dar aos investidores uma visão do todo”, justifica Glenn Mallett, superintendente executivo do Bradesco BBI.

Listagem sem oferta

Primeiro, listar as ações na bolsa. Depois de um tempo, fazer a oferta pública inicial (IPO). Essa fórmula foi testada pela Senior Solution, que, além de dividir a operação em duas fases, usou a criatividade para obter custos mais baixos que os usuais.

“Enquanto estava apenas listada na bolsa, a empresa se acostumou à divulgação de resultados e ganhou visibilidade”, diz Bernardo Gomes, diretor de relações com investidores. Desde 2007, a Senior Solution pensava em listar os seus papéis no Bovespa Mais, mas foi pega no contrapé pela crise de 2008. A ideia de acessar o mercado em duas etapas surgiu, então, como uma alternativa: “A crise nos mostrou que as janelas de oportunidade se abrem pouco. A empresa precisa estar preparada para acessar o mercado quando tiver chance”, afirma Gomes. Em maio de 2012, a empresa listou suas ações na BM&FBovespa; em março do ano seguinte, realizou o IPO, com captação de R$ 39,6 milhões na oferta primária e R$ 15,8 milhões na secundária.

A Senior Solution também elaborou um modelo “low cost” de oferta. A título de comparação, a Linx, que listou suas ações no Novo Mercado, gastou R$ 24,1 milhões para ofertar as ações (o que representava 5,25% dos R$ 460 milhões que pretendia captar). Já a Senior Solution desembolsou R$ 2,5 milhões, ou 4,6% dos R$ 55 milhões captados.

Na primeira fase do projeto, a de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como companhia aberta e listagem na BM&FBovespa, a Senior Solution gastou R$ 299 mil com advogados, publicações legais, taxas do regulador e da Bolsa, desenvolvimento do site de relações com investidores e assessoria de imprensa.

Durante o IPO, a preocupação com os custos se manteve. Uma economia importante foi com advogados: nas grandes emissões, se a oferta é só no Brasil, há dois advogados, um para a empresa e outro para o banco (ambos pagos pela emissora). No IPO da Senior, houve apenas um, o escritório Veirano Advogados. Com a auditoria dos números da oferta, a empresa gastou R$ 40 mil (contratou a RSM, que não é uma das quatro maiores do setor), frente aos estimados R$ 650 mil cobrados pelas firmas líderes.

Nos grandes IPOs, os bancos cobram uma taxa que gira em torno de 3,5% do valor emitido, acrescida de uma comissão por sucesso de 1,5%. Interessados em que o Bovespa Mais deslanche, os bancos (Votorantim e Banco do Brasil) cobraram da Senior apenas 3%.

Consultada sobre a necessidade de impressão do prospecto, a CVM afirmou que, conforme a Instrução 400/03, o prospecto impresso deve ser entregue apenas aos investidores que o demandarem. Caso contrário, pode estar disponível apenas em meio eletrônico —opção adotada pela Senior Solution. Já a BM&FBovespa permitiu que a companhia , em razão de se listar no Bovespa Mais, economizasse na taxa de liquidação. A remuneração, de 0,035%, varia de acordo com o volume da oferta, mas existe um patamar mínimo de R$ 138 mil. Esse valor foi descartado para a Senior Solution. Resultado: a companhia pagou os 0,035% sobre o volume da oferta, o que deu R$ 19 mil.

Na segunda fase, após o IPO, a empresa estima que gastará R$ 230 mil a mais por ano do que se não tivesse feito a oferta. Nesse cálculo estão computados o acréscimo da auditoria — decorrente da mudança de periodicidade de anual para trimestral —, o incremento nas horas de advogado, o aumento das publicações legais, a manutenção da equipe de relações com investidores (RI) e as taxas de fiscalização e escrituração das ações.


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