Quando o negócio não combina com ESG

Para além da atividade em si, é possível investir em incentivos transformadores e num jeito diferente de fazer as coisas



No começo de julho, um investidor comprou ações na oferta da BR Distribuidora ecoando a agenda ambiental. Por meio do fundo Samambaia, Ronaldo Cezar Coelho aportou 1,2 bilhão de reais em papéis da distribuidora de combustíveis, ampliando sua fatia acionária de 4% para 7,95%. Em entrevista ao Valor Econômico, prometeu ser um ativista do meio ambiente dentro da companhia. O movimento de Coelho é um exemplo do interesse do mercado em conciliar compromissos ambientais, sociais e de governança (os três pilares da sigla ESG) com negócios que, em sua gênese, têm impactos negativos sobre o meio ambiente e a sociedade.  

Locadora de automóveis, a Movida enfrenta o desafio de consolidar uma agenda socioambiental que minimize os estragos de uma atividade intimamente relacionada à emissão de gases de efeito estufa. Um dos caminhos é a oferta de incentivos para que o consumidor se torne mais consciente e menos poluidor, como o programa Carbon free, em que o cliente paga um pouco a mais para que a Movida plante árvores que neutralize suas emissões. Edmar Lopes, CFO da companhia, observa que a significativa parcela de carros flex na frota da companhia é outro fator positivo, especialmente se comparada com locadoras de automóveis de outras partes do mundo. “O etanol emite 10% do CO2 lançado pela gasolina comum”, frisa o diretor.  

A Movida estuda também formas de compensar financeiramente os clientes que optarem pelo combustível limpo. O etanol, alerta Lopes, é um diferencial do Brasil e uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Dentro de casa, o foco atual de Lopes é em tornar 100% das lojas da Movida autossuficientes em energia limpa nos próximos 12 meses. “Não é uma conta fácil, porque o investimento se pagará apenas no tempo. Mas essa é a hora em que a decisão passa pela consciência sobre aquilo que queremos ser”, afirma. 

Grandes investimentos, porém, nem sempre são fundamentais nesse percurso. Na visão de Camila Storti, fundadora da Abissal Capitalismo Sustentável, o trabalho para reduzir o impacto socioambiental passa primordialmente por mudanças de processos, muito mais do que por tecnologia. “Estamos falando de fazer as coisas de uma forma melhor, aprimorando todas as relações. Quando esse é um desejo real do acionista, atinge-se essas conquistas em um curto espaço de tempo”, afirma. A figura do acionista, a propósito, vem se provando um aspecto crucial. “Ter um controlador faz toda a diferença em processos como esse”, ressalta Lopes.  

Caminho só de ida 

Lopes e Storti concordam que a busca de práticas que compensem, ao menos em parte, o impacto negativo de seus negócios é um caminho sem volta. As pressões vêm de todas as pontas que originam recursos para a companhia: consumidores, credores, investidores e colaboradores. “Seja por conveniência ou convicção, é preciso mudar. Não se trata de moda, mas de tendência”, adverte Storti.  

A transição geracional em curso é, ao seu ver, o principal aspecto a ser considerado pelos empresários. O público que atualmente consome produtos e serviços ou representa a força de trabalho não foi educado para a sustentabilidade nas escolas — mas as gerações que o substituirão daqui alguns anos terão sido. E, no caso dessa turma formada para preservar o planeta, tudo indica que a tolerância será muito menor. Selos como o de “cruelty free”, entre outros que rotulam práticas gentis com a natureza, serão decisivos. O aspecto geracional tem ainda impacto direto sobre a contratação e a retenção de talentos — e será desafio a mais para as empresas no pós-pandemia. “Estamos vivendo um problema de escassez de capital humano. Agora é possível trabalhar fora do Brasil, sem sair de dentro do Brasil.” 

No campo financeiro, observa Lopes, a agenda ESG tem efeito pragmático. Os bancos oferecem descontos nas taxas de empréstimos quando alcançadas determinadas metas socioambientais. Nas conversas com analistas e investidores, tanto de crédito como de ações, o tema tornou-se protagonista. “Fizemos uma reunião recente com a Pimco sobre bonds em que o analista de sustentabilidade ocupou 30 dos 50 minutos da reunião”, exemplifica o diretor.  

Entre os gestores de fundos de ações, o interesse por companhias com compromissos ESG também é crescente. Na visão de Gustavo Pimentel, diretor executivo da Sitawi Finanças do Bem, não há mais desculpa para não fazer análise sob a perspectiva socioambiental.  “Somos o quarto país do mundo a ter os maiores números de empresas com relato integrado”, afirma. A análise desses ativos, ele observa, não é difícil para profissionais já acostumados a empreender verdadeiras investigações para decifrar as companhias em que investem. “Basta inserir ESG nesse modelo. Não é caro”, ele assegura. A contrapartida é uma redução substancial de riscos — e das perdas a eles associadas — no longo prazo. O mundo mudou e, por conveniência ou convicção, os investidores e as empresas mudaram também. Sejam seus negócios mais ou menos amigos do Planeta. 

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