Bolsas do bem

Crescem os pregões que favorecem causas sociais e ambientais; no Brasil, Bolsa Verde é esperada para junho

Bimestral / Temas / Reportagem / Edição 104 / 1 de Abril de 2012
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Um meio de conexão entre investidores conscientes e empreendimentos sociais. É isso o que almejam iniciativas na Europa e na Ásia de concepção de bolsas de valores cujos fins vão muito além do lucro em cifras financeiras. Está previsto para o primeiro semestre de 2013, em Londres, o lançamento da Social Stock Exchange (SSE), destinada a listar empresas que tenham impacto social positivo e que precisam se capitalizar, mas não encontram interessados no mercado tradicional. Segundo Pradeep Jehti, um dos seus fundadores, o objetivo é tornar–se “o principal meio de negócios para empreendimentos sociais que desejam levantar capital de risco e para investidores que procuram companhias que reflitam seus valores”. Outra bolsa criada com essa missão é a Impact Investment Exchange Asia (IIX), baseada em Cingapura.

A SSE tem o propósito de ajudar na capitalização de empresas que atuam nas áreas de reciclagem, educação e tecnologias limpas, dentre outras. Para isso, espera atrair não doadores, mas, sim, investidores que visam a retorno financeiro em negócios que procuram “aliviar alguns dos mais intratáveis problemas do mundo”. De acordo com Jehti, a SSE será regulada pela Financial Services Authority (FSA), a comissão de valores mobiliários da Inglaterra. Os investidores com foco social não só existem como se espalham pelo mundo. O fundo de pensão dos servidores públicos da Califórnia, por exemplo, investiu US$ 1 bilhão na Iniciativa Califórnia, programa de private equity focado em companhias de regiões menos abastadas do estado.

A SSE e a IIX procuram ampliar o escopo de um tipo de projeto que teve exemplo pioneiro na Bolsa de Valores Socioambientais (BVSA) da BM&FBovespa, fundada em 2003, em São Paulo. A BVSA é totalmente voltada para a filantropia. Utiliza métodos de listagem similares aos de uma bolsa real para fornecer um modelo simples e seguro para doadores ajudarem ONGs e projetos sociais. Até 2012, captou R$ 12 milhões e, com o relançamento ocorrido no mês passado, procura aumentar essa cifra atraindo pessoas físicas para o seu “pregão”. “A cultura de doação tem espaço para crescer no Brasil”, afirma Sônia Favaretto, diretora de sustentabilidade da BM&FBovespa.

EM FAVOR DO PLANETA — Além de promover encontros do capital com projetos sociais, as bolsas de valores têm servido à proposta de um planeta mais sustentável. Uma das ideias do Protocolo de Kyoto, acordo mundial para redução de emissões de gás carbônico, é utilizar as bolsas para estimular o acúmulo de créditos de carbono e sua comercialização. De acordo com o protocolo, as empresas que alcançarem níveis de emissões inferiores ao limite permitido poderão ser certificadas, conforme determinadas metodologias e procedimentos, e comercializar seus créditos de carbono. Portanto, quem poupar pode fazer dinheiro vendendo seus créditos para quem polui mais.

Um relatório da Bloomberg News Energy Finance indica que o mercado mundial de créditos de carbono movimentou € 92 bilhões em 2011, aumento de 10% em relação ao montante de 2010. Esse crescimento decorre somente do crescimento do volume de negociações, pois o preço médio dos créditos caiu. Essa perda de valor vem desde 2010, quando dúvidas quanto ao futuro do Protocolo de Kyoto prejudicaram o mercado. O mercado ganhou um respiro com a prorrogação do tratado até 2017, decidida em dezembro de 2011 na 17ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas, em Durban, África do Sul. O mesmo estudo prevê um crescimento de mais 10% desse segmento em 2011, puxado, principalmente, pelo aumento dos leilões no sistema de comercialização de emissões da União Europeia.

No Brasil, a Bolsa Verde do Rio de Janeiro (BVRio) tem marcado para junho o início de suas operações, durante a conferência ambiental RIO 20. A BM&FBovespa já realiza leilões de crédito atualmente, mas a atuação da Bolsa Verde será diferente. Além de negociar esses papéis, ela vai realizar custódia e compensação de ativos ambientais diversos, como créditos de efluentes industriais da Baía da Guanabara, de reposição florestal relativos à Reserva Legal, de reposição de supressão de vegetação, e também de logística reversa e reciclagem. O empresário Pedro Moura Costa, presidente da BVRio, acredita que a demanda por esses ativos crescerá à medida que a legislação impuser restrições à poluição e ao desmatamento.

A BVRio é fruto de uma parceria entre ONGs, setor público e setor privado. Cada categoria de associados terá representação no conselho deliberativo. “Embora esteja localizada no Rio, seu objetivo é agregar novos players em todo o Brasil”, diz Walter de Simoni, superintendente de economia verde da Secretaria do Meio Ambiente do Rio de Janeiro. Novamente, as ferramentas de uma bolsa podem ajudar: “Ela aproxima os instrumentos de mercado e os objetivos ambientais, aumentando o alcance das práticas sustentáveis e reduzindo os custos para a sociedade em geral”, afirma Simoni.



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