A camisa de força do padrão-ouro

Como a rigidez do sistema financeiro mundial no início do século 20 culminou na crise de 1929



A crise de 1929 é um capítulo obscuro do século 20 e, como em toda crise de tal proporção, é um grande desafio localizar a verdadeira raiz de onde brotou o problema. Em Lords of Finance: The Bankers Who Broke the World, embora o título personifique os “culpados”, a leitura aponta para uma causa mais profunda: o sistema financeiro baseado no padrão-ouro e a rigidez econômica que esse modelo impunha às nações.

A obra é narrada em estilo quase biográfico, a partir da perspectiva dos quatro homens fortes das maiores economias do mundo no início do século 20 — os presidentes de bancos centrais Benjamin Strong, dos Estados Unidos; Hjalmar Schacht, da Alemanha; Montagu Norman, da Inglaterra; e Émile Moreau, da França. A própria figura dos bancos centrais ainda não existia sob a forma que conhecemos hoje. É interessante notar que os mandatos tradicionais de controle da inflação e manutenção da taxa de emprego em níveis elevados ainda não haviam sido formalizados. Essas instituições nasceram, na época, com o único objetivo de defender o valor da moeda de seus países.

Regredindo à 1ª Guerra Mundial para estabelecer o pano de fundo no qual a tragédia se desenrolou, o autor mostra um quadro de elevadas reparações de guerra impostas à Alemanha, e pesadas dívidas contraídas pela França e Inglaterra com os Estados Unidos. A partir daí, entram em cena os “banqueiros centrais” e sua criatividade para operar no cenário altamente inflacionário do pós-guerra, sob a rigidez do padrão-ouro. Nessa época, a maioria dos bancos centrais garantia a troca da moeda por seu equivalente em ouro. Logo, ao menor sinal de inflação, a população corria aos bancos para trocá-la pelo metal valioso. Na economia real, a queda da circulação da moeda e da confiança da população causava estragos, com redução do emprego e da renda. Como havia previsto Marx, o capitalismo não sabia como lidar com os ciclos econômicos e, por isso, estaria fadado à extinção.

A própria teoria econômica moderna estava engatinhando nessa época. A publicação da obra mais influente de Keynes (Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda) não aconteceria até 1936. Seu entendimento e sua aplicação ocorreram somente após a 2ª Guerra Mundial. Devido a esses desafios, não surpreende que a tomada de decisões pelos “lordes das finanças” mundiais fosse apenas um conjunto de medidas baseado em instinto econômico e faro político.

O efeito cumulativo dessas decisões isoladas, em conjunto com a desconfiança que pairava no ar, contribuíram para a eclosão da crise. Em 1932, as estatísticas eram estarrecedoras: um terço da força de trabalho alemã não tinha emprego e a produção chegava apenas a 60% em relação à do nível de 1928; nos Estados Unidos, o desemprego atingia 20%, e os preços haviam caído 25% em comparação a 1929. Números semelhantes eram registrados pela França e Inglaterra. O círculo vicioso imposto pela camisa de força da estabilidade da moeda foi quebrado apenas quando os países relaxaram a paridade-ouro e iniciaram o que hoje reconhecemos como políticas anticíclicas de governo (foi a partir da observação dessa situação que Keynes escreveu sua obra).

A comparação da crise atual com a de 1929 é irresistível, devido à escala mundial e à violência de seus efeitos. No entanto, a recessão que vivemos hoje tem a estatura de um anão ao lado dos números da depressão. Sob essa perspectiva, é inegável reconhecer que o mundo avançou muito no que se refere às instituições e aos mecanismos para induzir os níveis de inflação e emprego. Tormentas sempre vão ocorrer, mas as mãos invisíveis (mercados) e visíveis (governo) continuarão ajudando o capitalismo a seguir a sua rota de desenvolvimento.


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