Mudança climática entra, definitivamente, na pauta corporativa

Empresas que negligenciarem essa questão ou se limitarem a cumprir a lei correm o risco de perder financiadores

Sustentabilidade/Reportagens / 18 de setembro de 2020
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Mudança climática entra, definitivamente, na pauta corporativa

Imagem: gstudioimagen | Freepik

As trágicas imagens que chegam da devastação causada pelo fogo no Pantanal e na Amazônia são eloquentes, falam por si só. E, diferentemente do que costumava acontecer no passado, já não são assunto exclusivo de cientistas e ambientalistas segregados num nicho de debates e com pouco poder de transformação. Hoje a preocupação ambiental reverbera fortemente no mundo corporativo e entre os investidores, tomando a forma de uma economia que está em imperativa transição para um sistema mais sustentável. O ESG (sigla em inglês para indicadores ambientais, sociais e de governança) cada vez mais direciona as ações de empresas, gestores de recursos, instituições financeiras e autoridades mundo afora.

No Brasil, a inserção da pauta ambiental na agenda financeira e corporativa recentemente ganhou um importante impulso, vindo do Banco Central (BC). A autoridade monetária lançou, no início de setembro, um conjunto de ações relacionadas ao conceito de responsabilidade socioambiental, inserido na agenda institucional BC#. Ao lado de medidas como a incorporação de cenários que incluem riscos climáticos aos testes de estresse feitos pelo BC está a criação de linha financeira de liquidez sustentável para os bancos brasileiros.

Numa comprovação da importância do tema ambiental, o BC também adotou recomendações da força-tarefa sobre divulgações financeiras relacionadas ao clima (TCFD, na sigla em inglês). Como observou Diogo Negrão, gerente de relações com investidores do CDP Latin America, no setor financeiro o reporte relacionado a essa temática será mandatório a partir de 2022. “Há, ainda, o plano integrado de desenvolvimento sustentável da Amazônia, criado em conjunto por Itaú, Bradesco e Santander, e as pressões vindas de empresas e investidores cobrando ações do governo brasileiro. Esses exemplos mostram a valorização da questão ambiental”, afirma Negrão, que participou do webinar “Novas perspectivas”, produzido pelo CDP Latin America em parceria com a CAPITAL ABERTO.

Negrão abordou os desafios e as possibilidades dessa economia em transição “verde” ao lado de Denise Pavarina, vice-presidente da TCFD e consultora sênior da Aggrego Consultores; Luzia Hirata, analista da Santander Asset Management; e Dominic Schmal, gerente de sustentabilidade e mudança de clima da EDP. Os debatedores concordaram com a avaliação de que o problema ambiental é premente, exigindo uma verdadeira mudança cultural. “O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama já disse que esta é a primeira geração que sente o impacto da mudança do clima e, ao mesmo tempo, a última capaz de fazer alguma coisa”, comentou Schmal. A pandemia de covid-19 foi um catalisador dessa percepção. Deixou claro, segundo o executivo da EDP, o elevado grau de interconexão do mundo — não há como dissociar as crises sanitária, climática e dos ecossistemas.

Para Hirata, é em momentos de crise como a atual que se torna possível verificar se as empresas de fato fazem o que falam. “A hora é propícia para se observar com lupa as companhias. Nesses momentos preciosos conseguimos observar como elas lidam com as dificuldades e ver que respostas oferecem aos riscos iminentes”, comenta a analista.

Reporte de informações sobre o clima

Integrando a TCFD desde 2017, Pavarina tem a oportunidade de acompanhar de perto a evolução das discussões e do interesse em torno dos reportes de ações relacionadas a sustentabilidade. Segundo ela, ainda existe o desafio de fazer as empresas tomarem consciência de que a sustentabilidade não pode ser vista como um custo em vez de ser considerada um fator fundamental de perenidade. A exemplo de Negrão, do CDP, ela menciona algumas boas novas, como as diretrizes em favor do ESG propagadas por Larry Fink, da gestora BlackRock, e por Candido Bracher, diretor-presidente do Itaú. “A sustentabilidade não será mais um assunto separado, tem que fazer parte da companhia em cada um de seus segmentos”, avalia, lembrando que a TCFD tem o papel de ajudar as empresas nos reportes de informações relacionadas ao tema. Afinal, em pouco tempo é possível que uma empresa que não seja ambientalmente correta nem consiga passar pelo crivo dos bancos para tomar recursos — e, com investidores cada vez mais atentos a fatores ESG, essa companhia tampouco encontraria abrigo no mercado de capitais.

A sinalização, por ora, é positiva, concordaram os debatedores. As empresas parecem estar entendendo a relevância do assunto meio ambiente, seja por atitudes voluntárias ou por pressões de stakeholders. Mesmo com uma certa permissividade oficial para ações que não são consideradas sustentáveis — isso fica mais claro quando se observam os sinais vindos do poder público no Brasil, cujo ministro do Meio Ambiente já chegou a usar termos como “passar a boiada” ao se referir à legislação ambiental —, as companhias escolhem outro caminho. “A mentalidade das empresas nesse aspecto mudou. Já existe uma cultura consolidada que as impede de cair na tentação de fazer apenas o que a lei permite, sem ir além disso. Vale lembrar que o governo é só um dos stakeholders; as companhias precisam prestar contas e mostrar ações aos demais”, afirma Schmal. “Já passou a hora da abordagem defensiva, que seria seguir somente a legislação”, completa.

Na avaliação de Pavarina, as empresas adotam esse mindset mais consciente porque não querem correr riscos desnecessários. As companhias que dependem de capital sabem que se não adotarem práticas condizentes com as demandas dos stakeholders podem ter muitas perdas, “de rating, de investidores, de posição em rankings, de preços de ações”. “As empresas têm levado esse assunto a sério, tanto que estendem as preocupações com sustentabilidade às suas cadeias de produção”, afirma.

Economia de transição

Hirata destaca o fato de as empresas estarem inseridas numa economia de transição, que por sua natureza instável requer bastante atenção. “Recentemente, Fabio Barbosa [ex-presidente da Febraban e conselheiro de administração] comentou que é papel dos bancos financiar essa economia de transição”, afirma, ressaltando a importância dos reportes como os orientados pela TCFD para que os bancos consigam selecionar as empresas que receberão os recursos. O CDP também tem relevante papel nesse sentido, apoiando as companhias no mapeamento de sua cadeia de fornecedores, de forma que seja facilitado o acesso a financiamento.

Negrão afirma que, embora seja bastante positiva a atitude de boa parte das empresas quanto às questões de sustentabilidade, ainda há um longo caminho em termos de regulação. “Precisamos, por exemplo, de um preço para o carbono no Brasil”, sublinha. Certo é que a urgência da questão das mudanças climáticas ironicamente ficou mais clara bem num momento de intensificação das relações virtuais. “A pandemia fez as pessoas se voltarem para o analógico, já que, por causa do isolamento, passaram a ter maior percepção da natureza, do tempo”, observa Pavarina. E o tempo para interromper mudanças no clima que teriam efeitos catastróficos — para a civilização, principalmente — está se esgotando.

 


 

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