Uma mulher de verdade

Amélia Gonzaga Carvalho Silva administra o acordo de acionistas da Cedro Cachoeira, com 254 sócios e sete famílias envolvidas: “É preciso ter muito jogo de cintura para manter a harmonia”

Retrato / Edição 133 / 1 de setembro de 2014
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Fotos de Amélia GonzagaSeis anos de redação de atas. Embora já fosse uma educadora respeitada, Amélia Gonzaga Carvalho Silva não se importou com a tarefa burocrática em seus primeiros tempos de conselheira de administração da Cedro Têxtil. “A gente aprende muito fazendo ata de reunião”, diz, com a característica entonação mineira. No primeiro ano na função, grafou o nome dos famosos teares Sulzer como Susi, “igual à boneca”, divertindo os outros 12 conselheiros homens. Não deu importância ao erro. Em 1993, seu lema já era — e ainda é — “ir devagar”. Sempre. Hoje vice-presidente do conselho da Cedro e presidente de um dos maiores acordos de acionistas em companhia aberta, assinado por mais de 250 sócios, Amélia intercala os causos antigos com muitas vitórias recentes: “Convenço os outros com facilidade”.

Da presença feminina inibidora de palavrões e piadas nas reuniões ao status de conselheira influente, Amélia percorreu um caminho de aprendizados. Começou por uma pós-graduação em gestão empresarial na Fundação Getulio Vargas. “Ralei muito”, lembra ela, formada em pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais. “Nunca tinha estudado algumas disciplinas, como economia.” Depois vieram os cursos de governança e o envolvimento com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ao participar da criação e da coordenação do escritório mineiro do instituto. “Eu já tinha opiniões próprias enquanto fazia as atas, mas não o embasamento técnico para defendê-las. Foi o que busquei.”

Sua chegada à centenária fabricante de tecidos, porém, não foi uma mudança de carreira planejada. Na verdade, deu-se por causa de uma tragédia familiar. Nascida na cidade de João Monlevade, onde o pai trabalhava na siderúrgica Belgo-Mineira, Amélia mudou-se para Ipatinga quando conheceu o marido Décio Carvalho, engenheiro da Usiminas. Nem pretendia “trabalhar fora”, mas, como a cidade carecia de professores, atendeu ao apelo para lecionar no colégio estadual. Com carga horária pequena, era a docente mais disponível para assumir a gerência da escola quando o cargo de diretor ficou disponível. “Achei aquilo fácil, porque tinha aprendido administração na faculdade”, conta.

Depois de quatro anos como diretora sem ser nomeada oficialmente, descobriu que a vaga fora prometida ao amigo de um deputado e pediu para sair. Finalmente teria a vida tranquila de esposa, como cabia às senhoras mineiras da época. A empresa onde o marido trabalhava, no entanto, enfrentava um problema: a gestão do colégio São Francisco Xavier, fundado pela Usiminas para atender aos filhos dos funcionários, estava sendo devolvida pelos padres jesuítas. Convidada a assumir, Amélia impôs condições com o objetivo de criar uma escola modelo. Acabou ganhando carta branca para contratar professores e testar metodologias modernas de ensino, como a do estudo dirigido. “Fiz um colégio tinindo”, orgulha-se. Educadores costumavam visitar a escola para entender por que seus alunos passavam no vestibular com tanta facilidade.

Amélia só sairia do cargo, nove anos depois, porque o marido fora transferido para Belo Horizonte. O casal construiu a casa dos sonhos na capital. A rotina de uma vida confortável se anunciava quando o engenheiro sofreu um acidente de carro, durante uma viagem de trabalho a Juiz de Fora. “Ele saiu de casa ótimo e não voltou. Tinha 49 anos”, recorda, com os olhos cheios de água. “Fiquei completamente desorientada. Precisei aprender a viver sozinha, porque nem filho tinha.”

Foi quando a Cedro e a possibilidade de nova carreira surgiram em sua vida, de forma inusitada. Carvalho, além de trabalhar na Usiminas, ocupava um assento no conselho de administração da tecelagem. Consternado com a morte dele, o conselho resolveu convidá-la para seu lugar. Amélia duvidou da própria capacidade. Chegou a consultar o executivo da Usiminas ao qual era subordinada como diretora do colégio. “Vai tirar de letra”, ele disse. E lhe emprestou alguns livros de administração.

Na realidade, embora não conhecesse antes os detalhes técnicos da fábrica, como o nome de um tear, Amélia já pertencia a um dos sete grupos familiares controladores da empresa: seu marido havia sido indicado ao conselho justamente para representá-lo. “Meu pai precisou sair por causa da idade limite, de 72 anos, e só tinha três filhas mulheres”, explica. Hoje, ela fala da Cedro como de uma família. “Temos 142 anos de história. Fomos a primeira companhia privada com capital aberto do País.”

A avó de Amélia descendia do visionário empreendedor Bernardo Mascarenhas. Além de construir uma fábrica de tecidos no Brasil de 1872, ainda totalmente desindustrializado, o empresário seguiu uma tendência internacional e foi pioneiro na busca de novas fontes de energia. Inaugurou, em 1889, a primeira usina hidrelétrica da América Latina: Marmelos, em Minas Gerais. “Ele tinha 23 anos quando foi comprar as máquinas para a fábrica da Cedro na Inglaterra”, relata Amélia. “Depois, nos Estados Unidos, conheceu outra onda, a das sociedades por ações, e resolveu trazer esse modelo para unir sua fábrica à dos irmãos, montada em Cachoeira.”

Nascia assim a Cedro Cachoeira, já com o espírito de agrupar interesses familiares sob uma administração transparente. Manter esse delicado equilíbrio, multiplicado pelas novas gerações de familiares, é a tarefa contemporânea de Amélia, à frente do acordo de acionistas firmado em 1988 e refeito há 14 anos. Os 254 sócios de sete famílias, representados por um comitê, detêm 64,5% do capital total. “É necessário ter muito jogo de cintura para manter a harmonia”, observa. Uma tarefa muito além das atas — e sob medida para alguém que encarou tantos desafios na vida.

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Foto: Aline Massuca


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