O outro lado

Os roqueiros do mercado: a banda Black Zornitak no show de pré-lançamento do segundo CD, que será “mais ousado e sofisticado”

Retrato/Edição 136 / 1 de dezembro de 2014
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o-outro-ladoNoite de quarta-feira, ensaio da Black Zornitak. Os integrantes da banda chegam aos poucos, instrumentos a tiracolo, cada um vindo de seu trabalho. Ultrapassado o portão, descem um lance de escada, depois outro, até chegar a um espaçoso lounge subterrâneo, com tratamento acústico, palco, microfones e amplificadores. A bateria do dono da casa já está montada. Os primeiros acordes chamam a atenção de um vizinho, que anda intrigado com o som daqueles “adolescentes”. Se prestasse atenção nas letras em inglês, porém, perceberia que aquela não é uma típica banda de garagem: “Money, stocks, bonds/The other side/Economy and politics/Emerging markets and even Brics”. E o refrão martela: “The other side”.

O “outro lado” da banda Black Zornitak é que seus integrantes, além de roqueiros cinquentões, são respeitados executivos e empresários do mercado financeiro. Na bateria, está Marcelo Giufrida, ex-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e da BNP Paribas Asset Management, hoje à frente de sua própria empresa de administração de recursos, a Garde. No contrabaixo, toca Walter Mendes, que foi responsável pela gestão de fundos do banco Itaú e presidente da Associação de Investidores do Mercado de Capitais (Amec), antes de fundar a Cultinvest Asset Management e assumir a direção do Comitê de Aquisições e Fusões (CAF), órgão de autorregulação do mercado. No vocal, brilha o sócio e presidente da Cultinvest, Alexandre Zákia, ex-diretor sênior do banco Itaú e ex-vice-presidente da Anbima. Na guitarra solo, outro ex-diretor da associação: Rogério Buldo. Depois de longa carreira na área de tecnologia da informação de bancos, ele dirige hoje a Tartuferia San Paolo.

Mas é o quinto integrante, Edu Letti, quem distribui broncas e parece mandar no ensaio. “Ele é o CEO da banda”, brinca Giufrida a respeito do único músico profissional do grupo, que exerce as funções de guitarrista, professor, arranjador e produtor. Letti confirma a fama de durão, para depois amolecer: “Não deve ser fácil para eles: durante o dia, são importantes e dominam em suas áreas. Aqui, a situação se inverte”. Desde o nascimento do conjunto, em agosto de 2011, entretanto, ninguém reclama. “Nossos filhos e esposas são unânimes em dizer que mudamos para melhor. Estamos mais contentes”, diz Mendes, ali tratado por “Waltinho”. Do sofá da plateia, a esposa de Giufrida, Andréa, concorda com ênfase e acrescenta: “O estresse menor também ajuda na parte profissional”.

Mais do que mera válvula de escape, a música passou a representar um novo tipo de realização pessoal para cada um deles. As histórias, aqui, não se comparam em tamanho aos alentados currículos no mercado, mas são carregadas de emoção. Zákia, por exemplo, cresceu ouvindo o pai — o consagrado tenor lírico Aguinaldo de Moranda Albert — cantar árias de ópera, tangos e boleros. Enquanto a carreira de economista decolava, permitia-se no máximo divertir os amigos com o próprio vozeirão em festas e caraoquês. Foi numa ocasião assim, um churrasco do banco Itaú, que o então diretor sênior impressionou os colegas entoando uma canção de Frank Sinatra. Outro executivo do banco, “mais com cara de nerd do que de roqueiro”, o surpreendeu com o convite: estavam montando um conjunto de rock e precisavam de um vocalista.

A Black Stone, nome que remetia ao significado de “itaú” em tupi-guarani (pedra preta), era quase uma “brincadeira”, lembra Zákia hoje. Com despretensão semelhante tinha nascido, alguns anos antes, a Zornitak de Giufrida e Rogério Buldo, no CCF Brasil, banda improvisada para fazer uma apresentação no aniversário do presidente do banco. Em ambos os casos, a brincadeira consistia em tocar covers de músicas admiradas por seus integrantes. Foi ainda com esse espírito que surgiu a ideia de fusão das duas bandas, depois de Giufrida dar uma canja na Black Stone, cujo baterista estava de férias. Nascia, enfim, a Black Zornitak.

A diversidade de trajetórias e influências musicais já estava presente antes da união: enquanto Buldo tem formação mais tradicional (começou com aulas de piano aos 8 anos e sempre participou de bandas de rock), Giufrida se iniciou na música pela torcida organizada do time do Santos, onde aprendeu a tocar surdo. As aulas de bateria vieram mais tarde, e o instrumento estava prestes a ser vendido quando o arquiteto que projetava o jardim de sua casa sugeriu um ambiente especial para ele — e também para uma “garage band”.

A existência daquele espaço contribuiu para uni-los numa banda, concordam todos. Mas crucial mesmo foi a disponibilidade individual, que cada um viu surgir em carreiras então consolidadas após décadas no mercado. Zákia, por exemplo, se aposentou da rotina pesada no Itaú após sofrer um infarto. “Estamos numa fase da vida mais estabilizada; não precisamos viajar tanto”, observa Mendes, o último a entrar na banda. Acostumado a dedilhar o violão em casa “por brincadeira”, colecionador de 5 mil CDs e apreciador de jazz (apresentou um programa na rádio Mitsubishi FM), o gestor acompanhava a participação de seu sócio na Black Zornitak quando foi convocado a ocupar a vaga de baixista, deixada pelo filho de outro diretor de banco. “Era um garoto, não ia ficar tocando com estes tiozões aqui”, justifica Mendes, que iniciou aulas de contrabaixo com Letti para dar conta do recado.

E quando, exatamente, a brincadeira — tão citada para justificar a música como hobby esporádico — começou a ficar séria? Afinal, eles já acumulam oito shows, incluindo o pré-lançamento do segundo CD da banda, Barbarians at the gate, a ser gravado em estúdio em fevereiro ou março.

É Buldo quem mata a charada: tudo mudou quando eles passaram a compor as próprias músicas, auxiliados pelo professor. A composições começaram a pulular depois que Giufrida chegou com uma primeira “letra-desabafo” escrita no avião, quando voltava de uma reunião burocrática em Brasília. Logo descobriram que Mendes tinha músicas guardadas em casa e que Zákia era um poeta de cadernos escondidos. Até Buldo, veterano de bandas cover, animou-se a compor pela primeira vez. As metáforas e referências ao mercado financeiro que domina suas rotinas foram inevitáveis.

“Expressar o lado emotivo por meio da música é a realização de um sonho”, revela Giufrida. Zákia prossegue: “Nosso trabalho é muito árido. Todos aqui temos um lado artístico importante para o equilíbrio individual.” Mendes conta que sua esposa chorou de emoção no show de lançamento do primeiro CD. Buldo considera que a experiência de gravar o disco, participando da composição das músicas à escolha da capa, foi comparável à da maternidade.

Com o segundo filho prestes a ser gravado e promovido, a Black Zornitak espera não decepcionar as plateias que vêm lotando seus shows, compostas principalmente de profissionais e amigos do mercado. “Será um CD mais sofisticado e ousado”, prometem os cinco. Os fãs aguardam curiosos.

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Confira um clipe da banda:

Foto: Régis Filho




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