Cabeça renascentista

Monica Baumgarten de Bolle

Retrato / Edição 127 / 1 de março de 2014
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Ninguém sabe, mas Monica Baumgarten de Bolle tem um livro de contos pronto na gaveta. O segredo, compartilhado apenas com o psicanalista que leu algumas das 20 histórias, será tornado público este ano por causa de uma suposta urgência: a sócia da consultoria Galanto e professora da PUC-Rio, considerada uma das mais brilhantes economistas de sua geração, quer “fazer tudo” — inclusive desengavetar e publicar seu livro de ficção — até os 48 anos. Preocupa-se em já ter chegado aos 40: “Tenho uma neura de morrer cedo, por causa da história do meu pai”.

A história do pai, que de certa forma se repetiu com seu mentor, foi trágica. É Monica quem dá o adjetivo, ciente de sua potência literária, como cabe à escritora que há alguns anos vem ensaiando em artigos econômicos uma erudição construída em vários campos disciplinares. Ela aprendeu, primeiro com o pai Alfredo Luiz Baumgarten, depois com Dionísio Dias Carneiro, a ter uma “cabeça meio renascentista”. Ambos os economistas acabaram morrendo com um tumor no cérebro.

A influência paterna é evidente na trajetória profissional, que Monica detalha depois de secar os olhos. Às vésperas do vestibular, ela cogitava cursar medicina, encantada pela possibilidade de fazer diagnósticos. Isso apesar do fascínio pelo trabalho de Baumgarten no Fundo Monetário Internacional (FMI), que ela acompanhou de perto nos cinco anos em que a família morava em Washington e recebia para jantar convidados ilustres, como o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. “Tenho uma lembrança dele de menina: ficava ouvindo as conversas e observando seus dentes, muito amarelos, de cigarro”, recorda. “Era alguém de grande capacidade intelectual.”

Antes da inscrição para medicina, o pai aconselhou-a a visitar o departamento de economia da PUC-Rio, onde trabalhava “tio Dionísio”, que ela conhecia desde pequena — eram vizinhos de porta no bairro da Gávea. “Quero fazer medicina”, disse Monica a Dionísio. “Eu também queria”, respondeu o fundador do departamento acadêmico que então revelava uma nova geração de macroeconomistas. Conversaram a tarde inteira, apenas sobre medicina.

“Percebi ali que poderia estudar economia e manter o meu interesse por outras coisas, exatamente como ele, que lia sobre tudo e queria entender o mundo de forma abrangente, por vários pontos de vista”, relata. Seu pai chegou a ter a satisfação de vê-la entrar para a faculdade, mas morreu naquele mesmo ano de 1990, seis meses depois do inesperado diagnóstico de câncer. Tinha apenas 48 anos.

Quase como um pai, Dionísio acolheu a caloura aplicada e interessada em tudo; tornou-a sua monitora na graduação e orientou-a no mestrado. Ninguém estranhou quando Monica escolheu o doutorado na London School of Economics (LSE), tendo por tema as crises financeiras, com o plano de ingressar no programa de trainees do FMI. “Meu pai tinha trabalhado lá como economista sênior, convidado por sua experiência; eu entrei como júnior, por um processo de seleção”, compara. Já casada com o economista Paulo de Bolle, que fizera o mesmo doutorado, ela foi para a sede do fundo em Washington disposta a galgar etapas. No primeiro ano, antes que viesse a ser alocada nas áreas de América Latina ou África, por causa da língua, pediu para trabalhar no departamento asiático. “Queria uma experiência completamente diferente”, justifica. Na divisão que cobria a Malásia, acabou responsável por Papua-Nova Guiné. Entre outras aventuras, estudou antropologia para entender as 800 etnias locais e ajudou o precário departamento de estatística do governo a calcular o PIB.

Foi no segundo ano como economista júnior, inserida nos programas de stand-by do fundo, que percebeu a oportunidade: ninguém se dera conta do perigo de contágio do Uruguai pela crise argentina. Uma vaga no país vizinho, considerado “morno”, era ignorada. Ofereceu-se e acabou “no lugar certo, na hora certa”. No começo de 2002, com apenas 28 anos, estava sozinha no meio do furacão da crise cambial uruguaia, que se seguira à bancária. “Na verdade foi uma crise tripla, porque se a desvalorização fosse muito descontrolada haveria uma crise de dívida também”, explica ela.

Monica recorda com entusiasmo os bastidores da renegociação da dívida externa do Uruguai em 2003, que depois serviria de modelo para o caso da Grécia. “Não vou dizer que foi divertido porque era um país em crise, mas adorei a adrenalina.” Nos cinco anos em que ajudou o FMI na reestruturação de dívidas soberanas, costumava escrever também relatos para Dionísio, que já havia fundado a Galanto e usava os textos em cartas enviadas a clientes. “Escrever sempre me ajudou a pensar, desde criança”, reflete Monica. Hoje, a colunista da Globo a Mais, revista digital de O Globo, publica artigos semanais em que mistura assuntos econômicos com referências literárias e de outros campos. Na crise de 2008, por exemplo, ela debruçou-se sobre uma vasta literatura de biologia evolutiva, incluindo teoria de redes e estudo de epidemias, “para tentar entender como aconteceu aquela calamidade”.

A volta ao Brasil foi motivada pelo nascimento do primeiro de seus dois meninos. “Tive filho para cuidar de filho”, diz, com tranquilidade, sobre a dificuldade de conciliar a maternidade com o trabalho cheio de viagens. Antes de se render ao apelo de Dionísio para ser sócia na Galanto e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, ela aceitou uma “boa proposta” para trabalhar no Banco BBM. “Faltava a experiência do mercado financeiro. Para dar opiniões sobre mercado, eu precisava ter vivido aquilo”, justifica.

Opiniões, bem fundamentadas, é o que Monica mais dá hoje em dia — para os clientes, para os frequentadores da Casa das Garças e também para a imprensa. Ela ri sobre o fato de aparecer muito como comentarista em telejornais. Atribui os convites à habilidade de traduzir o “economês”, que pratica com os alunos recém-chegados à graduação. “O que adianta os economistas ficarem falando para si, numa linguagem hermética? Os conceitos podem ser abstratos ou áridos, mas a linguagem é rica o suficiente para as pessoas comuns entenderem.”

A riqueza expressiva de Monica, já conhecida em artigos, em breve ganhará a sua versão ficcional. Para dar última forma aos contos da gaveta, ela passou à condição de aluna em oficinas literárias comandadas pelos escritores Luiz Ruffato e Ivan Proença. “Publicar esse livro se tornou uma prioridade para mim este ano. Mas vou continuar a fazer as outras coisas também”, salienta. Afinal, não devem faltar interesses pululando dentro de uma mente “renascentista”.

3×4

Rotina – Acorda cedo, faz ioga e lê assuntos não relacionados a economia. Vai a pé ao escritório, no Leblon, onde redige seus artigos à tarde ou à noite. “Tenho um poder de concentração grande, quando quero.”

Fim de semana – Com o marido e os filhos, de 8 e 9 anos, aproveitando a natureza do Rio de Janeiro. “Mas acabo trabalhando todo domingo, quando escrevo um comentário de conjuntura para enviar aos clientes.”

Viagem – Levou os filhos a lugares como Sicília, Barcelona, Tailândia e Camboja, em viagens longas e cheias de aventura. “Nunca fomos à Disney”, se orgulha.

Esportes – Já nadou, jogou tênis e fazia aulas de kickboxing quando estava no FMI. Hoje, faz ioga diariamente no estúdio Saraswati, no Leblon, incluindo uma aula de ashtanga “bem puxada”.

Mania – Apesar dos muitos cuidados com a saúde, como a meditação, foge dos exames médicos. “Detesto, só faço em último caso.”

Planos para o futuro – Pensava em algum dia trabalhar no governo, a exemplo da geração de economistas que a antecedeu na PUC e participou da gestão Fernando Henrique Cardoso. Hoje, no entanto, quer apenas “diversificar, da economia para outras coisas”. “Escrever, basicamente.”

Debate político – Foge do “acirramento ideológico que tomou conta do País” e lamenta que a Casa das Garças seja vista como “ninho de tucanos”. “Dionísio ficava louco com isso, porque ela foi fundada para ser um centro de debates. Mas acaba sendo frequentada por pessoas que pensam muito parecido, por causa do clima de Fla x Flu. Ainda mais em ano de eleições.”

Livro de cabeceiraA consciência de Zeno, romance do italiano Italo Svevo. “Leio e releio; está todo sublinhado e orelhudo.” Leitora voraz de ficção, se inspira em autores como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Ernest Hemingway para escrever os próprios contos.

Um guru – O economista Dionísio Dias Carneiro, que morreu com a mesma doença de seu pai, exatamente vinte anos depois. “Essas coincidências me abalaram muito. Ele era a minha referência. Uma pessoa fascinante, que me abriu a cabeça. Tenho muito orgulho de ter conseguido continuar a consultoria dele.”

Foto: Aline Massuca


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