Investidores de varejo conquistam atenção de empresas listadas

Como o mercado de capitais está lidando com o novo fluxo de pessoas físicas na bolsa

Companhias abertas/Reportagens / 31 de julho de 2020
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Investidores de varejo conquistam atenção de empresas listadas

Imagem: rawpixel.com | Freepik

A bolsa de valores brasileira atingiu a marca de 2 milhões de pessoas físicas cadastradas como investidoras em um momento no mínimo inusitado. Poucos imaginariam, afinal, que tantos pequenos investidores individuais fossem se aventurar na renda variável justamente no meio de uma pandemia — cenário inédito em um século. E eles continuam chegando ao mercado, mesmo diante da possibilidade de a disseminação do novo coronavírus provocar a maior retração econômica global desde a Grande Depressão dos anos 1930, com grandes impactos negativos sobre as empresas emissoras de ações.

A B3 registrou o segundo milhão em abril e, dois meses depois, a quantidade de CPFs registrados já chegava a 2,6 milhões. Mas o movimento ascendente já vinha se intensificando desde 2018, numa curva semelhante — mas inversamente proporcional — à da taxa básica de juros, hoje reduzida à mínima histórica de 2,25% ao ano. Não por acaso: com a Selic no chão, fica mais difícil garantir rentabilidade na renda fixa. Quem quer ganhar mais precisa se arriscar mais, e a bolsa é um tradicional caminho para isso.

A questão é que muitos desses novatos podem não estar devidamente cientes da natureza instável do investimento em renda variável. Volatilidade faz parte do jogo na compra e venda de ações, e os investidores precisam estar preparados para a montanha-russa. Depois de ter iniciado o ano em máximas históricas e de ter derretido nos primeiros dias da pandemia, o Ibovespa agora volta a apontar seu vetor para cima. Nada garante, no entanto, que de fato essa perspectiva mais otimista se confirme. “A bolsa está longe de ser uma aposta óbvia. Atualmente, por exemplo, estamos negociando papéis a múltiplos muito acima do padrão histórico, com contínuos lançamentos de novas operações. É preciso que o investidor iniciante tenha extrema cautela”, adverte José Roberto Pacheco, diretor de relações com investidores da OdontoPrev.

Se a volatilidade é inerente ao mercado acionário, ela pode ficar ainda mais intensa em meio a um cenário global marcado por uma dupla crise sem precedentes, sanitária e econômica. “O investidor institucional está acostumado a eventos cíclicos e tem fôlego financeiro para entender e superar esses movimentos. A grande questão é como comunicar um ciclo duro na bolsa para esse público novo”, afirma Pacheco. Ao lado de Pedro Rudge, sócio fundador da gestora Leblon Equities, e de Thiago Alonso de Oliveira, CEO da JHSF, ele participou de encontro da Conexão Capital sobre os desafios da entrada massiva da pessoa física no mercado de capitais brasileiro.

Novo perfil de investidor

Em maio deste ano, a B3 traçou um perfil dos investidores individuais que estão entrando no mercado. A primeira constatação: são majoritariamente mais jovens. Da amostra, 49% tinham entre 25 e 39 anos; em 2017, apenas 28% dos investidores estavam nessa faixa etária. Outra novidade é o estoque de capital investido. Em 2011, tinham carteiras com até 10 mil reais de saldo 44% das pessoas físicas cadastradas na bolsa; em 2020, esse percentual subiu para 54%. Mas as aplicações têm tíquete médio mais baixo agora. Dos 223 mil investidores que entraram na renda variável em março passado, 30% fizeram um aporte inicial de menos de 500 reais.

Ainda que os investimentos sejam modestos, a mudança na base acionária traz consigo um grande desafio de educação financeira, já que não existe no País uma cultura sólida de investimento no mercado de capitais. Antes do crescimento verificado desde 2018, a quantidade de CPFs na bolsa ficou quase uma década estacionado na casa de 500 mil.

Comunicação repaginada

A expectativa é de continuidade da migração das pessoas físicas da renda fixa para a renda variável, o que demanda dos participantes do mercado de capitais uma adaptação de práticas e procedimentos. Esse novo público precisa, por exemplo, de uma abordagem diferente das áreas de relações com investidores das companhias abertas. “O mercado brasileiro se desenvolveu de forma a atender grandes investidores institucionais nacionais e estrangeiros. Logo, discursos e conceitos que antes eram de uso comum agora precisam ser detalhados com maior profundidade para o investidor individual”, observa Rudge.

O gestor, a propósito, enfrentou ele mesmo esse desafio de mudança. Até 2017, a Leblon Equities era voltada exclusivamente para investidores qualificados, exigindo aplicação mínima de 100 mil reais. O cenário começou a mudar com o crescimento de plataformas digitais, que facilitaram o acesso do investidor pessoa física a produtos financeiros. “Esse movimento permitiu que muitas gestoras, como a Leblon Equities, começassem a apostar no varejo. Isso foi possível porque todo o trabalho operacional de venda e assessoramento foi transferido para o intermediário”, relata. Nesse processo, a gestora cortou a aplicação mínima para apenas mil reais, o que levou a base de investidores a saltar de 400 para 25 mil em três anos.

Do outro lado do balcão, Odontoprev e JHSF igualmente precisaram mudar. A provedora de planos de saúde quase multiplicou por 11 sua base acionária de pessoas físicas desde que abriu capital, em 2006, de 4 mil para 45 mil CPFs. Já a companhia do setor imobiliário conta hoje com 117 mil acionistas, sendo que os investidores individuais têm um terço do free float (ações em negociação). “Fizemos uma escolha de atrair o investidor individual. Para isso, a equipe de relações com investidores da companhia implementou uma política de portas abertas. Atender o investidor individual é hoje tão importante quanto prestar informações ao maior acionista institucional da empresa”, afirma Oliveira, da JHSF.

Pacheco, da Odontoprev, lembra ainda que a responsabilidade do profissional de relações com investidores é maior ao lidar com pessoas físicas. “Os novos acionistas estão fazendo uma aposta direcional na companhia com recursos próprios, de seus familiares e amigos. É uma relação muito próxima”, ressalta.

A proximidade, a propósito, aumentou durante a pandemia. Gestores de fundos, CEOs e diretores de relações com investidores nunca estiveram tão próximos da pessoa física — a uma live de distância, mais exatamente. “No passado, a atuação da gestão era muito mais parecida com uma caixa preta, que só podia ser acessada por grandes alocadores. Com ferramentas de exposição e interação online, a evolução na acessibilidade é tremenda”, diz Rudge. Na opinião de Oliveira, as mídias sociais devem ser incorporadas como forma legítima de comunicação com os investidores. “Existe muita assimetria no tratamento dispensado a cada classe de investidor, e utilizar as redes sociais é uma forma de democratizar esse contato”, argumenta. O reforço na atenção aos cada vez mais numerosos investidores de varejo já parece ter reservado seu lugar. Com ou sem pandemia.


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