Família, família, negócios à parte

A arte de equilibar afeto, poder e dinheiro em uma empresa familiar

Prateleira/Edição 115 / 1 de março de 2013
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Quando se fala em modelos de controle empresarial, a empresa familiar emerge como padrão. Estima-se que entre 80% e 90% das corporações do mundo sejam controladas por famílias. A despeito da visibilidade e do alcance das grandes companhias de capital aberto, os motores invisíveis da economia global são as atividades conduzidas por microempresários, em um ambiente no qual a pessoa física muitas vezes se confunde com a jurídica. Essa típica mistura de papéis traz uma série de implicações para o desempenho dos negócios e o ambiente doméstico. Algumas são negativas, outras positivas. Sobre esse pano de fundo, os autores de “A Família Empresária” apresentam uma metodologia interessante para aprimorar a governança familiar, por meio do agrupamento das discussões e decisões em torno de três dimensões: família, patrimônio e empresa.

Enquanto a governança corporativa está relacionada às decisões no âmbito da empresa, a governança familiar é mais abrangente. Se a governança corporativa é um instrumento para maximizar o valor da companhia, a governança da família empresária vai além, incluindo o fomento às boas relações entre os entes, à perenização de princípios, à administração de patrimônio e liquidez. O livro apresenta essa discussão de forma organizada e enriquece os conceitos apresentados por meio de depoimentos colhidos a partir da experiência dos autores. O resultado é uma argumentação convincente de que é fundamental o desenvolvimento de processos e fóruns adequados para lidar com questões de afeto, poder e dinheiro. O equilíbrio dessas relações constitui o alicerce para união, crescimento e longevidade, tanto no âmbito familiar quanto da empresa.

A partir do trinômio família-patrimônio-empresa, o livro aborda temas específicos, estabelecendo entendimentos e regras, formais ou não, que condicionam o comportamento dos membros do clã. Sucessão, conselho de família e de administração, acordo de sócios, dentre outros assuntos, são discutidos na esfera da governança familiar. O conjunto desses instrumentos assim como fóruns de discussão e de decisão contribuem para delimitar em quais circunstâncias e como cada assunto deve ser tratado, estabelecendo ritos e processos para proteger as pessoas jurídicas das pessoas físicas (e vice-versa).

Temos acompanhado uma elevação significativa de fusões e aquisições e aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) de empresas familiares no Brasil desde 2007. Do lado da demanda, notamos a emergência de fundos de participações (private equity) como players relevantes, a partir da captação elevada de recursos e da chegada de casas globais como Carlyle e Blackstone. Pelo lado da oferta, o crescente amadurecimento da governança em empresas familiares tem permitido a condução de processos estruturados, que buscam tanto a perenização quanto a transformação de patrimônio em liquidez. A escolha do caminho é ainda mais difícil quando as decisões devem ser tomadas por até três gerações de núcleos familiares diversos, muitas vezes com interesses conflitantes. Um processo estruturado para lidar com essas situações constitui um poderoso aliado na construção de consensos. Na ausência dele, os conflitos são inevitáveis, e as perdas deixam marcas na alma e no bolso.




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