O brasileiro tem mesmo complexo de vira-lata?

Uma análise mais aprofundada pode ajudar a desmistificar essa ideia

Colunistas/Bolsas e conjuntura / 9 de outubro de 2020
Por 


Colunista Alexandre Fialho

*Colunista Alexandre Fialho é sócio-fundador da Filosofia Organizacional, conselheiro de diversas empresas, mentor de grandes líderes e professor | Ilustração: Julia Padula

Complexo de vira-lata. A expressão foi criada por Nelson Rodrigues depois da trágica derrota da seleção brasileira de futebol para o Uruguai na final da Copa de 1950 em pleno Maracanã. Vale lembrar que a competição havia sido suspensa durante a década de 1940 por causa da Segunda Guerra Mundial e, para a retomada, o Brasil foi escolhido como sede por ter sido pouco afetado pelo conflito. Mas, para receber os jogos, o País teve que construir estádios conforme o “padrão Fifa”. O governo de Getúlio Vargas colocou de pé vários deles, sendo o mais imponente o Maracanã (e sem a nefasta corrupção que tristemente testemunhamos na preparação para a Copa de 2014).

Na grande final, o Brasil abriu o placar e deixou os uruguaios empatarem — o que não seria um problema, já que um empate daria o título ao anfitrião. Mas, aos 79 minutos de partida, o Uruguai fez 2 a 1 diante de quase 200 mil torcedores atônitos, ganhou o jogo e a Copa que o Brasil tanto desejava. O trauma daquela derrota, que originou o tal “complexo de vira-lata”, foi superado no campo futebolístico em 1958, quando a seleção bateu a dona da casa Suécia por 5 a 2 e ficou com a taça. O que enseja a pergunta: e fora do futebol, será que superamos o complexo de vira-lata?

De fato, alguns acham que nós, brasileiros, tendemos a menosprezar em algum grau o que é nosso e a enaltecer o que é de fora — interpretação que reforçaria a tese de que temos, sim, complexo de vira-lata. Gostaria, no entanto, de propor uma reflexão mais profunda sobre essa ideia, para mostrar que não é bem assim. Seria importante desmistificar algo que em nada colabora com nossa construção cultural.

Menosprezo pelo que é nacional

Primeiro, trato da questão do menosprezo ao que é brasileiro. No passado, realmente havia um déficit de qualidade de produtos nacionais industrializados, o que nos remetia à apreciação das mercadorias vindas da Europa e, principalmente, dos Estados Unidos. Na outra ponta, tudo o que era brasileiro e de alta qualidade exportávamos, por questões de ganho econômico — por causa do câmbio e de uma espécie de “hedge” natural contra a elevada inflação que nos assolou por décadas.


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Porém, tanto o cenário econômico quanto a qualidade de nossos produtos e serviços mudaram da água para o vinho ao longo do tempo. Ou seja, o brasileiro não menospreza a brasilidade, mas sim a falta de qualidade, independentemente da origem geográfica. Prova disso é que menosprezamos, por exemplo, produtos chineses, carros franceses e italianos (e até alguns americanos) e enaltecemos os aviões da Embraer, marcas nacionais de alta qualidade, como Boticário, Natura, John John, Animale, Le Lis Blanc. E mesmo falando genericamente sobre categorias de produtos, vemos vinhos nacionais que hoje superam em qualidade os chilenos e argentinos e se equiparam aos melhores do mundo. Esses produtos ganham espaço à medida que ficam conhecidos e que são desfeitos preconceitos descabidos. Tudo isso para dizer que se a qualidade muda para melhor, passamos a valorizar o que é nosso sem nenhuma resistência. É, ainda, evidente o orgulho que sentimos quando nos deparamos com a brasilidade representada com qualidade.

Enaltecer o que vem de fora

A segunda variável da equação do complexo de vira-lata é o enaltecimento do que vem de fora. Ora, esse aspecto é uma herança de nossa colonização, da maleabilidade cultural dos portugueses que nos colonizaram, dos espíritos aventureiros, segundo afirma Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil. Temos pouca rigidez cultural, o que nos permite absorver mais do que impor “realidades” ou julgamentos éticos e estéticos ao que nos é apresentado. Também gostamos de ter contato com o novo, ao contrário dos anglo-saxões — que, além de imporem suas “realidades”, têm aversão ao novo e amor às tradições. Portanto, esse caráter jeitoso, adaptável e maleável do brasileiro faz com que diante de coisas de fora tenhamos mais carinho e acolhimento do que uma atitude de repulsa.

Importante destacar que esse apreciar e acolher o outro oferece aspectos relevantes para a construção de uma cultura mais humana e plural, características valiosas para o mundo contemporâneo.

Então, concluímos que, para além do campo futebolístico, o complexo de vira-lata não é um traço de nossa cultura: basta um desvelar de qualidade para mudarmos de impressão e avaliação sobre nós mesmos. Assim como o vira-lata virou cool, a brasilidade tornou-se um modelo de existência contemporânea.


*Alexandre Fialho (fialho@filosofiaorganizacional.com.br) é sócio-fundador da Filosofia Organizacional, conselheiro de diversas empresas, mentor de grandes líderes e professor


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