Abrir ou não abrir o capital, eis a questão
Os fatores que o empreendedor deve considerar antes de optar pela perda da sua liberdade

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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

A história do mercado de capitais brasileiro é muito mais antiga do que se pode imaginar. Começa em 1808 com a chegada da família real portuguesa, que fugia da iminente invasão do exército de Napoleão Bonaparte. Um dos primeiros objetivos de Dom João VI foi a fundação de um banco: o Banco do Brasil. A Coroa pediu ajuda aos governadores das capitanias para disseminar aquela que seria a primeira oferta de ações por aqui. O esforço de venda durou intermináveis nove anos, com baixa demanda.

Atravessou séculos, portanto, o trabalho para a criação de um mercado de capitais forte; mas as últimas décadas foram pouco alentadoras. Entre 1990 e 2017 o número de empresas listadas em bolsa despencou de 544 para apenas 344.  Houve períodos de “voos de galinha”, como a fase de 2005 a 2007, em que cerca de 100 empresas lançaram ações ao público.  Em 2017, após alguns anos de marasmo, vemos — ainda que timidamente — uma nova onda de aberturas de capital. Chamam a atenção alguns números do “Brasil real”: segundo o Sebrae, há cerca de 8 milhões de companhias no País, 99% delas micro ou médias, e só neste ano quase um milhão de CNPJs foram abertos. Esses dados vão contra a ideia de que o brasileiro não tem características empreendedoras.

O processo de abertura de capital é burocrático e complexo; envolve o pagamento de várias taxas e a assunção de diversos compromissos com o futuro acionista. É necessária a publicação periódica de informações em jornais ou revistas. A empresa deverá estar disposta a responder a qualquer dúvida dos acionistas. Diante disso, a pergunta básica que os proprietários devem se impor é: “Por que estou disposto a abrir mão da minha liberdade de fazer o que bem entender de minha companhia?”. Em detalhes, pode também avaliar:

A abertura de capital é a melhor opção no momento? Trata-se, acima de tudo, de uma decisão estratégica. Até atingir o timing correto da abertura de capital a empresa deve ter percorrido alguns estágios, sobretudo em termos de escala. Isso não significa que empresas pequenas não possam seguir esse caminho, mas o grau de atratividade, do ponto de vista da demanda do investidor, tende a ser bem menor. Existe o segmento Bovespa Mais, que dispensa certos estágios do processo para incentivar os pequenos a abrir o capital. No entanto, em determinados ciclos de vida da companhia talvez seja mais adequada, por exemplo, a venda de uma participação minoritária a um sócio estratégico (como fundos de private equity), para dar mais “musculatura” ao negócio antes da exploração do mercado aberto para uma oferta primária de ações.

A abertura de capital passou a ser uma questão de vida ou morte para a empresa? Às vezes a abertura de capital não é mais uma opção, mas uma necessidade de sobrevivência do negócio. A empresa pode, por exemplo, estar inserida em um setor intensivo em capital, cuja demanda por investimentos é crescente por causa da concorrência mais acirrada. Há certo limite natural na disponibilidade de recursos de bancos ou dos próprios controladores, o que torna a abertura de capital quase a última saída. Mas uma decisão motivada apenas por uma demanda inevitável por captação é sinal de falha de gestão, já que a abertura de capital deve estar inserida em um processo natural de evolução.

Como empresário, quero ter uma empresa de capital aberto? Mesmo que a abertura de capital faça sentido em termos financeiros, recomenda-se ao dono de qualquer empresa uma autorreflexão: prefiro continuar com meu negócio menor e com perspectivas menos ambiciosas, mas sob meu total controle? Ou divido decisões em um projeto maior e com horizonte e riscos mais largos? Não existe uma resposta correta; cabe a cada empresário avaliar.

Destaque-se, por fim, pontos importantes para uma decisão em prol da abertura de capital:

Efeito de reconhecimento de mercado: a empresa passa a ser conhecida — o que implica maior transparência. Isso facilita a explicitação de seu valor real, depois de desvendados os pontos fortes (que devem ser reforçados) e fracos (que precisam ser corrigidos).

Efeito de vigilância: uma das grandes contribuições do aumento de endividamento de uma empresa consiste no zelo extra que o empresário passa a adotar em decorrência da criação de um custo fixo futuro (o pagamento das parcelas de amortizações e juros). Efeito semelhante acontece quando aumenta a dispersão do controle acionário em mercado, já que se forma uma espécie de olhar externo permanente sobre as decisões do empresário. Mesmo não representando um custo fixo, a abertura de capital impõe certa disciplina, que seguramente será uma das fontes de maximização de valor da companhia a longo prazo.


*Alexandre Póvoa ([email protected]) é presidente da Canepa Asset Brasil e autor dos livros: “Valuation, Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor”.


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