Prova de força

Pressionado pelo Planalto, Banco do Brasil concede crédito barato e consegue lucrar

Especial / Relações com Investidores / Edições / Temas / As Melhores Companhias para os Acionistas 2009 / Reportagem / 1 de outubro de 2009
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Atravessar a crise econômica mundial sem grandes perdas já era um desafio e tanto para o mercado financeiro brasileiro. Aproveitar a retração dos concorrentes para avançar em áreas menos exploradas, então, foi uma estratégia arriscada —, mas que rendeu frutos, ao menos para o Banco do Brasil (BB). Em outubro, logo após o colapso do Lehman Brothers, o BB completou 200 anos de operação e deu largada a um plano de expansão para garantir um novo centenário. Mesmo sob a pressão da crise, não se desviou da meta. Iniciou uma série de aquisições, incluindo a da Nossa Caixa, e a reformatação de sua estrutura para atuar em negócios que recebiam pouca ou nenhuma atenção. A tática foi certeira: o BB voltou a ser o maior banco do País em ativos no primeiro semestre deste ano, posto que havia perdido para o Itaú Unibanco.

“Nos antecipamos ao cenário de retomada da atividade econômica, percebendo a solidez da economia brasileira”, diz Aldemir Bendine, presidente do BB. Os ativos totais da instituição somavam R$ 598,84 bilhões no fim do segundo trimestre, contra R$ 596,4 bilhões do conglomerado formado pelos bancos Itaú e Unibanco. Em 2008, o BB entregou um EVA (sigla, em inglês, para valor econômico adicionado) de R$ 2,5 bilhões, superior aos R$ 2,25 bilhões obtidos no ano anterior. Isso quer dizer que, apesar dos riscos assumidos quando ninguém mais queria sair na chuva, a instituição criou valor para os investidores. E, por tabela, garantiu o segundo lugar no ranking As Melhores Companhias para os Acionistas 2009, na categoria das empresas com valor de mercado superior a R$ 15 bilhões.

Banco espera que carteira imobiliária alcance valor de R$ 2 bilhões até o fim do ano

A reconquista da liderança, segundo Bendine, é uma prova da competitividade e da capacidade do Banco do Brasil para gerar resultados e manter a eficiência, mesmo tendo de sustentar o crédito na conjuntura de crise e achatar as taxas de juros. Os aspectos citados pelo presidente são justamente os que provocaram maior preocupação entre analistas e investidores nessa travessia. Com a pressão da União, seu acionista controlador, no sentido de reduzir os spreads bancários e manter o fornecimento de crédito num momento de enxuta liquidez, o banco supreendeu em abril deste ano, ao anunciar a troca de seu principal comandante.

Bendine assumiu a cadeira então ocupada por Antonio Francisco Lima Neto, executivo benquisto no mercado financeiro que aparentemente se opunha a cortes de taxas a patamares que pudessem comprometer a rentabilidade do banco. O mercado reagiu mal à notícia, provocando uma derrocada de 8,15% das ações do banco na BM&FBovespa, em dia de alta do principal índice acionário.

O temor dos investidores era de que a instituição retomasse a influência política vivida na década de 1990. Entretanto, diz Bendine, o episódio acabou sendo uma oportunidade de mostrar um modelo sólido de banco público. “O Banco do Brasil é uma empresa gerida com espírito competitivo, agressividade mercadológica, comprometida com padrões de eficiência e com o desenvolvimento do País”, afirma. Para o executivo, a empresa tem dado provas de que seu compromisso com as boas práticas de governança corporativa é um caminho sem volta. As ações do BB são listadas no Novo Mercado da BM&FBovespa, o segmento com as regras mais rígidas de governança. Não por acaso, nesse quesito, o banco cravou a nota 9,17, a terceira mais alta de sua categoria. O BB também faz parte do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).

No segundo trimestre de 2009, registrou, pela primeira vez, um volume de crédito para consumo superior ao montante de crédito rural. “Com o afastamento dos bancos de capital estrangeiro e o maior conservadorismo dos bancos nacionais, vimos os clientes buscando no Banco do Brasil o que não encontraram em suas casas de origem”, diz Ivan Monteiro, vice-presidente de finanças, mercado de capitais e relações com investidores. Essa atração foi exercida tanto em empresas como em pessoas físicas. Crédito imobiliário para o consumidor, por exemplo, foi um dos segmentos reforçados. O banco estima que a carteira imobiliária atinja R$ 2 bilhões até o fim de 2009 — cifra que não ultrapassava R$ 100 milhões há dois anos.

Dentre os fundamentos para recomendar a compra das ações do BB, o analista Pérsio Nogueira Junior, da Planner Corretora, destaca as aquisições recentes. “A Nossa Caixa trouxe uma carteira relevante de crédito consignado e pode elevar a rentabilidade do banco, que ganha boa penetração em São Paulo”, avalia.

O cenário de crescimento e os resultados já obtidos não poupam o banco de algumas críticas sobre a eficiência e a agilidade nas tomadas de decisão, teoricamente em desvantagem quando comparadas às instituições privadas do País. Além disso, ainda que o desempenho exibido no balanço financeiro agrade aos investidores, a compra de ações de companhias que têm o governo — federal ou estadual — como acionista continua exigindo uma avaliação sobre risco político. “Há desconto no papel do Banco do Brasil e sempre vai haver”, diz o analista da Planner. A composição acionária faz com que agências de classificação de risco mantenham a nota do BB em patamares geralmente mais próximos ao rating nacional, enquanto os bancos privados têm avaliações sem vínculo direto e que permitem notas melhores.


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