Fortes emoções

Para inaugurar o espaço que passamos a dedicar a carreiras, escolhemos o profissional do momento: o investment banker

Reportagem/Edição 33 / 1 de maio de 2006
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Já imaginou o dia em que os bancos parassem de emprestar dinheiro? Ou em que, pelo menos, tomar recursos de um lado e emprestálos de outro não fosse mais a atividade principal desse setor? No lugar de gerentes oferecendo limite para cheque especial ou linha de crédito, haveria agências voltadas apenas à prestação de serviços. As instituições financeiras tirariam lucros enormes só com o trabalho de consultoria em investimentos e, por que não, participando da gestão executiva das companhias que são suas clientes.

Quem pensa que essa profecia está longe de acontecer, talvez, esteja certo. Mas o fato é que as atividades não ligadas diretamente à concessão de empréstimos vêm crescendo rapidamente e engordando os caixas das instituições financeiras. Não que o banqueiro tradicional vá deixar de existir. Tampouco irá parar de ganhar dinheiro cobrando taxas elevadas sobre o risco do calote. A questão é que, ao lado dele, já senta alguém com um perfil bem diferente, conhecido como investment banker, que responde pelo que está sendo chamado de engenharia financeira dos negócios corporativos.

Ora, mas o que faz esse novo profissional ser tão importante quanto o “emprestador” de dinheiro? De um modo bem simples, digamos que esse executivo é capaz de trazer recursos para a instituição com um risco de crédito infinitamente menor do que consegue o “emprestador”. Na pior das hipóteses, se sua consultoria for mal feita, o prejuízo cairá sobre o negócio do cliente ou em quem apostou e comprou aquela opção de investimento.

É lógico que, depois da segunda ou terceira mancada com o mercado, a fama de mau conselheiro fatalmente obrigaria o executivo a deixar esse ramo. Mas, se trabalharmos com o pressuposto de que os bancos brasileiros já alcançaram uma competência satisfatória na coordenação de operações financeiras, então entenderemos o quanto hoje a área de investment banking tornou-se uma das mais promissoras no mercado de capitais — motivo pelo qual a escolhemos para inaugurar este espaço destinado a carreiras, que passa a ser publicado bimestralmente pela Capital Aberto.

CRAQUE EM SOLUÇÕES — “Eles são profissionais que vendem soluções, não dinheiro”, resume Alfredo Assumpção, presidente da Fesa, empresa especializada em recrutamento e avaliação de executivos para o setor financeiro. Os bankers têm a função de mostrar as diversas opções para uma empresa conseguir determinado resultado. Pode ser desde um oferta inicial de ações (IPO), como uma emissão de dívidas ou o financiamento de um projeto por meio de securitização. Nessa área é essencial o conceito de “one stop shop”, ou seja, de estar capacitado para oferecer todos os serviços necessários para o cliente alcançar seus objetivos.

A área de investimentos dos bancos esteve por trás de cada centavo dos R$ 68,6 bilhões obtidos com o total de emissões de renda fixa e variável realizadas no mercado brasileiro em 2005 — um volume 159% maior que o registrado no ano anterior, segundo dados da Anbid. Faz parte do dia-a-dia do departamento estudar leis e regulações do mercado, acompanhar a performance econômica de vários setores ou negócios específicos, comparar esses resultados com dados internacionais, pesquisar e definir a melhor estratégia de captação de recursos para uma companhia, conferir se as informações transmitidas pela empresa são verdadeiras, encontrar investidores dispostos a financiá-la, coordenar todas as etapas da operação no mercado e, claro, fazer tudo isso sem parar de procurar novos clientes dispostos a pagar por esses serviços.

Por aí se vê que a rotina de um profissional desse segmento não é fácil — seja ele um underwriter sênior ou um trainee. Quem confirma isso é o superintendente de mercado de capitais do Banif Primus, Atila Noaldo. Responsável pela coordenação das operações de valores mobiliários da instituição, ele conta que é comum nessa função as pessoas trabalharem, no mínimo, de dez a doze horas por dia. “Em geral, nosso trabalho demanda uma análise muito intensa, que envolve estudo de mercado, comparativo dos múltiplos e muitas análises”, diz. “Fazemos a equipe entender que, para estruturar uma boa operação, vale até perder algumas horas de sono, ou mesmo finais de semana inteiros.”

LUGAR PARA OS JOVENS — Com uma agenda tão movimentada, e dominada por prazos que são sempre “para ontem”, só mesmo alguém na faixa dos 20 aos 30 anos para dar conta dos trabalhos operacionais. “Sou um avô perto desses meninos”, brinca Noaldo, que já chegou aos 49. Em geral, os jovens são recrutados antes mesmo de saírem da faculdade por programas de trainees. Por isso que, quando passam da casa dos 30, já acumulam experiência suficiente e podem ser considerados seniores antes de chegarem aos 40. Isso implica, naturalmente, um ganho maior pelo degrau alcançado. Afinal, a remuneração nessa área é quase sempre composta de um salário fixo modesto somado a um bônus tentador vinculado a metas.

Pelo fato de um bom resultado depender muito do empenho de cada um, é fundamental que o profissional dessa área saiba trabalhar em equipe. “Na medida em que o banqueiro passou a ser vendedor de alternativas, e não mais apenas de crédito, aumentou a lista de atributos esperados desses profissionais”, acredita Assumpção. Além de conhecimento, o candidato a uma dessas vagas deve ter flexibilidade para responder a situações diferentes, capacidade de se organizar, atenção para ouvir. E, mesmo sob a pressão do trabalho, precisa garantir sua estabilidade emocional e, fundamentalmente, conseguir interagir com os colegas, subordinados e superiores.

Os cursos preferidos pelos headhunters, ou mesmo pelos chefes desses departamentos, são os de engenharia, economia e administração. Noaldo, do Banif, diz que o mais importante é um candidato com competência para encarar responsabilidades, que se esforça no sentido de se aprimorar. “As pessoas que fazem aquilo que gostam, quando bem encaminhadas, vão longe”, afirma. “É lógico que defendo a importância das horas de lazer, de ficar com a família. Mas o mercado, por ser muito volátil, nos impõe prazos que não podem deixar de ser cumpridos. A gente vira noite, mas isso não é encarado como um problema.”

Se você não tem medo de longas jornadas de trabalho, gosta do desafio e está disposto a correr o risco de ganhar R$ 1 milhão entre salário e bônus num só ano — sim, um profissional da equipe do banker consegue botar a mão nessa cifra com esse prazo — aqui vão duas notícias. A boa é que, devido ao aquecimento do mercado de capitais brasileiro, as áreas de investimentos dos bancos não estão de olho apenas nos brilhantes talentos que ainda freqüentam as salas de aula. Isto é, sobra espaço para analistas ou profissionais que já passaram da faixa dos 30 anos, exatamente pela experiência acumulada.

Contudo, antes de preparar seu currículo, esteja consciente da notícia ruim. Se há três, quatro anos, esses cargos eram pouco disputados pelo mercado de trabalho, hoje a concorrência é gigantesca. Além disso, trata-se de uma área bastante instável. Quando a economia vai bem, as empresas traçam metas ousadas e os bancos contratam pessoas para ajuda-las a obterem recursos. Porém, numa invertida qualquer, enquanto o empresário do setor produtivo tem a condição de se livrar de um ativo para fazer caixa, o banqueiro corta pessoal para reduzir os custos. Portanto, se você estiver mesmo mirando as áreas de mercado de capitais dos grandes bancos, prepara-se desde já para fortes emoções.




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