Um “insider” contra o sistema

Analista conta as agruras da busca por independência nas áreas de sell side

Bimestral/Governança Corporativa/Temas/Prateleira/Edição 104 / 1 de abril de 2012
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Todo profissional cujo trabalho demanda a emissão de opiniões corre o risco de contrariar o “establishment”. O exercício de análise de investimentos sell side, que requer a publicação de relatórios sugerindo a compra ou venda de ações, é um convite diário a esse dilema. O analista deve optar entre dar seu parecer de forma independente, correndo o risco de irritar clientes do banco em que atua e colegas de trabalho, ou fornecer um relatório neutro e devidamente pasteurizado. Mike Mayo, em Exile on Wall Street, retrata com cores vivas 20 anos de sua experiência como analista de instituições financeiras norte–americanas.

A atividade (ou seria arte?) do sell side é complementar à rotina dos bancos de investimento. Por ser menos representativa nas receitas das instituições financeiras, essa área, também conhecida como pesquisa (research), sofre grandes pressões para colaborar com os resultados dos banqueiros de investimento. Essa função embute um sério conflito de interesses: é complicado sugerir a venda de ações de emissão de uma empresa cliente do banco. Não por acaso, há muito mais relatórios indicando a compra do que recomendando manutenção ou venda.

Ao contar sua trajetória profissional desde os tempos de analista do Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, até sua passagem por nada menos que seis instituições financeiras, Mayo expõe as entranhas de um sistema corrompido pelo objetivo de ganhar dinheiro a qualquer custo.

Infelizmente, a conclusão central do autor é que, a despeito da última crise, as raízes do problema não foram cortadas. Mayo aponta três principais razões para a persistência desse mal. A primeira seria fruto de uma ligação incestuosa entre políticos, reguladores e os bancos: as instituições financeiras dominam o Congresso norte–americano e têm uma atuação lobista fortíssima. O relacionamento dos bancos com empresas de auditoria é outra fonte de preocupações. Nesse caso, novamente, está em cena um conflito de interesses, visto que a remuneração das firmas de auditoria independentes — paga pelos próprios auditados — pode levar a interpretações que melhoram artificialmente os balanços de empresas contratantes, como os bancos.

Um terceiro combustível à busca desenfreada pelo lucro é a composição dos conselhos de administração dos bancos e o sistema de remuneração praticado nesse meio. Tipicamente, os conselhos são preenchidos por gente até bem intencionada e preparada, mas com baixo conhecimento da atividade bancária. O abalo de Wall Street deixou claro o quanto os processos e as instâncias de monitoramento pelos acionistas são frágeis e contaminados por um modelo perverso de incentivos.

A fidelidade às próprias convicções e a capacidade de expor as fragilidades de algumas instituições financeiras impuseram um custo a Mayo, além do apelido pouco elogioso de “assassino de CEOs”. Ele foi, mais de uma vez, demitido sumariamente pelo conteúdo de alguns relatórios de análise, expulso de conferências e ridicularizado por pares e CEOs dos bancos que criticou; mas sempre respondeu a tudo isso eticamente, jogando, como se diz no jargão esportivo, “dentro das quatro linhas”. Trata–se de um preço elevado a se pagar, que nos convida à reflexão sobre nossas carreiras.




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