Página virada

Após dar um calote e, meses depois, renegociar a dívida, Eletropaulo torna-se ação defensiva

Captação de recursos/Temas/Edição 68 / 1 de abril de 2009
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No finzinho de janeiro de 2003, a AES Eletropaulo ganhou o alto das páginas dos principais jornais brasileiros. Era protagonista de uma safra de notícias — todas ruins. A pior delas anunciava um “default” do grupo norte-americano com o BNDES. Ao todo, a dívida chegava a US$ 1,2 bilhão e se referia a um financiamento concedido pelo banco federal à AES para a aquisição da Eletropaulo. O tempo fechou para a maior distribuidora de energia elétrica da América Latina: o crédito se tornou escasso e caro. E quase ofuscou o brilho daquela que havia sido considerada a “jóia da coroa” na cesta de estatais privatizadas. Hoje, a AES Eletropaulo vive um novo capítulo na sua história. E bem melhor que o do passado.

A concessionária que leva energia elétrica a 17 milhões de pessoas distribuídas em 24 municípios da região metropolitana de São Paulo deixou para trás o ranço de caloteira para se tornar um investimento atraente na bolsa em tempos de crise. O papel — que ostentava a segunda maior alta da BM&FBovespa na última sexta-feira de março, com uma variação positiva de quase 3% no dia (cotado a R$ 32,45) —, virou sinônimo de dividendo farto. Este ano, a companhia vai distribuir 95% do lucro líquido, de R$ 1,02 bilhão, registrado no exercício de 2008.

O resultado do ano passado é 44,1% acima do apurado em 2007, quando a concessionária lucrou R$ 712,6 milhões. A alta foi puxada por itens extraordinários — o que inclui ganhos com operações financeiras bem-sucedidas, algo que não havia sido computado no balanço de 2007. Contribuíram para esse resultado outros fatores importantes: a reversão de R$ 190,7 milhões, relativa ao processo de ampliação da base de cálculo da Cofins; o provisionamento de R$ 71,5 milhões, referente à multa do processo de majoração da alíquota do Cofins, e a decisão favorável do Finsocial, gerando um incremento de R$ 299,1 milhões. Em 2008, a receita líquida da Eletropaulo totalizou R$ 7,5 bilhões, alta de 4,7% ante o ano anterior. E as despesas operacionais, em contrapartida, avançaram 6,4%, para R$ 5,9 bilhões, o que puxou para baixo a performance da companhia.

O analista do setor elétrico Sérgio Tamashiro, do Itaú BBA, diz, contudo, que, independentemente dos ganhos extraordinários apurados no quarto trimestre, a Eletropaulo apresentou resultado acima do esperado. Nas contas dele, o lucro da empresa seria de R$ 161 milhões no último trimestre do ano, mas o ganho somou R$ 529 milhões. “Descontado o imposto de renda e o valor não recorrente, o lucro, ainda assim, seria 32% superior ao que projetamos.”

Ao comentar o resultado, Alexandre Innecco, diretor vice-presidente financeiro e de Relações com Investidores (RI), atribuiu a melhora do desempenho ao reajuste tarifário de 8,01%, concedido em julho de 2008, pelo xerife do setor, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). E também à expansão do mercado em que a Eletropaulo opera. No período, o consumo de energia elétrica dos fregueses atendidos pela distribuidora cresceu 3,9%, para 33.859,8 GWh.

Tamashiro observa que o fato de a Eletropaulo não estar em regiões com grandes consumidores industriais também colaborou com os ganhos. A distribuidora atende especialmente consumidores finais e empresas de bens e serviços. “Esses clientes, neste momento, são menos afetados pela crise. Afinal, ninguém deixa de tomar banho porque ficou desempregado, e o shopping não desliga o ar condicionado porque está vendendo menos”, ilustrou.

O setor de energia elétrica em geral, aliás, não padece tanto dos solavancos financeiros. Até porque, diferentemente de outros segmentos, ele não reflete essas mudanças tão rapidamente. Pelas regras, se uma indústria ou empresa registrar queda na demanda, até pode diminuir a compra de energia, mas essa redução só será feita após seis meses. “Quem vai correr esse risco?”, questiona o analista. “Não dá para saber o comportamento que o consumo vai ter no semestre seguinte.”

Além disso, ao optar por uma diminuição de compra de energia, a indústria sofreria dupla penalização se voltasse atrás. Uma porque teria de comprar a energia excedente no mercado à vista (spot, no jargão do mercado); portanto, bem mais cara. E outra, porque toda a empresa que ultrapassa o nível contratado inicialmente é multada, sob pena de colocar em risco o sistema elétrico. Uma sobrecarga elétrica pode provocar blecaute, como já aconteceu no passado. “É como um carro que excede a velocidade”, compara.

Diante de um cenário como esse — e longe do fantasma do apagão (afinal, o País vai crescer menos e, portanto, não há risco de faltar energia), a Eletropaulo surge com uma opção defensiva de investimento. Ao mesmo tempo, a concessionária leiloada há uma década não sofre com a queda na demanda do mercado internacional, uma vez que não tem perfil exportador. Desde que selou as pazes com o governo, no Natal de 2003, a Eletropaulo é controlada pela AES Corp. (50,01%) e pelo BNDES (49,9%). O banco estatal já anunciou a sua intenção de sair da operação, embora ainda não tenha definido a data. A AES tem direito de preferência.


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