Como as melhores práticas de governança podem melhorar o País

Amplificação dos conceitos antes restritos ao mundo corporativo é essencial diante de sociedades que buscam mais propósito em produtos e serviços

Governança Corporativa/Colunistas / 5 de abril de 2019
Por 


Henrique Luz*/ Ilustração: Julia Padula

“Onde as necessidades do mundo e os seus talentos se cruzam, aí está a sua vocação.”

É o que já dizia Aristóteles, 350 anos antes de Cristo. A frase cabe não somente às pessoas que buscam utilizar seu talento da melhor forma para o mundo: é verdade também para organizações, uma forma de explicitar a suprema importância de se ter um propósito.

Diz o professor Philip Kotler, conforme citação no livro Propósito: Por que ele engaja colaboradores, constrói marcas fortes e empresas poderosas, de Joey Reiman, o propósito é o catalisador que revigora e empodera o capitalismo em sociedades que não toleram mais o excesso de “comoditização” sem significado de produtos e serviços. É preciso deixar claros os benefícios que as organizações são capazes de agregar às sociedades quando creem em sua maior responsabilidade no mundo — e mais ainda quando a praticam.

Para Reiman, o propósito é uma bússola guiando uma organização para uma nova direção nos negócios, um roadmap para a construção de uma entidade ou uma marca inspiradora. Os produtos e serviços, nesse modelo, representam a oportunidade que os clientes têm de aderir a uma ideia maior. Mas para que uma marca seja inspiradora — e seu propósito crível — é preciso que a sociedade acredite nessa narrativa, e que esta esteja acompanhada de um legado real e ético. Inclusive, para que uma organização possa se perpetuar ao longo de gerações, promovendo valor a longo prazo, é necessário que os laços de confiança entre a empresa e seus stakeholders sejam repactuados constantemente.

A pesquisa global Edelman Trust Barometer de 2018 mostrou que 81% dos brasileiros acreditam que o governo é a instituição mais corrompida (quase o dobro da média global), enquanto 41% dos entrevistados afirmam que as empresas representam um caminho para um futuro melhor. E mais: 60% das pessoas ouvidas no País dizem que os comandantes dessas organizações devem assumir a liderança em movimentos de transformação, em vez de esperar que o governo os imponha. A sociedade hoje demanda das empresas o papel de agente de mudanças.

Desde 1995, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) vem trabalhando de maneira relevante para contribuir ao desempenho sustentável das organizações, influenciando os agentes da sociedade no sentido de mais transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Ao longo dos últimos anos, entidade levou ao ambiente corporativo temas importantes para a agenda de conselhos de administração, como de resto para a sociedade brasileira. Entre eles, o papel da governança na criação de valor para a empresa, a revisão histórica da governança e seu olhar para o futuro, a importância da valorização da essência em detrimento da aparência, a governança consciente que atua muito além das regras e, nos últimos dois anos, um assunto que avança em todo o mundo e que deve estar na pauta de todas as organizações brasileiras que queiram sobreviver: o ecossistema da inovação e a inserção das pessoas nesse ambiente.

O Brasil parece vivenciar um momento de grande expectativa com relação a uma decolagem em direção a um novo patamar de sociedade. Cada cidadão, cada entidade, comercial ou não, precisa estar engajada nesse objetivo maior. Independentemente de ideologias e, muito menos, de bandeiras partidárias.

O IBGC entende que a partir de uma sociedade mais demandante — que cobre não somente o retorno sobre o investimento, mas também sobre a inspiração — precisa ampliar a sua atuação, de forma a mostrar a novos públicos que a governança vai desde a organização societária de uma empresa até a definição de sua estratégia e o acompanhamento de sua execução, sempre de forma ética, transparente, com compromisso e responsabilidade. Essas práticas são fundamentais para a sustentabilidade e a longevidade de qualquer organização, não importa o tamanho.

Com base na constatação dos benefícios que as boas práticas de governança promovem para as organizações, e consequentemente para a sociedade, o IBGC passa a se guiar inspirado pelo objetivo de promover “uma governança corporativa melhor para uma sociedade melhor”.

Larry Fink, CEO e chairman da BlackRock, em sua carta anual para os CEOs (“A sense of purpose”), diz que “para prosperar ao longo do tempo, toda empresa deve não apenas oferecer desempenho financeiro, mas também mostrar como ela contribui positivamente para a sociedade”. Para ele, “a empresa deve entender o impacto social de seus negócios, bem como as tendências estruturais amplas”. Fink complementa dizendo que “a capacidade de uma empresa de gerenciar questões ambientais, sociais e de governança demonstra a liderança e a boa governança que são essenciais para o crescimento sustentável, e é por isso que a organização está cada vez mais integrando essas questões em seu processo de investimento”.

É nesse olhar mais amplo sobre a governança corporativa que estamos engajados e, com base nele, prontos a debater. O olhar sobre como podemos, ao disseminar as melhores práticas de governança corporativa, engajar fundadores, acionistas, administradores e stakeholders para que as suas empresas possam contribuir de forma grandiosa para a construção de uma sociedade melhor.


 

*Henrique Luz (henrique@henriqueluz.com.br) atua como membro independente de conselhos de administração. É conselheiro certificado pelo IBGC e presidente do conselho de administração do instituto.


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