Eles adoram encrenca

O estilo BTG de pescar oportunidades onde todo mundo só vê problema revela seus méritos. O desafio será provar que a tese otimista é sustentável

Gestão de Recursos/Reportagem/Edição 121 / 1 de setembro de 2013
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Fundado como Pactual há 30 anos, vendido para o suíço UBS há sete e recomprado pelos antigos sócios há cinco, o BTG Pactual notabilizou-se pelo estilo de gestão assumidamente agressivo e por ambições nada modestas. Seu controlador e presidente, o carioca André Esteves, costuma descrever o banco como um “BNDES privado”, fama que vem sendo reforçada pelos negócios cada vez mais encrencados que se propõe a recuperar. Nos últimos anos, o BTG arrematou dezenas de empresas, direta ou indiretamente, por meio de seus fundos de participação. Na área financeira, comprou uma das líderes de produtos imobiliá-rios, a Brazilian Finance & Real Estate (BFRE), e expandiu seus tentáculos para países como Chile, ao arrematar a corretora e gestora de recursos Celfin, e Colômbia, com a aquisição da corretora Bolsa y Renta. Mas os alvos do BTG estão em muitos outros segmentos econômicos, que vão de mineradoras a academias de ginástica, passando por farmácias e estacionamentos. São companhias em que a diretoria do banco enxerga claro potencial de crescimento. Ou, em algumas situações, apresentam as finanças tão combalidas que o negócio se torna irresistível à luz de um convidativo desconto.

O caso clássico foi a aquisição do Panamericano, em 2011. O BTG levou, por R$ 450 milhões, uma fatia de 37% do banco do empresário Silvio Santos — com 51% das ações ordinárias e 21,97% das preferenciais —, dois meses depois de a instituição ter protagonizado um escândalo bilionário de fraude financeira. Uma maquiagem perpetrada pela diretoria do Panamericano, que consistia em contabilizar no balanço carteiras de crédito já vendidas, inflara os resultados da instituição durante quase quatro anos. Quando a farsa foi descoberta e os verdadeiros números apurados, um rombo de mais de R$ 4 bilhões nas contas do banco veio à tona.

Ainda que o resgate do Panamericano contasse com o apoio do Fundo Garantidor de Créditos e o respaldo da Caixa Econômica Federal, também sócia do banco, a operação era cheia de riscos para o BTG, a começar pela inexistência de dados financeiros confiáveis. Com presidente novo, o economista José Luiz Acar Pedro, e marca redesenhada — o Panamericano agora se chama Pan —, a instituição voltou a dar lucro neste ano, embora um pouco mais tarde do que o controlador esperava. No primeiro semestre, o ganho acumulado somou R$ 52 milhões. A aquisição abriu caminho para o BTG atuar nos setores de banco comercial e de financiamentos imobiliários.

Uma parceria bem menos próspera foi aquela firmada com a EBX, do empresário Eike Batista. No mês de março, o banco fechou um acordo para trabalhar na reestruturação das companhias do grupo. Com um pequeno império cheio de dívidas nas mãos, entregando resultados bem menos estonteantes do que prometera na época da abertura de capital de suas empresas, Eike se via num beco sem saída — o mesmo lugar em que o BTG enxergava uma oportunidade imperdível de fazer dinheiro. Deu tudo errado. Os problemas do grupo EBX eram muito maiores do que pareciam. No início de julho, a petroleira OGX, por anos a joia da coroa da holding, anunciou que seu principal campo de exploração (Tubarão Azul) poderia parar de produzir petróleo já no ano que vem. A reação em cadeia foi rápida e irrestrita, atingindo todas as companhias do grupo.

No Brasil, não há concorrentes comparáveis ao banco de André Esteves. Sua posição de risco é a mais alta entre as instituições da AL avaliadas pela Standard & Poor’s

A linha de crédito de US$ 1 bilhão que o BTG prometera às empresas de Eike foi imediatamente cancelada, assim como a ideia de que seus fundos de private equity entrassem comprando participações na holding. A maior parte da remuneração pelos serviços de assessoria financeira (um prêmio sobre a performance das ações das companhias, que na visão do banco subiriam após a reestruturação) se foi pelo ralo, já que os papéis de todas as empresas X listadas em bolsa despencaram. O caso mais grave e emblemático é o das ações da OGX: quando o BTG anunciou o acordo com o EBX, em 6 de março, elas valiam R$ 2,92; em 12 de agosto, apenas R$ 0,64. A queda foi mais espetacular quando se consideram exclusivamente os dois dias seguintes ao anúncio sobre Tubarão Azul: 43%. Diante da catástrofe, os executivos do banco já não esperam ganhar nada mais com as companhias do grupo além das comissões sobre eventuais vendas de ações ou aumentos de capital.

Modelo peculiar
Analistas e investidores destacam que, no Brasil, não há concorrentes comparáveis ao banco de André Esteves, seja pela diversificação das áreas de negócios, seja pela atuação agressiva. A impetuosidade do BTG, comum aos bancos de investimentos, faz da sua “posição de risco” a mais elevada entre os bancos da América Latina — a maioria deles comerciais — avaliados pela Standard & Poor’s. Segundo a agência de rating, isso reflete aspectos como a complexidade dos riscos administrados pela instituição e o seu objetivo de crescer rapidamente. “O que compensa em parte a volatilidade da estratégia do BTG são suas sofisticadas equipes de gestão e de análise de risco”, opina Sergio Garibian, diretor da Standard & Poor’s.

“Buscar ativos com problema, em que se consiga enxergar algum jeito de ganhar dinheiro, é uma postura típica do BTG. Quando consegue agregar valor, a estratégia é positiva”, observa Carlos Daltozo, analista do BB Investimentos. Não que isso seja algo inédito — bancos em todos os cantos do mundo fazem coisa parecida. O americano J.P. Morgan Chase, por exemplo, arrematou o Bear Stearns em 2008, no alvorecer da grande crise global, a despeito do seu balanço coalhado de hipotecas subprime. Meses depois, o inglês Barclays compraria o Lehman Brothers, ícone da avalanche financeira. Hoje, quase 20% da receita do Barclays vem das comissões por fusões e aquisições, um negócio herdado do Lehman. No J.P. Morgan Chase, entretanto, a compra do quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos acabou rendendo um estoque de ações judiciais. Seu presidente, Jamie Dimon, costuma dizer que não faria o que fez se soubesse das consequências no tribunal.

No Brasil, esse tipo de negociação é mais raro. Daí a surpresa do mercado com a notícia de que o BTG desembolsou R$ 418 milhões, no começo do ano, para levar os ativos podres do antigo Bamerindus — que, em 1997, sofrera intervenção do Banco Central e tivera sua parte boa vendida ao HSBC. Também causou burburinho a decisão do BTG de comprar títulos de dívida da Grécia, país que um ano atrás perigava ser excluído da zona do euro devido a sua situação fiscal periclitante. As apostas podem soar um disparate, mas fazem total sentido aos olhos da administração do banco. O Bamerindus trouxe de brinde créditos tributários estimados em R$ 1 bilhão, que poderão ser usados para reduzir impostos a pagar. Já os bônus gregos, espera-se, poderão se valorizar no longo prazo.

Não é preciso o ativo ser necessariamente um “mico”, porém, para atrair o BTG. Basta ser uma oportunidade. Nos últimos meses, o banco encontrou várias ofertas que julgou atraentes. Em julho, comprou a empresa de cabos submarinos da Oi, companhia telefônica que está focada em gerar caixa e diminuir seu nível de endividamento. Um mês antes, adquiriu metade dos ativos da Petrobras na África, no âmbito do plano de desinvestimentos traçado pela petroleira para levantar recursos. No fim do ano passado, embrenhou-se pela Espanha, país massacrado pela crise europeia, arrematando concessões de administração de túneis na Catalunha. “O banco não ganha sempre. Um tropeço ou outro, contudo, podem não representar um prejuízo tão grande a ponto de comprometer a sua estrutura”, afirma Daltozo.

De fato, não ganha sempre. O aumento de 6% no lucro líquido entre o segundo trimestre de 2012 e o mesmo período deste ano, atingindo R$ 650 milhões, não impediu que o BTG computasse uma queda de 41% na sua receita total, que ficou em R$ 1 bilhão (veja infográfico ao final do texto). A carteira de investimentos proprietários da instituição financeira — uma das principais fontes de receita, marcada a mercado a cada divulgação de resultados — foi o maior motivo de decepção para analistas e investidores. Essa linha registrou perda de R$ 313 milhões. Trata-se de uma quantia significativa, se comparada com os ganhos trimestrais de quase R$ 500 milhões que o banco vinha registrando nesse segmento desde o IPO, há um ano e meio, conforme os cálculos do J.P. Morgan. A queda foi puxada, principalmente, pela carteira de investimentos imobiliários, em que está alocada a participação na BR Properties. No trimestre, as ações da companhia recuaram quase 20%.

Embora os números decepcionem em algumas linhas, o BTG conseguiu manter seu retorno sobre patrimônio líquido em 17,5% ao ano, considerado elevado em relação aos dos bancos comerciais listados na BM&FBovespa, porém abaixo da meta da administração, que é ficar acima de 20%. A vantagem do banco está em seu modelo de negócios, tido como muito diversificado. Um mau desempenho, como o dos investimentos proprietários no último trimestre, consegue ser ao menos parcialmente compensado pelos ganhos em outras áreas. A receita gerada pelo banco com a intermediação de operações em outros países latino-americanos, por exemplo, aumentou 68% no segundo trimestre. E os resultados das operações de tesouraria seguem como um ponto forte. A linha “sales and trading”, que computa esses ganhos, representou, no mesmo período, 46% da receita total do banco. Na época do IPO, esse percentual rondava os 32%.

Os resultados do intervalo abril-junho, entretanto, soaram um alarme para alguns analistas. “A forte lucratividade que o banco vinha gerando se devia, em parte, aos resultados insustentavelmente saudáveis dos investimentos proprietários”, argumentaram, em relatório, os analistas do J.P. Morgan. Embora reconheçam que outras linhas de negócios apresentaram bom desempenho, eles alertam para os riscos: “Acreditamos que os números do segundo trimestre, em algum nível, mostram a fragilidade da tese de investimento otimista, baseada na noção de que o banco vai encontrar maneiras de entregar bons resultados continuamente em diferentes mercados”.

Quem investe no BTG sabe que corre riscos elevados. “Essa é uma atividade de incertezas”, diz um gestor responsável por fundos que possuem uma das mais relevantes posições em papéis do banco. Para ele, apostar no BTG é, em certa medida, confiar no bom senso e no histórico do seu fundador. Esteves tem menos de 45 anos, um banco que vale R$ 26 bilhões em bolsa e muita sede de novas operações. “Seu mérito foi montar uma equipe de profissionais altamente qualificados, que dão segurança ao mercado, e saber lidar com ela”, ressalta. Continuar ganhando com a diversificação das encrencas é o desafio para o longo prazo.


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