E o gestor levou

Casos de debandada de cotistas após saída de líderes provam que currículos de sucesso são a âncora comercial de uma empresa de investimento

Gestão de Recursos/Reportagem/Temas/Edição 108 / 1 de agosto de 2012
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Durante a assembleia da Berkshire Hathaway, em maio passado, o assunto voltou à tona. Warren Buffett, presidente-executivo da companhia, ainda não revelou quem o sucederá no cargo. Aos 81 anos e portador de um câncer na próstata, Buffett foi evasivo. Nada de divulgar o nome do eleito, a despeito de ele já estar definido, ao menos conforme a carta aos acionistas de fevereiro de 2012. Buffett apenas declarou que o futuro da companhia estará nas mãos de alguém que, embora não tenha as mesmas qualidades dele, certamente trará outros talentos. Nos dias seguintes ao encontro, a ação com mais liquidez da Berkshire Hathaway subiu ligeiramente — de US$ 80 para US$ 82. Do alto de seus US$ 200 bilhões em valor de mercado, a empresa de investimentos de Buffett é o exemplo singular de um elemento essencial no modelo de negócio das gestoras de recursos mundo afora: a figura do líder. Histórias de assets no Brasil também mostram que, quando a principal cabeça de uma asset se vai, investidores tendem a ir atrás.

Mesmo com a conjuntura favorável para a atração de clientes, como queda na taxa básica de juros e novas regras para a poupança, algumas gestoras sofreram em demasia com a saída de profissionais nos últimos trimestres. Uns montaram suas próprias empresas, outros foram acolhidos pela concorrência, e, em todos os casos, a movimentação foi acompanhada pelas partes interessadas. O tumulto mais citado por consultores que observam e selecionam carteiras de diferentes origens é o do grupo BBM. Nos últimos anos, as trocas de comando na gestão de renda variável foram frequentes. A mais recente foi a saída de Leonardo Linhares, em junho. Antes dele, durante o segundo trimestre de 2010, a BBM Investimentos perdeu Rodrigo Xavier e Daniel Schneider, que logo em seguida fundaram a casa de investimentos SPX. De acordo com informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entre 11 de junho de 2010 e 13 de setembro do mesmo ano, o patrimônio do fundo BBM Gauss, o principal da empresa até então, definhou. Foi de R$ 1,2 bilhão para R$ 334 milhões — e a queda também foi sentida no número de cotistas, que encolheu de 737 para 373. Em 12 de julho de 2012, os cotistas eram 124, e o patrimônio do fundo somava R$ 82,4 milhões. Atualmente, o maior fundo da BBM é o Bahia, com R$ 138 milhões em seu patrimônio líquido. Para a BBM Investimentos, a relação entre a perda de capital humano e de patrimônio é direta, no primeiro momento. Mas as mudanças são tratadas com aparente naturalidade pela gestora. “A preocupação da casa é continuar dando resultado, pois assim os investidores voltarão”, afirmou a BBM em nota.

“Controle de risco, processo de decisão e composição da equipe são aspectos que nos permitem olhar para o futuro”

SEGUINDO PASSOS — Nem todas as partidas se tornam conhecidas. Ainda que seja de bom tom avisar o mercado sobre a saída de um profissional, a comunicação não é obrigatória. Distribuidores, agentes autônomos, assessores de investimentos e participantes do mercado em geral encaram a ronda pelas gestoras como parte inerente ao trabalho. “Tenho de saber, inclusive, quando um gestor sai de férias”, conta George Wachsmann, sócio da gestora de patrimônio independente Bawm. O executivo recorda outra saída traumática, que abalou o patrimônio da BRZ. Em fevereiro de 2011, a área de ações da firma perdeu André Lion, que marchou rumo à então recém-criada Ibiuna. Os cotistas do fundo gerido por Lion — o BRZ Long Short Advanced —, que eram 450 em março, passaram a apenas 101, no fim de junho do ano passado. Quem foi levou cerca de 90% do patrimônio que, no mesmo período, recuou de R$ 404 milhões para R$ 43 milhões. De acordo com a CVM, em apenas um dia — o 24 de março de 2011 —, houve saques da ordem de R$ 101 milhões. Enquanto isso, a carteira mais robusta da nova gestora de Lion, o Ibiuna Hedge, saiu de R$ 140 milhões, em março de 2011, para R$ 655 milhões, no fim de maio de 2012.

“Havia muita confiança na pessoa e pouca na BRZ. O mais curioso, entretanto, ocorreu nos últimos meses”, revela Wachsmann. Desde o início do ano, o patrimônio do fundo da BRZ cresceu mais de 200%, chegando a R$ 163 milhões em meados de julho. O número de cotistas também se recuperou, alcançando a quantia de 342 no mesmo período. Isso aconteceu, segundo o gestor, porque a BRZ entregou resultado. O excesso de retorno em relação ao CDI do BRZ Long Short estava em 3,7% no começo de junho, bem melhor do que o resultado em abril de 2011, quando o mesmo indicador era negativo em 1,7%. “Nesse caso específico, a movimentação do gestor (para a Ibiuna) acabou por aumentar as opções para o investidor, porque a BRZ conseguiu caminhar com a equipe remanescente.”

Não é a primeira vez que uma firma de investimentos mostra ser capaz de reverter o impacto provocado por um gestor-chave. No começo de 2008, a Squadra Investimentos foi lançada com foco em renda variável. Nada menos do que seis dos dez nomes da equipe de gestão vieram de uma mesma asset, a JGP. No ano da quebra do Lehman Brothers, foi inevitável: o fundo mais importante da JGP na época, o JGP Hedge, que chegou a ter R$ 1 bilhão de patrimônio em julho de 2007, perdeu tamanho e terminou 2008 com R$ 430 milhões administrados. Hoje, a carteira tem R$ 210 milhões (deixou de ser a maior da casa), enquanto o fundo mais parrudo da Squadra, o Long Biased, cuida de cerca de R$ 960 milhões.

Analisar o resultado passado é a esfera quantitativa do processo de avaliação de uma gestora, ensina Rodrigo Menon, sócio da empresa de agentes autônomos Beta Advisors. “A parte qualitativa, entretanto, é a mais importante. Controle de risco, processo de decisão e composição da equipe são aspectos que nos permitem olhar para o futuro”, comenta.

VALORES INTANGÍVEIS — Nos seus sete anos no comando da Bawm, Wachsmann concluiu que a gestão de recursos vai além da técnica: existe uma porção de “arte” no processo. “Há casos de casas ótimas, com gente de qualidade, que não dão certo. Pessoas são complexas”, resume. Um gestor bem-sucedido pode, afinal, não ter o mesmo êxito ao se tornar empresário.

“O problema maior não é a saída de um gestor, mas a pressa do investidor em mover o investimento”

Daniel Ávila, sócio da assessoria de investimentos Endowments do Brasil, diz que se interessou, no início de 2011, pela reabertura para captação do fundo Quest Equity Hedge, o maior da gestora do ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros. “Pouco tempo depois, o gestor de renda variável (Fabio Spinola) saiu. A qualidade do fundo não se manteve”, lembra Ávila, criador do site comparacaodefundos.com. Walter Maciel, sócio da Quest, ressalta que a perda do gestor já foi superada com a contratação de outro profissional — Alexandre Silvério, que traz no currículo passagens pela gestora Gap e pelo Santander. “O mercado de gestão de recursos é fluido. O problema maior não é a saída de um gestor, mas a pressa do investidor em mover o investimento”, explica Maciel.

Conforme dados da ferramenta de Ávila, porém, o patrimônio do Quest Equity Hedge era de R$ 400 milhões em julho do ano passado, mais que o dobro dos R$ 167 milhões registrados no último dia 11 de julho. Em junho de 2012, o retorno em relação ao CDI foi negativo em 1,5%, ante 3,36% positivos em junho de 2011. Foi nessa época que Fabio Spinola, gestor de renda variável com mais de 20 anos de experiência, dos quais cinco somente na Quest, se despediu do grupo. “A Quest, desde o início, era uma gestora de fundos macro, até pela figura do Mendonça de Barros. Com o Spinola, seu patrimônio cresceu muito nos fundos de renda variável. Claramente, o talento do gestor foi o responsável pelo sucesso comercial durante aquele período”, esclarece Wachsmann. Os feitos de Spinola foram, inclusive, reconhecidos pelos ex-patrões em comunicado emitido ao público à época.

Em dezembro de 2011, o gestor inaugurou a Apex Capital com outros sete sócios e um patrimônio de apenas R$ 4 milhões, oriundos dos próprios fundadores. No fim de maio, o volume investido pelo maior dos dois fundos da asset, o multimercado Apex Equity Hedge, chegou a R$ 400 milhões. Já o patrimônio total sob a responsabilidade da Apex, que inclui o do fundo puro de ações, alcançou R$ 650 milhões em apenas seis meses de vida. O termo Apex pode ser traduzido do inglês como ápice. “É o que almejamos”, pontua Spinola. Em bom português, os gestores da Apex têm como objetivo trazer resultados a partir do que possuem de mais valioso: a capacidade intelectual da equipe. “O volume de informações (sobre as empresas e o mercado) é grande e acessível para todos. Digeri-las é o diferencial”, considera o sócio Diney Vargas, que passou por gestoras internacionais como a do banco norte-americano Merrill Lynch. A Apex espera lançar, até o fim do ano, mais um fundo de investimento em ações.

Para criar a empresa, entre agosto e novembro de 2011, os sócios da Apex se reuniram com mais de 200 pessoas, entre agentes autônomos, gestores de fortunas, grandes alocadores (como os bancos de varejo) e distribuidores. “São esses profissionais que fazem o patrimônio circular, e é nessas reuniões que parte importante do patrimônio é conquistada”, acredita Menon, da Beta Advisors. O exemplo mais agudo do poder da rede de relacionamentos é a Gávea Investimentos. Capitaneada por Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, a gestora pode se orgulhar de ter um dos profissionais mais bem quistos pelos investidores — uma marca comercial difícil de ser superada. “Mas os resultados das carteiras da Gávea nunca foram destaque na indústria”, pondera Wachsmann. Mesmo assim, a Gávea sempre captou bem. Ainda por cima, teve 55% de seu capital social adquirido por uma empresa de gestão controlada pelo J.P. Morgan, em 2010. Entre as seis carteiras de ações e multimercados da grife, a mais rentável nos últimos 12 meses — até o fim de junho — ofereceu ganhos de 9,06% ao cotista, em termos absolutos.

Um paradigma de sucesso é o fundo Verde, da gestora Credit Suisse Hedging Griffo (CSHG). Criado na década de 1990, passou por crises econômicas diversas e momentos de euforia — que levaram alguns à bancarrota —, mas manteve retornos positivos. O site comparacaodefundos.com acompanha ao menos 12 fundos que carregam no nome alguma alusão ao CSHG Verde. Santander e Itaú, por exemplo, oferecem carteiras que compram cotas do fundo. Tão intensa quanto os elogios, entretanto, é a apreensão em relação ao futuro da carteira. De acordo com declarações do gestor Luis Stuhlberger, atuante desde 1981 e um dos mais respeitados no ramo, cerca de 6 mil famílias dependem do seu trabalho. Aos olhos do mercado, ainda não há um plano de sucessão claro no CSHG Verde. “Parte dos cerca de R$ 10 bilhões comandados por Stuhlberger provavelmente se movimentará pelo mercado quando ele se aposentar”, aposta Wachsmann. A CSHG não atendeu ao pedido de entrevista.


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