Conhece a DVA? Ela pode ajudar a entender a evolução da riqueza dos japoneses

Contabilidade e Auditoria / Seletas / Colunistas / Edição 58 / 25 de novembro de 2016
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Eliseu Padilha*

Eliseu Martins*

Reportagem recentemente publicada na imprensa procurou mostrar por que, na média, a qualidade de vida dos japoneses continuou a melhorar nos últimos anos apesar de o PIB do Japão praticamente não crescer. O texto explicou que o PIB apenas mede o que se produz, internamente, em bens e serviços; não leva em conta o fato de os capitais financeiro, material, humano e intelectual aplicados no exterior encaminharem renda para dentro do país. É a renda total que interessa — ela é que é distribuída na ponta final para as pessoas, parte em troca de trabalho e parte sob a forma de juros e lucros. E isso vem fazendo a diferença no Japão.

Se a contabilidade nacional japonesa (e a de outros países também) mostrasse isso mais claramente, como faz a DVA (demonstração do valor adicionado) —obrigatoriamente divulgada pelas nossas companhias abertas —, a explicação para a aparente contradição japonesa já teria se apresentado há muito mais tempo.

A DVA brasileira mede o PIB gerado pela companhia¹, mas agrega a ele o valor adicionado produzido por terceiros e para ela transferido por meio de juros, royalties, aluguéis e que tais. Assim, o valor adicionado total inclui o que a empresa mesma produz e o que recebe em transferências de terceiros.

No entanto, nossa DVA vai um pouco além. Ela trabalha com o PIB como ponto de partida, mas depois passa a trabalhar com o PIL (produto interno líquido), ao deduzir do PIB o quanto da riqueza produzida pela entidade é meramente para reposição do estoque de riqueza perdido no período por meio de depreciações, amortizações e impairments (igualmente baixas de ativos por perdas de valor). É a soma do valor adicionado líquido produzido pela empresa com o recebido de terceiros que ela distribui, das quatro formas conhecidas: recursos humanos, tributos, juros (mais aluguéis, royalties, direitos de franquia etc) e lucro dos proprietários.

Apenas a título de curiosidade, pegando-se as 25 empresas finalistas do Prêmio Transparência Anefac–Fipecafi–Serasa deste ano, excluída a Vale (pelo tamanho e por anomalia em função de um impairment muito elevado), verifica-se que o valor adicionado total recebido de terceiros praticamente se igualou ao valor de depreciações, amortizações e impairment. Ou seja, o valor adicionado bruto produzido ficou praticamente intacto, à disposição da entidade, embora com grandes variações. Uma empresa recebeu de terceiros um valor igual a quatro vezes o que perdeu de estoque de capital; outra, oito vezes; duas só conseguiram receber o equivalente a um quarto do estoque de capital perdido.

Talvez mais interessante, entretanto, seja a relação entre o valor adicionado recebido de terceiros e o valor adicionado produzido pela própria entidade. Na média, o valor adicionado recebido foi equivalente a 17% do valor adicionado produzido pelo conjunto das próprias entidades. Mas houve quem tivesse recebido um montante igual a oito vezes o valor produzido pela própria entidade (e não foi banco…). Quatro empresas apresentaram valor adicionado recebido inferior a 5% do produzido internamente. O valor adicionado bruto (PIB) correspondeu, para essas 24 companhias, a 55% da receita bruta e a 30% do valor contábil total dos ativos.

Do valor adicionado líquido total à disposição dessas empresas, 17% foram destinados aos recursos humanos, 42% aos governos (sic), 23% aos financiadores e proprietários de imóveis e tecnologia (sic também, porque quase tudo corresponde a juros) e 18% aos proprietários. Essa distribuição da riqueza é uma lástima! Ou estou enganado?

Assim, vale muito a pena olhar as DVAs. Seria bom utilizarmos essa versão tupiniquim para complementar o que as contas nacionais dizem, e assim entender certas coisas que ocorrem desde o nível de uma empresa até o patamar de um país, como no caso do Japão.

¹Na verdade, há alguma diferença temporal, já que na economia se mede o valor adicionado à base da produção dos bens e serviços e, na contabilidade, a maior parte é registrada na ocasião da venda.


*Eliseu Martins (prof.eliseu.martins@gmail.com) é professor emérito da FEA-USP e da FEA/RP-USP, consultor e parecerista na área contábil



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Tags:  Contabilidade Japão eliseu martins riqueza japonesa DVA

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