Perdas e ganhos

As companhias que foram muito bem e aquelas que decepcionaram os investidores na primeira década do segmento premium

Governança Corporativa / Edições / Temas / Reportagem / 10 anos de Novo Mercado / 1 de Abril de 2012
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Um dos maiores grupos privados de infraestrutura da América Latina, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR) é comumente lembrada por ter sido a primeira a fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) no Novo Mercado. O que pouca gente sabe é que quem apostou nesse pioneirismo se deu muito bem. Dentre as 125 empresas listadas no segmento, a CCR aparece como a que mais bem remunerou seus acionistas. De 1° de fevereiro de 2002 a 19 de março de 2012, os papéis da concessionária subiram 1.927,2%. Nem todas as companhias listadas no Novo Mercado, porém, proporcionaram a mesma alegria aos seus investidores. Existem também decepções, ocasionadas pelos mais diversos motivos. Nesta reportagem, uma seleção de histórias do Novo Mercado que deixam boas e más lembranças.

OUSADIA QUE VALEU A PENA — Quando a CCR fez seu IPO no Novo Mercado, as indicações de que tudo daria certo para a companhia e seus investidores estavam longe de ser evidentes. Muito pelo contrário, tudo parecia conspirar contra o sucesso. O início da oferta foi penoso. A empresa pretendia captar R$ 350 milhões, mas a demanda revelou–se inferior à esperada. “Os controladores tiveram de adquirir os papéis que não encontraram interessados”, relembra Arthur Piotto Filho, diretor de relações com investidores da CCR. O ano em que a concessionária decidiu fazer o IPO também não ajudou. Em 2001 e 2002, um forte movimento de aversão a risco atingiu o mercado de capitais, gerado pela moratória da Argentina, pelo estouro da bolha da internet e pela possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva ser eleito presidente. Tudo isso colaborou para as ações da CCR, vendidas a R$ 18 no IPO, caírem para a mínima de R$ 5,40 em 25 de outubro de 2002. Apesar de a companhia estar listada no segmento da Bolsa com melhores práticas de governança, sua gestão era vista com ceticismo. A concessionária era controlada por construtoras de capital fechado, e o mercado temia os potenciais conflitos de interesses que surgiriam dessa relação. Para dissipar as desconfianças, a CCR apostou numa comunicação transparente. Tornou–se a primeira empresa brasileira a instituir um comitê de governança, cuja principal função é avaliar o desempenho dos membros do conselho de administração. Iniciou, paralelamente, um trabalho para ampliar a cobertura de suas ações. Foi contratado um market maker para aumentar a liquidez dos papéis. O farto pagamento de dividendos — atualmente, o dividend yield da companhia está entre 3% e 4% — também fez brilhar os olhos dos investidores.

As iniciativas contribuíram para o bom desempenho das ações. Mas a alta de todo o período, segundo Piotto, é consequência, principalmente, de dois outros fatores: os bons resultados da companhia e o interesse dos investidores por empresas do setor de infraestrutura, cujo faturamento deve aumentar na esteira de grandes eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada. “Surfamos na onda da infraestrutura”, admite o executivo. A CCR não foi a única agraciada. Companhias como OHL e Sabesp, listadas no Novo Mercado, também se beneficiaram dos bons ventos dos investimentos em infraestrutura (veja a lista completa com as valorizações na página 23).

A CCR é a empresa do Novo Mercado que mais bem remunerou seus acionistas. Desde o IPO, teve alta de 1.927,2%

DENTRO DE CASA — Ações de empresas do Novo Mercado voltadas ao consumo doméstico e ao varejo, como é o caso de Hering, Lojas Renner, Natura e Eternit, também se destacam. “A crise externa de 2008 fez com que os investidores percebessem o valor das companhias voltadas para o mercado interno, que ainda se beneficiam da ascensão da classe C”, afirma Clodoir Vieira, chefe do departamento de análise da corretora Souza Barros. No setor de varejo, as ações que mais subiram foram as da Companhia Hering e da Lojas Renner, com uma alta de 1.538,3% e 901,8%, respectivamente, desde a estreia no Novo Mercado até 19 de março de 2012. Outro ponto a favor dessas empresas é o desempenho consistente da última linha do balanço, sustentado por uma administração competente. No caso da Lojas Renner, os processos de gestão estão integrados ao sistema de governança corporativa. No dia a dia, quatro comitês de gestão — voltados a prevenção de perdas, real state, ética empresarial e executivo — apoiam as decisões da diretoria, com foco no aproveitamento de oportunidades e gerenciamento dos riscos do negócio. “Lojas Renner e Hering entregaram, ano após ano, os resultados que acenaram para os investidores”, ressalta o analista Renato Prado, da Fator Corretora.

Quem comprou as ações da Eternit, listada em Bolsa desde 1948, também não tem do que reclamar. A companhia migrou para o Nível 2 da BM&FBovespa em 2005 e, em 2006, chegou ao Novo Mercado. Desde a entrada no segmento até 19 de março de 2012, as ações da Eternit tiveram alta de 271,3%. A empresa, que produzia de telhas de amianto — insumo que convive permanentemente com a ameaça de ser banido no Brasil —, diversificou sua atuação e passou a trabalhar também no ramo de louças sanitárias. A mudança, aliada a um aumento da capacidade de produção de fibrocimento, mais que dobrou o faturamento bruto da companhia, catapultando–o de R$ 432 milhões em 2004 para R$ 991 milhões em 2010.

Rodrigo Luz, assessor de relações com investidores da Eternit, atribui o bom desempenho dos papéis ao crescimento da empresa e à política de distribuição de proventos, bastante generosa. A Eternit distribuiu, nos últimos quatro anos, 80% do seu lucro líquido na forma de dividendos e de juros sobre capital próprio. “As pessoas físicas representam 60% da nossa base acionária. Elas buscam nossos papéis como complemento de renda”, diz.

NO VERMELHO — Em contraposição, as ações de algumas companhias valem menos atualmente do que o preço estabelecido em suas estreias no pregão. Um dos casos mais chamativos é o da Vanguarda Agro, ex–Brasil Ecodiesel. Seus papéis caíram 94,8% desde a listagem em Bolsa, em novembro de 2006, até 19 de março de 2012. Os investidores ficaram cada vez mais insatisfeitos com a companhia, que lutava para equacionar uma série de problemas operacionais e administrativos. A Vanguarda Agro enfrentou dificuldades até mesmo para vender seu produto nos leilões de biodiesel da Agência Nacional do Petróleo, devido à perda de um selo concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Ano passado, os papéis sofreram com o desentendimento entre os principais sócios da Brasil Ecodiesel. A causa da contenda era a incorporação da Vanguarda do Brasil, que, no fim, acabou sendo concluída, dando origem à atual Vanguarda Agro. Essa era a chance de a empresa experimentar uma nova fase, mas alguns tropeços vieram. Em dezembro de 2011, um conselheiro fiscal da companhia denunciou que importantes acionistas transacionaram suas ações durante período de vedação à negociação.

Empresas do setor imobiliário, como Trisul, Viver e Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, também decepcionaram quem comprou suas ações no IPO. A expectativa em relação a elas era grande. O déficit habitacional brasileiro e o crescimento da economia do País pintavam de azul as perspectivas para o futuro dessas companhias. Poucas, contudo, conseguiram entregar o resultado esperado: “Muitas empresas do setor chegaram ao mercado com múltiplos muito elevados”, aponta o analista Luiz Maurício Garcia, da Bradesco Corretora.

A crise de 2008 reduziu significativamente o ritmo de vendas. Agora, são os gastos com mão de obra que atormentam o setor imobiliário. “Esse custo deve continuar pressionando as empresas”, acredita Antonio Bezerra, analista da Lopes Filho. Segundo ele, Camargo Corrêa, Trisul e Viver (antiga Inpar) enfrentam o agravante de atuar no segmento de imóveis para média e baixa renda, no qual as margens são muito apertadas. Qualquer erro no controle de custos nesses casos implica perda de dinheiro.

A Viver ainda tem um desafio extra: deixar para trás o histórico de problemas de governança da Inpar. Em 2008, com dificuldades de caixa, a empresa teve de vender ativos. A família reduziu sua participação no capital por meio da venda de ações para o fundo de private equity Paladin, que implantou um profundo processo de reestruturação financeira e organizacional.

Desvalorização do real em 2011, endividamento elevado e alta dos custos de produção foram alguns dos problemas que corroeram as margens do frigorífico Minerva, voltado ao abate e à comercialização de carne bovina. A empresa tem uma particularidade: cresce de forma orgânica (e não por aquisições) e foca a atuação em produtos de menor valor agregado, pois não trabalha com alimentos industrializados. Desde o IPO, em julho de 2007, até 19 de março deste ano, suas ações caíram 58%.



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