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Os novos contornos da emergência climática: empresas sob pressão

Às vésperas da COP 26, estudo mapeia as pressões de governos, acionistas e até mesmo dos tribunais para conduzir as economias à neutralidade de carbono
A consultoria global Brunswick mapeou as iniciativas dos governos, novos requerimentos de prestação de informação pelas empresas e cases emblemáticos de ativismo de acionistas em prol de estratégias de baixo carbono. | Imagem: Anna Beatriz Magalhães – Capital Aberto

As discussões em torno da emergência climática ganharam novos contornos ao longo de 2021: se intensificaram as pressões para que as empresas mudem seu comportamento e suas estratégias. A cobrança vem dos mercados financeiros, dos governos e dos stakeholders mundo afora, e esse cenário se consolida em meio aos preparativos para a COP 26, que será realizada em Glasgow, na Escócia, entre 1º e 12 de novembro deste ano.

Para a conferência, é esperada a consolidação das crescentes pressões dos últimos meses, tornando a agenda climática num ponto nevrálgico para as companhias e mostrando ser ainda mais fundamental que as empresas tenham uma robusta estratégia climática. A consultoria global Brunswick fez um mapeamento que mostra iniciativas dos governos, novos requerimentos de prestação de informação pelas empresas, cases emblemáticos de ativismo de acionistas em prol de estratégias de baixo carbono, atuação de tribunais, e medidas que já vêm sendo tomadas pelas organizações. 

Metas dos governos

Uma comprovação do aumento da relevância da crise climática é o fato de as maiores economias do mundo terem reforçado substancialmente suas metas relacionadas ao tema — concentradas na designação Nationally Determinated Contributions (NDCs), conjunto de ações estabelecidas para as nações alcançarem as metas do Acordo de Paris — às vésperas da COP 26. De acordo com o levantamento da Brunswick, por exemplo, os Estados Unidos passaram a trabalhar com a meta de redução entre 50% e 52% das emissões até 2030, em relação aos níveis de 2005, diminuição que no caso do Canadá agora é estimada entre 40% e 45%. A União Europeia, por sua vez, almeja um corte ainda mais ambicioso: de 55% até 2030, e com base nas emissões de 1990.

Para se ter uma ideia do que representa a meta norte-americana, para o país alcançá-la terá que acelerar os níveis atuais de redução de emissões em 5% por ano nos próximos nove anos — o equivalente a quase metade da queda registrada em 2020 por conta da paralisação da economia determinada pela pandemia.

Os países mais ricos têm, ainda, apresentado certo grau de coordenação em suas iniciativas. Em julho, reunidos em Veneza, na Itália, ministros das finanças dos membros do G20 assinaram um documento conjunto de apoio à precificação de carbono. O texto não corresponde exatamente a uma proposta de política, mas sinaliza que os governos podem começar a pensar no estabelecimento de um preço de carbono mais abrangente.

Já a União Europeia está criando uma taxa sobre importação de produtos oriundos de países com economia ainda intensiva em carbono. A expectativa é que a iniciativa, que passará a valer em 2023, arrecade cerca de 9 bilhões de euros por ano e, numa perspectiva mais ampla, incentive exportadores de produtos como minério de ferro, aço, cimento e fertilizantes a também apostarem na descarbonização.

“Os Estados Unidos passaram a trabalhar com a meta de redução entre 50% e 52% das emissões até 2030, em relação aos níveis de 2005, diminuição que no caso do Canadá agora é estimada entre 40% e 45%”

Reforço no disclosure

No que se refere especificamente às empresas, os pontos mais relevantes dessa pauta estão no aumento da exigência de prestação de informações relacionadas. O Reino Unido foi o primeiro país a passar a exigir, ainda em 2020, reportes conforme as normas da Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD). Em julho de 2021, o G7 igualmente recorreu a esses parâmetros, com o intuito de que as empresas divulguem informações periódicas referentes a tópicos como clima, governança, estratégia, gestão de riscos e métricas e metas.

De acordo com a análise da Brunswick, é nítida a intensificação das exigências quanto a coleta, reporte e auditoria de riscos relacionados ao clima. Para as empresas, essa dinâmica pode representar uma vantagem competitiva.

Essa diferenciação torna-se ainda mais relevante quando se observam casos recentes de ativismo de acionistas bem-sucedidos, também apresentados pelo estudo. Em maio, houve três substituições de membros do conselho de administração da gigante de combustíveis fósseis americana ExxonMobil por pressão de um hedge fund (o Engine nº 1) que detém apenas 0,02% das ações da companhia. Os assentos passaram a ser ocupados por conselheiros engajados no direcionamento da estratégia da companhia para operações com menos emissões de carbono. A façanha foi possível graças ao sucesso do fundo em convencer acionistas de maior peso, com destaque para a BlackRock, com base no argumento de que a atitude da empresa estaria afetando os retornos.

O grupo holandês Follow This, por sua vez, propôs uma resolução para encorajar a americana Chevron a reduzir suas emissões — a ideia angariou o apoio de outros acionistas, que votaram em peso na assembleia da companhia contra a proposta do board em direção diferente.


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Decisões da Justiça e engajamento corporativo

A agenda também chegou aos tribunais recentemente, num movimento conhecido como climate litigation. Na Alemanha, em abril, a Suprema Corte (provocada por grupos ambientalistas como Fridays for Future e Greenpeace) considerou ineficientes as medidas governamentais de proteção climática, tendo em vista a segurança das gerações futuras. Diante disso, determinou que o governo melhore até o fim de 2022 a legislação constante do Climate Protection Act, de 2019. Já nos Países Baixos, a Royal Dutch Shell foi obrigada pela Justiça local a cortar suas emissões em 45% (ante os níveis de 2019) até 2030, de forma a adaptar as suas operações aos requerimentos do Acordo de Paris — a decisão, vale destacar, ocorreu mesmo a companhia não sendo signatária do acordo.

Não por acaso, tem crescido a quantidade de companhias comprometidas em alinhar seus negócios ao conceito de neutralidade de carbono (net zero) conforme metas baseadas na ciência. Cerca de 1.600 do mundo já aderiram, segundo a Brunswick, sendo 660 apenas em 2021 — o que corresponde a uma vez e meia as adesões de 2020. Para a COP 26, foi lançado em abril a Financial Alliance for Net Zero, que agrupa empresas do setor financeiro (bancos, assets e seguradoras) em torno da ideia de que é necessário “subir a régua” das iniciativas climáticas quando se trata de concessão de recursos e aportes. No início, a aliança contava com instituições com 22,5 trilhões de dólares sob gestão, mas as adesões posteriores elevaram o montante para 43 trilhões de dólares. Um sinal de que as pressões para o enfrentamento da emergência climática têm surtido um efeito positivo para o alcance da tão necessária neutralidade de carbono.

Senso de urgência

A Brunswick aponta que a convergência desses fatores aumenta ainda mais o olhar crítico sobre as ações e metas que as companhias estabelecem como parte de seu plano para atingir a neutralidade de carbono. E essa cobrança deve ficar especialmente mais acentuada  após o novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicado recentemente, que deverá ser o ponto central das negociações da COP 26. De acordo com o IPCC, estamos olhando para uma pequena janela de oportunidade para reverter o aumento da temperatura da Terra para além de 1,5ºC até o fim do século. Isso significa, de acordo com especialistas, que vamos precisar de medidas drásticas daqui para frente, em uma coordenação entre governos e companhias, para que o tempo não se esgote.

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