Vitrine na Europa

Latibex cria novo índice de ações para atrair investidores e, apesar da pouca liquidez, se consolida como uma oportunidade de exposição a baixo custo no continente europeu

Captação de recursos/Edição 7/Reportagem/Temas / 1 de março de 2004
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Imagine juntar, em um mesmo índice, ações da Teléfonos de México (Telmex), maior telefônica da América Latina, do Bradesco, o maior banco privado da região, e da Petrobras, a estatal mais rentável do continente. Essa é a nova estratégia do Latibex – divisão da bolsa de Madri que negocia ações de empresas latino-americanas – para chamar a atenção de investidores e, conseqüentemente, aumentar a liquidez das ações lá listadas.

As três empresas acima, e mais outras 12, entre brasileiras, mexicanas e chilenas, formam o FTSE Latibex Top, índice de referência para operações no mercado futuro lançado no dia 23 de fevereiro que reúne as empresas mais líquidas entre as 27 que hoje negociam suas ações no Latibex. “Não havia produto similar a este, em nenhum lugar do mundo, que cobrisse a América Latina”, afirma Jesús González Nieto, diretor de coordenação do Latibex. Depois de atrair empresas para o mercado espanhol, esse é o segundo passo de uma estratégia desenhada para captar novos investidores. “É uma forma de trazermos os institucionais e também os pequenos.”

A principal vantagem do novo índice futuro é o fato de ser mais pulverizado em sua composição, o que permite aos investidores replicá-lo com mais eficiência no mercado à vista. Na Espanha, os fundos de investimentos estão impedidos de investir mais de 10% do seu patrimônio em um mesmo ativo, o que diminui a atratividade do principal índice do Latibex utilizado como base para derivativos, o FTSE All Shares. “Hoje no FTSE All Shares há ações que pesam 20% (caso da America Movil) e que, portanto, não poderiam ser replicadas com exatidão”, afirma Jonas González, gestor de carteiras de fundos para a América Latina do Renta 4, localizado em Madri. A mudança, avalia, atrairá novos gestores de carteiras europeus. O Société Générale será o primeiro emissor de opções de compra referenciadas no novo índice.

O Latibex não é uma bolsa de valores, mas um mercado de balcão organizado. Criado em dezembro de 1999, vem se esforçando para se tornar reconhecido na Europa. Para isso, tratou de reunir as ações de maior liquidez da América Latina. De certa forma, acredita González, atingiu seu objetivo. A prova seria a repercussão conseguida com a 5ª edição do Foro Latibex, realizado na capital espanhola em novembro passado. O evento contou com cerca de 400 executivos, investidores e intermediadores e foi mais movimentado que o Brazil Day, fórum realizado por companhias emissoras de ADRs dois dias antes em Nova York.

O interesse despertado pelo Latibex pode ser exinternacional plicado por seu bom desempenho em 2003: uma valorização de 64,6%, puxada em grande parte pelas ações de companhias brasileiras. Essas, aliás, têm sido o grande destaque do mercado espanhol. Das 27 ações listadas atualmente, 17 são de brasileiras. O México, segundo colocado na lista, vem muito atrás. Com apenas quatro empresas listadas, praticamente empata com o terceiro colocado, o Chile. Cerca de 54% do volume financeiro do Latibex é resultado da performance de ativos brasileiros.

BOA EXPOSIÇÃO E BAIXA LIQUIDEZ – Fica clara a importância do Brasil para o Latibex. A recíproca, contudo, não é verdadeira, pelo menos por enquanto. Apesar dos bons ventos que sopram a seu favor, o Latibex ainda representa um mercado muito pequeno. O volume médio diário de negócios em 2003 foi de US$ 1,7 milhão. Na Bovespa, esse número superou os US$ 220 milhões. Em Nova York, os ADRs de empresas latinoamericanas movimentaram diariamente US$ 154 milhões em média.

Nas primeiras semanas de 2004, apenas três companhias – Bradespar, Endesa e Banco de Chile – atingiram no Latibex mais de 5% do que movimentaram com suas ações no mercado local. As demais não superam 2% (ver quadro). A única exceção foram as ações ordinárias da Bradespar. Por negociarem baixos volumes também no Brasil, atingiram no Latibex 61% do movimento no mercado local.

Mas se não há liquidez em Madri, o que faz com que as empresas decidam participar desse mercado?

Para a Braskem, o que importa não é o volume de negócios. “Queremos ganhar presença no mercado europeu”, afirma José Marcos Treiger, diretor de relações com investidores da companhia. Num primeiro momento, afirma, a empresa não busca liquidez, mas sim a atenção de analistas e investidores institucionais europeus.

Novo índice visa atrair investidores para o mercado de empresas latino-americanas

O papel do Latibex como porta de entrada para a Europa é praticamente consenso entre as empresas listadas. “Temos uma forma de mostrar o banco lá fora”, explica Aníbal César Jesus dos Santos, diretor-presidente da Bradesco Corretora. “Principalmente pelo banco ter como sócios o (espanhol) BBV e o (português) Espírito Santo, não poderia ficar fora desse mercado”, comenta.

Para a Petrobras, a visibilidade no mercado europeu favorece a avaliação de risco da companhia e facilita suas iniciativas na região. Segundo informações da área de relações com investidores da companhia, a transparência em mercados estrangeiros contribuem para reduzir o risco da empresa, que inclusive já supera o risco-país.

João Nogueira, diretor de relações com investidores da Suzano Holding, também deixa claro que liquidez é o que ele menos procura em Madri. “Estar no Latibex não resultaria em benefício econômico”, comenta. Além de dar apoio à iniciativa regional, a Suzano acredita que a bolsa seja a porta para inserir o nome da companhia entre os investidores europeus e para tornar a empresa mais conhecida na região. Um passo importante e estratégico, uma vez que a Europa é o principal destino das exportações da companhia. Do total das vendas externas em 2003, 37% desembarcaram no continente europeu, 28% foram para a Ásia, 20% para a América do Norte e o restante para a América Latina. “É uma semente para o futuro”, afirma.

A Suzano Petroquímica e a Suzano Papel e Celulose são as únicas das 17 empresas brasileiras listadas no Latibex que não possuem ADRs na Bolsa de Nova York. Nogueira diz que a escolha tem uma razão bastante simples, totalmente relacionada à estratégia do grupo para o mercado de capitais: transformar suas ações em papéis de elevada liquidez no mercado doméstico. Partir para um lançamento de ADRs, ao contrário, resultaria em aumento de custo e segregação da liquidez. “Não seríamos uma blue chip nem lá e nem aqui”, compara.

BAIXO CUSTO E FACILIDADES OPERACIONAIS – Os custos são outro importante atrativo do Latibex. O mercado espanhol aceita os números da contabilidade brasileira, o que dispensa as companhias de preparar um balanço específico para atender às normas da região. Além disso, um acordo operacional entre a Bovespa e a Bolsa de Madri favorece a listagem naquele mer cado. A bolsa paulista se incumbe de enviar informações das companhias brasileiras para a Espanha e a bolsa espanhola promete fazer o mesmo. “É um convênio de troca de informações”, explica Sérgio Luiz de Cerqueira Silva, gerente de projetos e assessoria econômica da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Por enquanto, companhias não se preocupam em ter liquidez, mas em ser conhecidas dos europeus

Por conta do acordo com a Bovespa, as companhias brasileiras também não precisam se preocupar com a contratação de um banco depositário. O único custo é com o formador de mercado, o chamado market maker. A despesa de contratação de uma corretora para exercer tal atividade varia bastante, mas um cálculo-base seria o dobro da soma da taxa de operação do Latibex (6 euros por operação) com a taxa de emolumento (0,02%). O mesmo não acontece com a Bolsa de Nova York, que exige das empresas estrangeiras adaptação às regras contábeis norte-americanas e contratação de um banco depositário.

As facilidades de negociação no Latibex explicam o fato de as empresas brasileiras serem mais numerosas nesse mercado. Companhias de outros países latinos precisam contratar um banco depositário, o que encarece a adesão. A taxa de emolumento também é atrativa em Madri. Corresponde a 0,02% sobre a transação, ante 0,038% na Bovespa. Em Nova York, a taxa está relacionada ao total de ações transacionadas. Custo que ultrapassa o Latibex, mas fica abaixo da Bovespa.

MAIS INTERESSE DOS EUROPEUS POR AÇÕES – Para que o mercado latino na Espanha realmente deslanche, contudo, é importante ajustar a outra ponta, na qual estão os investidores. Treiger, da Braskem, observa que há um crescimento significativo da capacidade do Latibex de atrair investidores institucionais do Reino Unido. No continente europeu, avalia, começa a ser desenvolvida a cultura do investimento em ações e, ainda que lentamente, investidores começam a sair dos bônus para aplicar em papéis de renda variável.

González, do Latibex, também afirma que o mercado latino vem despertando o interesse de investidores institucionais. Algumas motivações para esse movimento foram o bom desempenho das empresas brasileiras em 2003 e a qualidade das companhias que compõem esse mercado. Para os europeus, negociar ações de empresas latinas no Latibex também é mais barato do que adquirir ADRs em Nova York. Há economia na intermediação, custódia, troca de divisas e nos custos de administração.

Mas o principal inconveniente continua sendo a liquidez. Entre 90% e 95% dos ativos do Latibex estão nas mãos dos market makers que, por concentrarem os papéis, acabam dificultando as operações ao invés de promovê- las. Investidores também sentem falta de mais ações representativas em seus mercados locais, como as de companhias de telecomunicações no Brasil.

A APOSTA DOS BRASILEIROS – Mesmo sem liquidez, o Latibex continua sendo alvo do investimento de brasileiros, e não apenas das companhias. Em setembro passado, a Corretora Bradesco se tornou a primeira latino-americana a se instalar em Madri e ter acesso ao Latibex. E planeja mais. “Queremos ser especialistas em Madri”, comenta Aníbal César Jesus dos Santos, diretor-presidente da Bradesco Corretora.

Segundo Santos, o fator decisivo para que decidissem se instalar na Espanha foi o potencial de crescimento do Latibex. “É o mesmo potencial de crescimento europeu”, compara. Seu objetivo é ser um market maker para os papéis brasileiros lá listados e não apenas para as ações do Bradesco. Em breve, outra corretora latina, a do Banco de Chile, começará a atuar no Latibex.

As companhias também se preparam para usufruir da vitrine européia e organizam o primeiro Brazil Day em Madri, que poderá ser realizado ainda no primeiro semestre. Enquanto liquidez não é mesmo o forte do mercado espanhol, vale tudo para ver e ser visto no velho continente.


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