Uma vida de fusões

Marcelo Giufrida

Bimestral / Relações com Investidores / Temas / Retrato / Edição 91 / 1 de março de 2011
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O assunto era física quântica, mas a maioria dos alunos inscritos no curso fora atraída por aspectos filosóficos e modismos em torno do tema. Não Marcelo Giufrida. O presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), fascinado por física desde que era um garoto devorador de livros de ficção científica, acabou sendo dos poucos a acompanhar com facilidade as aulas. “Sempre fui meio nerd. Lia até bula de remédio”, brinca, explicando como deu conta de um volume didático de química dois anos antes de o material ser adotado pelo colégio, em Santos. Na Casa do Saber, confortável na condição de quem era capaz de diferenciar força de energia e velocidade de aceleração, ele pôde usufruir tranquilamente dos aspectos humanos e das histórias envolvendo Einstein, um de seus ídolos. Não parecia, mas Giufrida estava no lugar certo.

Foi com a aparência de peixe fora d’água, ou de bicho longe do mato, como prefere, que Marcelo Giufrida chegou a São Paulo para estudar na Escola Politécnica da USP. “Eu era muito caipira”, diz, lembrando uma rivalidade entre estudantes santistas e paulistanos, que não se misturavam naquela época. Da mesma maneira, a formação em engenharia de produção não aparentava ser a mais adequada para a carreira em bancos de investimento, não fosse a habilidade numérica dos engenheiros estar em alta no mercado financeiro, às voltas com hiperinflação e planos econômicos nos anos 1980.

Em pouco tempo, Giufrida assumiria cargos de liderança e responsabilidades — primeiro no banco CCF Brasil e depois no BNP Paribas — improváveis para quem se considerava um universitário caipira. Essas imagens são ainda mais estranhas para quem o vê rodeado, hoje, por seu staff na presidência da Anbima. Apesar do constrangimento em falar de si próprio, e cercado por dois assessores, ele responde sobre o seu maior orgulho: “Ter feito uma carreira sem ninguém da família no mercado, construindo a minha própria rede de relacionamentos”, e completa: “Também me orgulho do lado político, de ter conquistado o mérito de representar meus pares.”

Não havia indícios de habilidade política em seu passado, ele garante. Era tímido, passava longe do grêmio estudantil, “não era da patota”. No entanto, quando começaram as articulações para unir duas importantes associações dos mercados financeiro e de capitais, em 2009, Giufrida, como presidente de uma delas, se revelaria a pessoa certa para conduzir o delicado processo de fusão. “Demorei a perceber que fazia política. Quando entrei para os comitês da Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento), achava que aquilo era ‘business intelligence’, que estava ali para entender os movimentos do mercado e ouvir pessoas mais experientes. Mas quando vi estava contribuindo com a minha visão, entrando nas discussões.”

Aos 48 anos, Giufrida pode comemorar os resultados da fusão entre as duas entidades: “Já ultrapassamos a fase de não ser mais Anbid nem Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro). Agora temos que enraizar os valores desta outra associação, que é uma terceira coisa, e deixá-los mais sólidos”. Muito de seu sucesso nessa condução pode ser atribuído à precoce experiência que teve à frente de outra integração, quando tinha apenas 30 anos e o CCF adquiriu o banco de Montreal. Na área que liderava, de asset management, o Montreal tinha porte maior que o CCF no Brasil, ou seja, ali haveria mais perdas se a integração não fosse bem feita. “Foi um grande desafio”, afirma.

“Uma fusão nunca é um processo indolor, sem atritos. A criação da Anbima foi parecida no sentido de que também havia uma sede no Rio e outra em São Paulo, e as culturas eram bastante diferentes.”

Adepto da gestão pelo consenso (“não gosto de conflito”), Giufrida acredita que a formação de seu estilo de liderança se beneficiou da coincidência entre a carreira em ascensão no BNP, onde é presidente da área de asset management, e a profissionalização da Anbid. “Já no mandato do Alfredo (Setubal), os processos na associação começaram a se organizar como os de uma empresa, e a experiência em um local reforçava a do outro.” Se a curiosidade juvenil mantida na vida adulta já o levou a fazer cursos e viagens para aprofundar conhecimentos em história, física ou arte, atualmente ele direciona sua “necessidade em entender o porquê das coisas” para a psicologia. “Nossa matéria-prima aqui é gente. Comecei a criar regrinhas próprias para administrar pessoas. Se eu fosse fazer uma nova faculdade hoje, como já foi moda entre os executivos, não seria de matemática nem finanças, mas de psicologia.”

Da mesma forma que a facilidade para as ciências exatas e o interesse pelas humanas se mostraram úteis na carreira, o perfil de jovem e dedicado profissional do mercado financeiro, acabou sendo na medida para a missão que viria a cumprir na Anbima. Mais uma vez, Giufrida estava no lugar certo.


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