Um sonho sem limites

Laércio Cosentino

Governança Corporativa/Retrato/Temas/Edição 62 / 1 de outubro de 2008
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Laércio Cosentino tinha tudo para ser o típico empreendedor que jamais abriria mão do controle de sua empresa. Com fama de centralizador e história de menino prodígio, começou a construir a atual Totvs aos 22 anos, quando propôs uma sociedade ao antigo patrão. Bancou sozinho apostas ousadas, começando pelo foco na então emergente microinformática e passando pela montagem de um inédito modelo de franquias para distribuição de softwares e pela aquisição de companhias concorrentes. Contrariando todas as previsões, transformou a pequena Microsiga em uma empresa nacional competitiva em relação a gigantes internacionais do setor, como SAP e Oracle.

Tão logo o mercado de capitais despontou como opção para financiar o acelerado processo de expansão da companhia, Cosentino não pensou duas vezes: no primeiro evento de apresentação do Novo Mercado, ainda em 2000, destacou-se como um dos poucos empresários dispostos a aderir prontamente à iniciativa da Bovespa. “Entendi que aquilo era o futuro”, resume ele.

Vale lembrar que, na época, o Novo Mercado era considerado impraticável pela grande maioria. Mas Cosentino já estava acostumado a enfrentar a desconfiança alheia diante das inovações. Entre uma nova audácia e o posto de “dono”, ficou com a primeira opção. A abertura de capital, cujo road show estava sendo agendado no momento em que as torres gêmeas do World Trade Center desciam ao chão, acabou adiada. Concretizou-se apenas em 2006, na primeira leva que marcaria a retomada das ofertas iniciais de ações (IPOs). A adaptação às regras de governança corporativa foi tranqüila, avalia Cosentino, atribuindo o fato à entrada, em 1999, do fundo de private equity Advent no capital da Microsiga.

“Com a entrada do sócio financeiro, já me senti vendendo a empresa”, diz Cosentino com tranqüilidade, sem transparecer qualquer vestígio de conflito em relação à decisão de dividir o seu poder. Por trás do desapego, está o pragmatismo que permeia todo o raciocínio do executivo, hoje presidente de uma empresa de capital pulverizado com faturamento anual de R$ 780 milhões e 9 mil funcionários — incluindo os quase 4 mil remanescentes da Datasul, adquirida em agosto. Reconhecido no ambiente de trabalho como uma pessoa séria — tanto no sentido ético como na economia de sorrisos —, Cosentino costuma impor sua liderança muito mais pela inteligência do que pelo carisma. “Estou aberto a uma nova idéia, desde que demonstrem que ela é melhor do que a minha”, afirma. “Isso desafia os outros a elaborar melhor uma argumentação.”

O difícil é estar à frente do raciocínio rápido de Cosentino. Desde pequeno, o menino atento e tímido só tirava notas dez, em todas as matérias. Até hoje, a introspecção é considerada por ele uma virtude. “Quanto mais se fala, menos se pensa”, afirma. Aos 17 anos, já cursando engenharia elétrica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Cosentino conseguiu um estágio na pequena empresa de informática Siga e iniciou uma carreira meteórica: estagiário, programador, analista, gerente, diretor e sócio, em apenas cinco anos. “Ainda estagiário, enxergava uma série de oportunidades que eram desperdiçadas. Quando propus a criação da Microsiga para o Ernesto (Ernesto Haberkorn, antigo dono da Siga), apenas pedi para ele me deixar fazer e demonstrar que estava certo.”

A escalada de aquisições foi iniciada em 2005, com a compra da Logocenter. Foi nesse ano que Cosentino deparou-se com o desafio de criar uma nova marca empresarial, que seria guarda-chuva para os produtos das empresas incorporadas. “O exemplo era a AmBev”, diz ele. Como de costume, dispensou as consultorias e passou a perseguir um nome apropriado. Em uma reportagem sobre a morte do Papa João Paulo II, leu numa frase em latim a palavra sonora e cheia de simbolismo: totvs, que significa tudo ou totalidade, e pronuncia-se “totus”. “Era domingo, e fui correndo olhar na internet se a marca estava registrada em algum lugar”, conta.

É em momentos como esse, em que idéias surgem e se transformam em realidade, que o executivo de 48 anos mais se realiza. Se conseguir multiplicar esse entusiasmo pelos “participantes”, como os funcionários são chamados na Totvs, melhor ainda. “Desde o início da Microsiga, nos anos 80, ficou claro que uma empresa de tecnologia brasileira só seria viável com pessoas que acreditassem muito nela”, afirma Cosentino. A crença acabou levando a companhia a ser reconhecida, fora do setor de tecnologia, pela presença constante em rankings das melhores para se trabalhar. Com as aquisições e os novos funcionários incorporados, o desafio da motivação aumentou, admite ele.

Mas engana-se quem imagina que o executivo acolhe os novos “participantes” com a promessa de um futuro tranqüilo e cheio de benefícios. O discurso, ao contrário, é direto e transparente: “Eles precisam saber que hoje trabalham em uma empresa de capital difuso, que tem um compromisso com seus acionistas. Espera-se que uma empresa assim cresça, tenha margem de lucro e seja consolidadora. Se isso não acontecer, alguém vem para te consolidar”. Em tempos de fusões e incorporações no mercado de capitais, o pragmatismo de Cosentino não poderia ser mais apropriado.

Segredo do sucesso – Ser observador, entender as pessoas, realizar primeiro para cobrar o resultado que foi entregue depois.
Uma paixão – O empreendedorismo.
Um guru – “Nunca existiu um único guru, mas uma inspiração construída a partir de um conjunto de empresas e pessoas com as quais tive contato.”
Vício – Desafiar-se e desafiar as pessoas à sua volta.
Cuidado com a saúde – Um pouco de ginástica. “Quando se mantém a mente ocupada, não existe síndrome do pânico, depressão, nenhuma dessas doenças da modernidade.”
Para relaxar – Consegue “desligar” completamente e separar os momentos como pessoa física e jurídica. “Na hora do lazer, é como se eu não tivesse uma carreira executiva. Consigo separar minha mente, como se houvesse partições (divisões de um disco rígido).”
Relógio biológico — Acorda cedo, e de bem com a vida.
Hobby — Cozinhar e dirigir. “Mas não no trânsito de São Paulo.”
Tecnologia é bom porque … — Está conseguindo conectar todo o mundo, dar acesso fácil à informação.
Tecnologia é ruim porque … — As pessoas não se dão tempo para interpretar as informações e amadurecer as decisões. “Acabam agindo como robozinhos.”
Como checa e-mails Olha todos ao longo do dia, cerca de 200, mas só responde imediatamente se não estiver ocupado com outra tarefa.
Consultoria serve para … — Áreas operacionais. “Para as áreas estratégicas, não faz tanto sentido, quando se está buscando a inovação, a ruptura. Não queremos gastar tempo vendo o que os outros já fizeram, mas estando diretamente com quem fez.”
Governança corporativa é … — Ter uma administração totalmente transparente. “E ponto final.”
Dez anos atrás — Era sócio da Microsiga, empresa com faturamento de R$ 28 milhões. “Não imaginava os R$ 780 milhões de hoje, mas já pensava grande naquela época.”
Daqui a dez anos — “Não existe limite para o sonho.”
Ambição — “Apenas seguir caminhando, realizando, aproveitando as oportunidades que surgirem.”
Como lida com o sobe-e-desce das ações — Não acompanha, para não se influenciar. “O papel do CEO é entregar resultado, independentemente de o mercado estar bom ou não.”
Momento de estresse — Conviver com pessoas que estão sempre dando desculpas e não conseguem responder “sim” ou “não”. “Gente que tem mais desculpas do que resultados objetivos me tira do sério.”
Uma vitória — Aquela que acabou de ser conquistada. Em geral, as vitórias estão relacionadas ao fato de ser o primeiro a fazer alguma coisa, por ter pensado diferente.
Viagem dos sonhos — A próxima, seja qual for.
Conselho para quem está começando — “Tenha sempre seu sucessor, para poder avançar.”
Como se informa — Por meio de jornais e revistas. “Gosto do papel. O conhecimento lido na tela do computador não é fixado da mesma forma. O papel envolve emoção e leva a uma reflexão.”
Mania — Registra todas as reuniões de trabalho em cadernos de capa dura desde 1986, com páginas numeradas, como se fossem atas. Guarda pilhas desses cadernos, com toda a história da empresa documentada a mão.



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