Um olhar para o que é certo

Maria Cecília Rossi

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 80 / 1 de abril de 2010
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No último dia de março, o telefone de Maria Cecília Rossi não parava de tocar. Eram os amigos dando-lhe parabéns pela nova conquista: ela estava entre os nove conselheiros eleitos para o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), com 274 votos, atrás somente de Alberto Whitaker e Gilberto Mifano. O que poderia ser apenas mais um degrau de uma trajetória entrelaçada à do próprio mercado de capitais acabou ganhando novos significados para Cecília — talvez pela chegada iminente dos 50 anos, que serão comemorados no próximo 24 de junho. “Hoje percebo como era inevitável enveredar pela área de regulação e autorregulação”, diz ela, assumindo o momento de balanço. “Por vir de uma família de educadores, sempre tive a supervisão embutida na forma como estruturo o pensamento, e um olhar para fazer o que é certo.”

Sim, Cecília era uma jovem certinha. Nunca precisou fazer esforço para ser politicamente correta, nos tempos em que a expressão nem sequer existia. Aos 21 anos, já estava formada em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, após cursar o Colégio Rio Branco, onde optou pela especialização na área biológica apenas porque “era a mais puxada”.

Maria Cecília Rossi, fundadora da Interlink e presidente do conselho da BSM: “Por vir de uma família de educadores, sempre tive a supervisão embutida na forma como estruturo o pensamento”

Não, Cecília não sabia aonde ia chegar. Ao mesmo tempo em que era uma aluna aplicada — a mais jovem no mestrado da FGV —, buscava a compreensão do mundo e o equilíbrio pessoal. Gostava de macroeconomia, porque preenchia a sua “necessidade de entendimento do mundo real”, assim como se engajava nas aulas de conscientização corporal do coreógrafo Rainer Vianna. “Fiquei seis meses só reaprendendo a andar”, recorda, divertindo-se.

Com interesses tão diversos, não é de se estranhar que, em suas primeiras férias remuneradas, Cecília tenha colocado a mochila nas costas para percorrer os Estados Unidos por 30 dias. Tampouco que tenha incluído na viagem uma visita às bolsas de futuros de Chicago. “Fiquei impressionadíssima”, conta. Na volta, ofereceu-se para uma vaga de analista na corretora de commodities da corporação em que trabalhava. A Incremento Commodities, do grupo Bonfiglioli, tinha a maior mesa de derivativos da época. No mestrado, decidiu-se afinal pelo tema da monografia: mercados futuros, “um assunto pouquíssimo falado”.

Pode-se dizer que Cecília estava no lugar certo, na hora certa, quando surgiu o projeto da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Ela chegou a negociar um salário melhor (“morava sozinha”, justifica) para integrar a primeira equipe econômica da instituição. Aos 25 anos, já desenhava contratos futuros para um mercado iniciante. “Como o contrato de ouro com um quilo não gerava liquidez, passamos a barra para 250 gramas e foi um sucesso”, exemplifica. “Meus pares, que ocupavam a mesma posição nos Estados Unidos, tinham 40 anos.”

A carreira deslanchou tão bem que Cecília poderia ter abandonado o seu lado “alternativo”. Continuava, no entanto, a cuidar da saúde física de uma forma “mais cabeça” e arrumava tempo para ler romances, ir a mostras de cinema e planejar a próxima viagem. Enquanto isso, os convites foram se sucedendo: depois da BM&F, veio a oportunidade de atuar numa gerência na Bovespa, na qual a tarefa de criar novos produtos acabou dificultada pelos planos Collor e Cruzado. “O pior foi o caso Nahas”, diz Cecília, que então retornou à BM&F para fazer o lançamento dos contratos de DI futuro. De lá, sairia para assumir a superintendência de desenvolvimento de mercado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “Quando o Ary Oswaldo (Mattos Filho) disse que era para criar coisas novas, me acendeu uma luzinha”, conta.

Na autarquia, ela novamente esteve no centro de transformações, como na abertura do mercado aos investidores estrangeiros por meio do Anexo IV e os primeiros ADRs. Na gestão seguinte, Cecília seria alçada ao colegiado da CVM, “uma posição muito privilegiada”, resume. “Foi ali que percebi o quanto gostava de poder olhar vários aspectos do mercado ao mesmo tempo, o que me levou depois a montar a minha própria consultoria, a Interlink.”

Cecília foi a terceira diretora mulher da CVM. Diz que nunca se sentiu discriminada, mas reconhece ter usado artifícios como os “tailleurs” e o corte de cabelo “Chanel” para enfrentar o ambiente masculino. “As mulheres conseguiam espaço assim naquela época; não houve um jeito feminino de entrar”, observa. No IBGC, onde acabou de ser eleita, ela será a única conselheira mulher, mesma situação de quando integrou o conselho de administração da Bovespa, em 2005. “Às vezes saía um palavrão, eles olhavam para mim e pediam desculpa. Achava engraçado, porque já faziam isso 20 anos atrás, quando eu era funcionária da Bolsa”, diz Cecília, que hoje preside o conselho da BM&FBovespa Supervisão de Mercados (BSM), também composto de homens.

Ela não costumava pensar tanto na sua condição feminina até se dar conta de quase ter perdido uma das experiências mais marcantes de sua vida: a maternidade. Focada no escritório, tinha optado por um casamento sem filhos, quando um suposto problema hormonal a levou a fazer um ultrassom. Como estava preocupada com a saúde (“achava que tinha algum tumor”), mal acreditou no que viu no monitor. “Tinha mão, pé, dedos, três meses completos. Foi uma alegria, em um momento em que estava fazendo ponderações da vida e da morte.”

A maternidade — aos 43 anos — mostrou que o almejado equilíbrio era possível mesmo com a família ampliada. “Minha filha só somou”, costuma repetir para outras mulheres, sem evitar uma pregação apaixonada. “Tenho mil dificuldades de conciliar, mas estou passando um modelo para ela de que é possível ter o trabalho, a família, os amigos e ainda ajudar a sociedade. Muitas mulheres estão com medo e tentam compensar isso com viagens e um monte de bolsas no armário. No fim, isso não vai dar certo.”




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