“Troquem a jaula”

Warren Buffett e Charles Munger falam sobre Goldman Sachs, regulação dos mercados, um pouco de China e, quem diria, acenam dividendos para o futuro

Gestão de Recursos/Especial/Berkshire Hathaway 2010/Reportagens/Temas / 1 de maio de 2010
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Andrew Ross Sorkins, do The New York Times, um dos três jornalistas escalados para levar a Warren Buffett e Charles Munger perguntas enviadas via e-mail por acionistas e não acionistas, recebeu 300 questões acerca do Goldman Sachs. Sem dúvida, o processo movido pela Securities and Exchange Commission (SEC) contra a renomada instituição financeira de Wall Street seria um dos tópicos mais faiscantes da assembleia anual de acionistas da Berkshire Hathaway, no dia 2 de maio. Buffett e “Charlie”, respectivamente presidente e vice-presidente do conselho de administração da holding de investimentos, atenderam com louvor à demanda, usando 30 minutos das cinco horas da sessão de perguntas e respostas para discorrer sobre o assunto.

Eles tampouco se furtaram a dar lições de comportamento, finanças e gestão de negócios — bem-humoradas ou sisudas, as frases marcantes sempre fornecem pílulas de conhecimento e da gênese da dupla (veja quadro). Buffett, 79 anos de idade, e Munger, 86, preservam essa atitude há anos. Seja quando indagados por uma criança de dez anos, seja quando interpelados por jornalistas, que tiveram duas horas e meia a mais no dia seguinte para questionar a dupla durante uma entrevista coletiva. “É a melhor aula de economia e estilo de vida do mundo”, disse o engenheiro gaúcho Gabriel Barbosa, 30 anos, encantado com a atmosfera de sua primeira assembleia em Omaha, no estado norte-americano do Nebraska.

A primeira pergunta da edição 2010 acertou na mira. Lida por Carol Loomis, jornalista da revista Fortune, amiga pessoal de Buffett e editora de sua carta anual dirigida a acionistas, a questão tocou logo no escândalo envolvendo o Goldman Sachs. Qual foi a reação dos dirigentes da Berkshire ao saber do processo da SEC? Acham que o Goldman agiu errado? Arrependem-se do investimento feito no banco? Buffett e Munger aceitaram a provocação, sem apresentar sinais de constrangimento.

Para quem não se lembra, voltemos um pouco na história. Em setembro de 2008, no meio do pânico causado pela quebra do Lehman Brothers, o Goldman Sachs pediu socorro a Buffett. O investidor sabia que, naquele momento, era importante dar um voto de confiança à indústria financeira, para dissipar um pouco do caos e encorajar, inclusive, o governo. Conhecida pela solidez de caixa mesmo em tempos difíceis, a Berkshire aplicou US$ 5 bilhões em ações preferenciais do banco, com o direito de receber 10% desse valor em dividendos por ano, isto é, US$ 500 milhões. Além disso, obteve o direito de comprar, até 2013, US$ 5 bilhões em ações ordinárias, pagando US$ 115 por papel. Em resumo: “Adoramos esse investimento”, ressalta Buffett.

Agora, o banco está sendo acusado de ter enganado investidores ao vender uma aplicação financeira lastreada em hipotecas selecionadas por um agente que apostava na inadimplência da carteira. Batizado de Abacus 2007-15, o produto foi montado na forma de um “synthetic collateralized debt obligation” (CDO) e tinha John Paulson, gestor do hedge fund Paulson & Co, exercendo dois papéis: o de selecionador das hipotecas que lastreavam o título e de contraparte do CDO. Para a SEC, o Goldman cometeu fraude ao não revelar aos investidores que Paulson atuava das duas formas. Já Buffett não viu problemas nisso. Segundo ele, o investidor deveria ter sido mais competente ao medir o risco que estava correndo. Munger, por sua vez, afirmou que não houve ilegalidade na transação, lembrando que a decisão da SEC em abrir o processo teve três votos contra dois. “Eu teria votado contra”, cravou.

Charlie enfatizou, para a alegria dos críticos de banqueiros, que o fato de a conduta do Goldman Sachs ser legal “não significa que seja ética”. Na sua visão, dentre os malfalados bancos de Wall Street, o Goldman é o melhor e o que menos se envolve em atividades de cassino. “O problema é a porcaria do sistema”, reagiu, condenando a “permissividade” da regulação financeira. Ele comparou o caso à relação entre um domador e um tigre. Se escapa, a fera naturalmente ataca as pessoas. “O tigre age como um tigre. Adianta bater nele?”, questionou. “É melhor trocar a jaula”.

Na veemente defesa ao Goldman, Buffett assegurou que confia 100% no CEO da instituição, Lloyd Bankflein. A relação da Berkshire Hathaway com o banco é antiga. “Trabalhamos com eles há 44 anos. Ajudaram-nos a levantar recursos e a comprar participações em empresas mais do que qualquer outro banco.” No fim, muitos acionistas se convenceram com a explicação. “Não vai acontecer nada com o Goldman. No máximo, um acordo com a Justiça para dar fim ao processo”, crê o chinês radicado no Canadá Alan Chan, que “descobriu” a Berkshire na década de 1990 por acaso. “Vendo a cotação de empresas no jornal, me chamou a atenção aquele número de cinco dígitos. Resolvi investigar”, contou. Hoje, ele diz amém aos atos de Buffett e Charlie e conclui que não, o Goldman não fez nada ilegal. O mercado, pelo jeito, também parece ter assimilado o recado dos lendários investidores. Na segunda-feira 3, após as declarações, as ações do Goldman fecharam em alta de 2,96%.

Asneiras

Ainda destilando seu veneno contra Wall Street, Munger defendeu uma nova versão do Glass-Steagall Act, lei norte-americana que separava as atividades de banco comercial e de investimento, abolida em 1999. Para ele, enquanto não houver uma mudança efetiva na regulação, os riscos da pura especulação permanecerão elevados. Até porque existem, como ele declarou, as “asneiras de QI elevados”. Munger se referia a executivos de bancos que se consideram “mais espertos” que todo o mundo ao criar um produto complexo que, no fim das contas, coloca toda a economia em ameaça. “Napoleão, por exemplo, era muito inteligente, mas ficou louco”, zombou. “O problema ocorre quando alguém de QI elevado não consegue reconhecer os seus limites.”

Atitudes estúpidas partem até de administradores de companhias investidas com quem Buffett tem relacionamento próximo. Ainda que tenha chamado de plenamente “capaz” Irene Rosenfeld, a todo-poderosa presidente executiva da Kraft Foods, Buffett queixou-se da maneira como a empresa de alimentos se virou para comprar a concorrente inglesa Cadbury. Com o intuito de reunir recursos suficientes para concluir o negócio, a Kraft vendeu suas unidades de pizzas. “Decisões idiotas”, qualificou o investidor, que nunca expressou apoio à fusão das companhias.

Recuperação econômica

O otimismo de Buffett com a recuperação da economia norte-americana continua firme.
O investidor não acredita em uma rápida retomada, mas sinais provenientes de suas empresas indicam que o cenário está melhorando. Um dos pontos de atenção está no controle inflacionário. “As perspectivas de inflação significativa aumentaram. Não só aqui, mas também ao redor do mundo”, comentou Buffett. Como medidas de contenção de custos na crise, as subsidiárias da holding cortaram empregos no ano passado. “A Berkshire não deveria contratar mais trabalhadores simplesmente para lhes dar esperança?”, questionou ingenuamente um jovem da plateia. “Vamos contratar quando houver trabalho a ser feito”, respondeu prontamente Buffett.

Apenas na holding Berkshire Hathaway, mais especificamente, trabalham 21 profissionais. Todas as decisões sobre operações são delegadas aos gestores das subsidiárias, que têm plena liberdade de atuação. “Não temos a estrutura de comitês burocráticos”, exemplificou. Apesar da filantropia praticada por Buffett e Charlie, a Berkshire Hathaway não é uma instituição de caridade. Muito longe disso. Seu objetivo é trazer o maior retorno possível para investidores de longo prazo.

Olhos para o Oriente

Munger é capaz de elogiar o capitalismo heterodoxo da China. “Talvez a existência de apenas um partido seja o melhor sistema para eles. Está funcionando”, sugeriu, comparando a ditadura com a democracia norte-americana. Originalmente voltada para o mercado dos Estados Unidos, a Berkshire tem cada vez mais comprado negócios e investido em empresas da Ásia. Durante a assembleia, Buffett antecipou, por exemplo, que acabara de aceitar ir à Índia no ano que vem para avaliar oportunidades. O que desperta seu interesse, principalmente, é a pujança das economias da região. Questionado na coletiva de imprensa pela CAPITAL ABERTO sobre eventual interesse também no Brasil, Buffett, sem mostrar entusiasmo, desconversou: “Não escolhemos nossas empresas por país.”

Ainda na conversa com jornalistas, Buffett lembrou-se de uma viagem que fez, há mais de dez anos, com Bill Gates, fundador da Microsoft, à China. Navegando num rio, ambos avistaram um grupo de homens arrastando barcos na margem. “Um deles poderia ser outro Bill Gates e jamais saberemos”, pensou no momento. Isso porque, na época, o regime comunista chinês não dava condições para o progresso individual. A história é diferente hoje, acrescentou Munger, para quem a China está estimulando o potencial de sua gente. A crítica que faz ao país é na fraqueza do combate à corrupção. “Também vejo uma tendência muito forte de especulação”, disse.

Dividendos

Algumas questões se repetem ano a ano nas assembleias. A Berkshire nunca distribuiu dividendos a seus acionistas. Questionado novamente sobre o porquê, Buffett explicou que cada dólar deixado na companhia produziu mais de US$ 1,30. “Enquanto isso continuar, vamos reter os lucros”, avisa. Porém, perguntando a si próprio se a Berkshire Hathaway será sempre capaz de reinvestir todo o dinheiro que gera, o chairman revelou que os dividendos poderão dar as caras um dia. “Haverá um momento em que não poderemos alocar com inteligência internamente 100% do capital que produzirmos. Chega-se a um ponto em que os números ficam grandes demais.” Quando vamos assistir a isso, pelo visto, nem os dois sabem.


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