Tempo de reforma

Marcelo Giufrida, presidente da Anbid, fala dos impactos da crise nos fundos e nos bancos de investimento

Captação de recursos/Entrevista/Temas/Edição 66 / 1 de fevereiro de 2009
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O mercado de capitais não será mais o mesmo. Essa é a conclusão do novo presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Marcelo Giufrida, sobre os efeitos da crise financeira internacional. A indústria de fundos vai seguir um processo de seleção natural: “Quem não apresentar resultado ficará para trás”. Os bancos de investimentos, por sua vez, devem se preparar para uma revisão das regras de atuação em todo o mundo. E a associação tampouco passará ilesa. Com o mercado fechado, o comemorado convênio com a CVM para registro de ofertas públicas perdeu força. Em meio à agenda um tanto atribulada, o presidente da Anbid recebeu a reportagem da CAPITAL ABERTO na sede do BNP Paribas no Brasil, onde ocupa o cargo de diretor de asset management.

CAPITAL ABERTO: Em 2008, o patrimônio da indústria de fundos sentiu fortemente a crise e recuou de R$ 1,128 bilhão, em janeiro, para R$ 1,094 bilhão no fim do ano. A queda vai continuar em 2009?
Marcelo Giufrida: Não concordo com a afirmação de que a indústria sentiu fortemente a crise. Nos números absolutos, a perda é grande, mas em porcentagem não assusta tanto. Em outros períodos, como em 2002 (devido à implantação da marcação a mercado), a indústria perdeu cerca de 25% do patrimônio administrado. Indo mais além, comparando com outros países, provavelmente tivemos a menor perda. Lá fora, ainda não temos números consolidados do ano, que devem ser divulgados em abril, porque a compilação deles é mais demorada que no Brasil. Mas as prévias indicam que países com mercados mais desenvolvidos perderam cerca de 30% do patrimônio dos fundos.

E por que a indústria brasileira resistiu mais?
Uma das razões é a fraqueza do nosso mercado. A distribuição de ativos é concentrada em renda fixa, como os títulos públicos, e a renda variável não representa tanto do patrimônio total dos fundos. Isso faz com que tenhamos pouco impacto da desvalorização das ações. Outro ponto é que o mercado brasileiro passou por uma série de turbulências econômicas nos últimos anos, e isso fez com que nossa indústria tivesse uma regulamentação preparada para o estresse. Os países mais desenvolvidos, que vinham num longo período de pujança, não tiveram a mesma preocupação. Baixaram a guarda e deixaram as regras mais frouxas. A edição da Instrução CVM 409 trouxe melhorias importantes. A divulgação diária do valor das cotas é um desses exemplos.

Qual a tendência para a taxa de administração dos fundos de varejo num ambiente em que o patrimônio, a rentabilidade e o número de gestores diminuem?
A tendência é sempre de queda. A diferença é que, em momentos de crescimento da indústria, a taxa cai de maneira mais forte. É o efeito da concorrência e do ganho de escala.

O CDB foi o grande concorrente da indústria de fundos no ano passado. Isso continua?
Sim. Agora cabe aos gestores melhorar seus produtos. É a seleção natural que estamos vendo desde 2008. Embora a indústria inteira tenha perdido cerca de 3% do patrimônio, houve gestora que sofreu resgates de 70%, enquanto outras cresceram. Eu não sei se concordo com todos os movimentos que o investidor brasileiro fez, mas uma característica que ele não tem é a complacência. Basta somar as aplicações e os resgates mensais da indústria e ver que, todos os meses, o mercado girava cerca de R$ 300 bilhões. A rotação é grande. Quem não apresenta resultado fica para trás.

No dia 8 de janeiro, a CVM registrou a emissão de debêntures da Bradespar, primeiro fruto do convênio de registro simplificado entre a Anbid e a autarquia. O fato de o volume de emissões ter caído afeta a parceria?
O convênio começou justamente no momento em que o mercado se fechou. Por um lado pudemos olhar com calma a operação da Bradespar, mas confesso que preferia ter tido mais operações para testar na prática. Fizemos um investimento, contratamos sete pessoas que agora, pela falta de serviço, foram alocadas em outras áreas da Anbid. Mas o convênio continua de pé, e nós queremos expandilo para a área de fundos. É algo preliminar, mas pensamos em analisar previamente a publicidade desses fundos.

A nova Instrução 202 da CVM, em audiência pública, sugere a criação de uma categoria de companhias que se beneficiariam do registro automático de ofertas. Isso interfere no convênio?
Vamos perder a análise de algumas ofertas, sim. Mas é uma medida que a Anbid apoia, pois está alinhada com a motivação do convênio, que é a de ajudar o mercado a ser mais pujante.

A Anbid anunciou que faria uma reforma na autorregulação para limitar a atuação do banco coordenador na emissão de empresas em que tenha ou venha a ter participação. O que aconteceu com esse projeto?
Será definido em meados de fevereiro. Era para sair ainda em dezembro de 2008, mas a diretoria não conseguiu se reunir. Imagino que os limites estarão em linha com aqueles estabelecidos na audiência pública (a Associação abriu a proposta de reformulação do Código de Ofertas para comentários dos associados).

Essa medida pode ser considerada uma resposta às críticas em relação aos bancos de investimento que emitiram ações de empresas consideradas despreparadas para ir ao mercado?
Passamos por uma fase prolongada de vacas magras no mercado de capitais. De repente, nos últimos anos, a janela se abriu. Os bancos trouxeram muitos tipos de experiências de operações lá de fora para cá. Pareceu a parada de sucessos na Rússia logo após o fim da União Soviética: tinha música dos anos 90, 80, 70, era Nirvana junto com The Police. Nos últimos anos, tivemos operações de vários tipos, algumas clássicas e outras mais criativas. Agora, a Anbid, por meio da autorregulação, está estudando os limites e a transparência necessária para essas operações.

O senhor avalia que alguns desses IPOs não deveriam ter sido feitos?
A tendência do ser humano é sempre achar um bode expiatório. A gente vê muita estatística querendo comprovar o despreparo das novatas, mostrando que suas ações caíram muito. Tem companhia antiga que também sofreu bastante, aqui e lá fora. A quem atribuir a culpa? Estava no Japão em meados do ano passado e um consultor de petróleo projetou o preço do barril em US$ 200 para dezembro. No fim do ano, a cotação estava em US$ 40. Uma projeção está sujeita a erro. Os coordenadores exageraram nas projeções. Elas foram feitas em cima de premissas que não existem mais.

Mas os coordenadores tinham interesse direto na oferta. Há casos de bancos que ficaram com 40% do que foi levantado no IPO.
Por isso estamos criando essa autorregulação (limite de participação do coordenador na oferta), a pedido da CVM. Tentamos estabelecer em que ponto essa participação passa a gerar conflito e adotar medidas adicionais para mitigá-lo.

Uma das consequências mais surpreendentes da crise foi o desaparecimento de bancos de investimento independentes nos Estados Unidos. Como recebeu a notícia da quebra do Lehman Brothers?
Era domingo, estava em casa acompanhando o noticiário da CNN. Não imaginava que isso fosse acontecer. A expectativa era de que o Lehman Brothers receberia um parceiro. Mas a noiva ficou no altar. Posso dizer que fiquei preocupado, mas não pensei que fôssemos passar por tantas dificuldades. Sabia que era o gatilho para o agravamento da crise, mas não imaginei que chegaríamos tão perto do fundo do poço.

O que é o fundo do poço?
Um cliente não conseguir sacar dinheiro no caixa do banco. Se isso acontecesse lá fora, no dia seguinte teríamos o mesmo problema aqui.

Agora, o que acontecerá no mercado brasileiro?
Apesar de as consequências aqui não terem sido tão fortes quanto lá, o cenário de fundo do mercado de capitais não será o mesmo. Temos de estar preparados para a revisão da autorregulação e da regulamentação no mundo. Nós participamos da International Organization of Securities Commissions (Iosco, congregação internacional das comissões de valores mobiliários), que, provavelmente, vai chamar as filiadas para produzir estudos e propostas. O fato de o mercado brasileiro ser menos desenvolvido pesa a nosso favor nesse momento, embora não seja algo de que possamos nos vangloriar. Muitos investidores brasileiros aplicam apenas em renda fixa e não perderam nada com a crise. É raro achar esse perfil nos Estados Unidos ou na Europa.

Qual foi o efeito mais perverso da turbulência para as instituições que a Anbid representa?
A situação gera um retrocesso na internacionalização dos investimentos. A CVM se esforçou para liberar as aplicações dos multimercados no exterior e, logo depois, veio a crise. Nesses momentos, as pessoas tendem a se sentir mais confortáveis com o que elas conhecem. Era difícil convencer o investidor nacional a investir lá fora quando a bolsa ia bem e os juros continuavam altos. Agora, com a bolsa e os juros em queda, seria o cenário ideal para expandir essas fronteiras. Mas ele pensa: “eu não vou lá porque posso me encontrar com um Madoff”. A crise gera um movimento conservador que inibe a inovação, a criatividade.

Antes, os profissionais que saíam dos bancos de investimento tinham a opção das gestoras independentes. Qual será o destino desse pessoal agora?
No início da década, o mercado internacional experimentava um desenvolvimento forte. Muitos profissionais trouxeram para o Brasil conceitos que vinham fazendo sucesso lá fora, como as gestoras independentes. Hoje, talvez o caminho seja o dos produtos estruturados, como o private equity ou os fundos imobiliários.

Como está o processo de fusão com a Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima)?
O processo deu uma desacelerada, mas está andando. Percebemos uma grande coincidência com representantes ativos nas duas associações, algo da ordem de 70%. A fusão é boa para a interlocução com o governo, que se queixa por não saber qual é a prioridade do mercado, já que mantém diálogo com várias instituições diferentes.


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