Teatro, poesia e economia

Atrás das cortinas da obra de Shakespeare repousa um pano de fundo econômico

Bimestral/Relações com Investidores/Prateleira/Temas/Edição 78 / 1 de fevereiro de 2010
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“Ser ou não ser, eis a questão”. A célebre frase da tragédia de Hamlet é, para muitos, a primeira lembrança do trabalho de William Shakespeare na poesia e no teatro. No entanto, embora sua obra tenha sido objeto de estudo desde 1623, um ingrediente fundamental dessas narrativas passou despercebido por séculos — pelo menos até o economista americano Henry W. Farnam publicar Shakespeare’s Economics, em 1931. Nessa obra, o autor pesquisa, minuciosa e exaustivamente, um elemento fundamental para as histórias shakespearianas: a economia. Não se trata de buscar os fundamentos econômicos que ainda viriam a ser enunciados de modo estruturado, mas sim de entender como questões relacionadas a troca, riqueza, empréstimos e juros fundem-se de forma indissociável às narrativas.

A análise feita por Farnam, contudo, é apenas a segunda parte do livro Shakespeare e a Economia. Na primeira, o economista Gustavo Franco investiga os aspectos relacionados ao nascimento da indústria do entretenimento, que se confunde com o próprio início do capitalismo. Imaginemos o contexto: crescimento das cidades (em particular, Londres), aparecimento da burguesia e prosperidade econômica. O cenário perfeito para a constituição das companhias de teatro e, consequentemente, para a ascensão do gasto com divertimento, patrocinado pela nobreza. Ao ocupar o espaço para entretenimento criado pela disponibilidade de tempo e dinheiro da sociedade londrina, Shakespeare criou um dos negócios mais inovadores da época. Como diria Adam Smith (que viria muito depois), não é em razão da boa vontade e do altruísmo dos artistas que existe o teatro.

Mas as duas partes do livro, que atribuem o sucesso de Shakespeare aos temas abordados em suas peças, encontram sempre um contexto econômico para a poesia e as situações dramáticas. Questões como distribuição de riqueza e cobrança de juros são recorrentes em sua obra, em um período muito anterior à organização desses conceitos sob o manto do que chamamos economia.

Chama a atenção, também, a estruturação econômica das companhias de teatro. Naquele tempo, os investidores eram chamados de “adventurers”, em referência ao dinheiro que destinavam ao financiamento das viagens marítimas. À medida que a atividade do teatro tomava contornos de um negócio, seus financiadores passavam a se organizar em “partnerships”, nos moldes em que seria criada a primeira empresa de responsabilidade limitada — a Companhia das Índias Orientais, em 1599. Trata-se de um marco fundamental da evolução institucional do capitalismo moderno.

O capítulo destinado a esse assunto traz ainda uma série de curiosas tabelas, que mais parecem a “demonstração de resultados” de algumas das companhias de teatro, além de estimativas da “perecibilidade” das peças. Uma peça de sucesso era encenada, anualmente, entre 15 e 20 vezes, e Shakespeare — um escritor considerado bastante produtivo — escrevia apenas duas a três por ano.

Assim como acontece hoje no Brasil com a “novela das oito”, entre 1590 e 1671, os teatros congregavam uma parcela significativa da população em torno de uma trama, chegando a atrair até 20% da população de Londres nos fins de semana. A despeito da razoável modicidade da entrada cobrada naquele tempo, a renda auferida anualmente por Shakespeare o transformou em um homem rico para os padrões da época. Além de sua contribuição às artes, podemos creditar ao viés empreendedor de Shakespeare a gênese da indústria do entretenimento.


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