Teatro corporativo

Os personagens e o efeito negativo dos jogos empresariais sobre a produtividade da empresa moderna

Governança Corporativa / Temas / Prateleira / Edição 73 / 1 de setembro de 2009
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Nesta coluna, costumamos discutir obras que tratam de temas relevantes à esfera do mercado de capitais e dos investimentos.
A despeito da aparente inconsistência na seleção do mês, o assunto em pauta é da maior importância para qualquer organização da sociedade moderna, seja pública ou privada, com ou sem fins lucrativos. Estamos falando de Jogos políticos nas empresas, uma obra de Mauricio Goldstein e Philip Read, profissionais com vasta experiência na área de recursos humanos de grandes corporações mundiais. O livro aborda a comédia (ou tragédia) corporativa à qual nos submetemos todos os dias em nossos empregos, enquanto tentamos lidar com situações de conflito de interesses, ansiedade e estresse.

Tomemos a gênese do problema. Quando o dono é também o gestor do negócio, os conflitos de interesses inexistem, pois ele sofre o ônus e o bônus de suas decisões. Nas organizações modernas, o acionista fica distante do poder decisório, e as empresas são geridas por administradores de empresas. Este é o ecossistema onde surge o problema potencial entre o gestor e o dono. Como os interesses dos dois grupos não são perfeitamente alinhados, surgem “atritos” neste relacionamento, levando a custos de transação e monitoramento, que criam um ambiente de baixa produtividade e motivação.

Avalie se essas situações lhe soam familiares: colegas que apontam erros dos outros ao gerente para ganhar pontos; fofoca para obter vantagem política; redução das previsões de vendas propositadamente para alavancar negociações de metas. A lista é vasta, e, com raras exceções, é possível constatar o mal que aflige a empresa. O conjunto dos jogos corporativos mina o tecido mais delicado que sustenta uma organização — a confiança entre as pessoas.
Na falta dela, todos guardam dezenas de e-mails antigos para usar contra inimigos ou se proteger deles, só para citar um exemplo.

O livro discute, também, o motivo pelo qual os jogos empresariais se enraízam de forma tão profunda nas companhias. Eles são uma resposta ao aumento da ansiedade provocado pelo ambiente competitivo contemporâneo, de elevado estresse e de relações superficiais e efêmeras. Na falta de quem confiar, seja no colega, no chefe ou no empregador, as pessoas adotam ferramentas de autopreservação, e sua manifestação se dá no “teatro corporativo”. Muitas vezes, quando ele já atingiu o DNA da empresa, só uma mudança radical na liderança pode reverter a metástase. E, mesmo nesses casos, a sobrevivência do paciente não está garantida.

Por fim, os autores trazem alguns exercícios para ajudar a organização a despertar para o problema e a romper com o padrão de comportamento vigente. Eles ressaltam que culturas fortes, orientadas para o resultado, são fruto de uma liderança bem conduzida e que cria um ambiente de confiança interpessoal e elevada produtividade. Nesse sentido, o prefácio elaborado por um dos fundadores da Natura é bastante instrutivo, já que ele pôde assistir de camarote à evolução da empresa, desde sua gestação até sua maturidade como companhia aberta. Obviamente, a transição de uma “empresa de donos” para uma “empresa de executivos” trouxe seu rastro de efeitos colaterais indesejáveis.

No entanto, a julgar pelos resultados recentes e pela percepção positiva do mercado em relação à liderança atual da companhia, a transição está consolidada, e a cultura da empresa adaptada à nova estrutura de governança. No entanto, “o preço da paz é a vigilância constante”. A cultura empresarial produtiva é uma árvore delicada que dá belos frutos, mas não sem a presença de jardineiros atentos e competentes.


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