“Sou um servidor público”

Pedro Malan

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 88 / 1 de dezembro de 2010
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A derrota da hiperinflação no Brasil foi como um dia de São Crispim para Pedro Malan. O economista recorda-se do discurso do rei Henrique V, “um dos mais belos da literatura”, diante das tropas inglesas que enfrentariam o exército francês, três vezes maior, na dramática batalha de Azincourt, inspiradora de Shakespeare: “Aquele que sobreviver a esse dia e chegar à velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: amanhã é São Crispim. E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: recebi estas feridas no dia de São Crispim. Esta jornada enobrecerá a sua condição e os cavaleiros que permanecem agora no leito da Inglaterra irão se considerar como malditos por não estarem aqui”.

Malan poderia ter permanecido em Washington, na diretoria do Banco Mundial e no conforto de seus livros, quando recebeu o convite para a presidência do Banco Central. A inflação era de 2.500% ao ano, em 1993. As batalhas anteriores — planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor 1 e 2 — tinham sido perdidas para a hiperinflação, assustadora como o exército francês. Com a história já escrita, Malan, aos 67 anos, tinha tudo para afirmar que não hesitou, mas confessa ter aceitado o cargo apenas por ser um servidor público, que não deve fugir às suas responsabilidades: “Muitas análises são feitas com o benefício de se saber o que aconteceu. Esquecem que houve um momento em que pessoas tomaram decisões com base em enormes taxas de incerteza”.

Apesar da modéstia, e de atribuir o sucesso do Real à “equipe de extraordinária competência profissional”, Malan orgulha-se, e muito, das decisões tomadas em sua “batalha de Azincourt”. E até exibe algumas cicatrizes: “Tivemos a crise bancária, a reestruturação da dívida dos estados e outros problemas de adaptação à inflação baixa”, diz ele, referindo-se aos oito anos que se seguiram, como ministro da Fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso. “Foram momentos de tensão e muito trabalho, mas aquilo nos permitiu mudar a legislação e hoje temos um sistema de intermediação financeira no qual só aparece um casinho de vez em quando, como esse do banco Panamericano.”

Antes que a conversa descambe para o mérito político das conquistas econômicas brasileiras, ele ressalta: “Quero que o País dê certo. Não me importa discutir quem merece o crédito por isso, embora o atual governo tenha enorme dificuldade de reconhecer que o Brasil não começou em 1º de janeiro de 2003”.

Ao final do segundo mandato de Fernando Henrique, não faltaram especulações de que Malan seria o preferido do presidente para sucedê-lo, embora sequer pertencesse a um partido político. “Nunca tive ambição ou vocação política”, justifica ele, que recusou os convites para filiação. Criado numa intelectualizada família da classe média alta, o jovem Pedro estudou nos melhores colégios de Petrópolis, município da serra fluminense onde nasceu, e do Rio de Janeiro. Dividia o seu tempo livre entre os intensos treinos de natação, indicados para corrigir um desvio de coluna, e as bibliotecas do pai e do avô. A vocação para a economia (depois de uma faculdade de engenharia) é reiterada até hoje: “O estudo é a minha vida. A política, assim como o trabalho no setor privado, exige dedicação total, e eu tenho vários outros interesses”.

Ele encontrou o ambiente “estimulante do ponto de vista intelectual” que procurava aos 23 anos no Escritório de Política Econômica e Aplicada, atual Ipea, ligado ao ministério do Planejamento. “Tínhamos convênios com vários centros de pesquisa no mundo, e o ministro Roberto Campos estimulava diagnósticos setoriais”, conta. Como técnico do instituto, foi enviado para o doutorado na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos — onde voltaria a morar nos anos 1980, convidado a princípio para uma diretoria nas Nações Unidas, e depois para ser o primeiro diretor executivo do Brasil no Banco Mundial. As boas relações internacionais, além da extraordinária habilidade técnica (“Sou um workaholic”), fizeram de Malan alvo de novo convite, quando morava em Washington: ser renegociador da dívida externa brasileira, como assessor especial do ministério da Fazenda.

De missão em missão, incluindo as assumidas depois como ministro, Malan acabaria por ganhar uma projeção internacional rara, que o faz cumprir hoje uma atribulada agenda de viagens ao exterior. Apenas nos dois meses anteriores a essa entrevista, ele havia participado de seminários e reuniões em Cingapura, Coreia, China, Londres, Washington e Nova York, fosse convidado pelo banco central de Cingapura, pelo fundo coreano Temasek ou pela IFRS Foundation, que renovou o seu mandato como curador da entidade que regula o International Accounting Standards Board (Iasb), encarregado de difundir as normas internacionais de contabilidade.

A entrevista, no Rio, aconteceu no momento em que as tropas policiais começavam a cercar o Complexo do Alemão, e Malan, como de hábito, não fugiu do assunto. “Numa democracia, não se pode permitir que a bandidagem armada tenha um controle territorial”, afirma, mencionando leituras que fez sobre o problema em outras partes do mundo. “Acredito muito no debate público. Gosto de contribuir”, diz, citando como exemplo a coluna mantida há mais de sete anos no Estadão.

Partindo das favelas cariocas, passando por Shakespeare, pelas aulas na PUC (“É um privilégio ter sido professor de pessoas como Armínio Fraga e Gustavo Franco”) e pelo trabalho como conselheiro de administração (nas empresas Globex, EDP, OGX, Souza Cruz e Mills, além do conselho consultivo do Itaú Unibanco), Malan encerra a conversa otimista em relação à sua mais nova batalha, a convergência contábil: “Espero que a SEC anuncie sua decisão de convergir para o IFRS em 2011. Estamos avançando nesse processo”. Para quem já enfrentou guerras mais dramáticas, Malan deve tirar de letra — e das muitas leituras — a atual missão.




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