Solução privada

Experiências bem-sucedidas mostram como o mercado de capitais vem contribuindo para o desenvolvimento da educação no País

Captação de recursos / Temas / Reportagem / Edição 69 / 2 de maio de 2009
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Em pouco mais de um ano, o mercado de ações brasileiro propiciou o investimento de R$ 1,9 bilhão em escolas, faculdades e universidades de todo o País. Entre março de 2007 e abril de 2008, o montante foi levantado por ofertas primárias (IPOs, na sigla em inglês) de quatro companhias do setor: Anhanguera Educacional, Estácio Participações, Kroton e Sistema Educacional Brasileiro (SEB). É o equivalente a 3,16% dos R$ 60,2 bilhões gastos pelo Ministério da Educação em 2007. O dinheiro serviu para a ampliação de vagas, criação de novos cursos, capacitação de professores, melhoria de infraestruturas e aquisições. E foram muitas compras. Levantamento da Fator Corretora aponta que esse grupo de S.As. realizou 34 operações de fusões e aquisições em 2008, movimentando R$ 652,4 milhões e atingindo mais de 146 mil alunos.

As instituições de capital aberto são apenas uma mostra do casamento feliz entre um setor carente de recursos e o mercado de capitais. Essa união ainda pode gerar muitos frutos, que vão além da emissão de ações em bolsa de valores. Ganham as empresas, com um leque maior de opções de captação; e os estudantes e seus familiares, com melhores condições de bancar a formação acadêmica. Quem vem colhendo bons resultados com uma modalidade ainda pouco explorada é a Ideal Invest, gestora independente de programas de crédito universitário privado. Ela cuida dos dois únicos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) voltados à educação.

O mais recente deles é o Crédito Universitário FIDC. Criado em janeiro de 2007, o veículo aplica seus recursos em direitos provenientes de contratos de Crédito Direto ao Consumidor (CDC). Nessa modalidade, um banco empresta ao estudante e repassa os direitos creditórios ao fundo, que assume a condição de credor dos alunos. O nascimento desse produto se deve à falta de apetite dos bancos ao financiamento estudantil. “O FIDC funciona como um ‘colchão’: nós compramos algumas carteiras de crédito dos bancos para dividir os riscos”, conta Oliver Mizne, diretor executivo da Ideal Invest. Com esse suporte, a empresa pretende convencer os bancos a conceder empréstimos com condições de pagamento bastante facilitadas aos estudantes, num programa que batizou de Pravaler.

O convênio, hoje estabelecido apenas com o banco ABC, auxilia 134 instituições de ensino superior, espalhadas por 160 municípios em 14 estados, e beneficia mais de 200 mil alunos. Dividindo o valor de seis mensalidades por um ano, por exemplo, o estudante paga no total um montante 20% maior. “O aluno continua pagando a faculdade depois de se formar. Geralmente, nesse caso, ele já estará bem colocado, com uma renda confortável para quitar a dívida”, diz Mizne. Desde setembro de 2006, o Pravaler destinou R$ 109 milhões para o parcelamento de mensalidades. É mais de um quarto dos R$ 400 milhões concedidos pelo governo federal em 2008 aos programas de crédito estudantil existentes, o Prouni e o Fies. Ao contrário dos congêneres estatais, o Pravaler não exige comprovação de carência de recursos, nem que o aluno tenha cursado o ensino médio em escola pública.

As instituições de ensino, por sua vez, são atendidas pelo Ideal Educação, que existe desde 2004. Com patrimônio de R$ 65 milhões, o FIDC conta com investidores parrudos, como a Gávea Investimentos e a Pragma Patrimônio. O Ideal adianta o recebimento de mensalidades a taxas de desconto que variam de acordo com o volume, o prazo da transação e as garantias — entre Selic 3% e Selic 20% ao ano. Em 2007, o Ibmec do Rio de Janeiro obteve R$ 11 milhões com o fundo. De posse dessa verba, a instituição construiu um novo campus. Uma faculdade do Sul do País cedeu ao Ideal Educação mais de 10 mil boletos de mensalidade em troca de R$ 40 milhões, que foram usados, em grande parte, para quitar dívidas. No total, o fundo injetou mais de R$ 300 milhões no setor.

BOLSA-ESCOLA — Captações ainda mais vistosas aconteceram no passado recente, durante o boom de IPOs. De olho em uma fonte de recursos mais barata, a Anhanguera Educacional fez sua oferta pública inicial em março de 2007. No mesmo ano, aproveitando a farta liquidez internacional, vieram Kroton, Estácio e SEB. Boa parte dos R$ 935,1 milhões obtidos pela Anhanguera no IPO e na oferta subseqüente — que levantou cerca de R$ 500 milhões, em 2008 — foi usada na compra de equipamentos, melhorias em infraestrutura e treinamentos. Mas o grosso dos recursos, sem dúvida, foi empregado na consolidação do setor. Foram mais de R$ 600 milhões desembolsados em aquisições no Centro-Sul do País. O SEB foi o segundo que mais abriu a carteira na ida às compras. Gastou R$ 125 milhões para arrematar dez unidades de ensino. A Kroton investiu cerca de R$ 105 milhões, e a Estácio liberou R$ 77 milhões para as compras.

As unidades de ensino também crescem a olhos vistos. De dezembro de 2006 ao mesmo mês de 2008, a Anhanguera passou de 13 campi operacionais para 52. A quantidade de alunos matriculados na graduação mais que sextuplicou: de 24,5 mil para 157,2 mil, em igual período. A quantidade de alunos da Kroton ficou quase três vezes maior de 2007 a 2008 — de 15 mil para 42 mil. O SEB possuía, em dezembro do ano passado, 51 mil, ante os 21 mil de 12 meses antes. A vida de companhia aberta alçou o SEB a outro patamar competitivo, conta Marco Rossi, diretor financeiro e de Relações com Investidores (RI). De 2004 a 2007, a empresa crescia na média anual de 14%. No ano seguinte, o faturamento saltou 105%.

Para José Augusto Teixeira, diretor de planejamento e RI da Anhanguera, os ganhos de se abrir o capital transcendem os números. “A interação com o mercado de capitais só ajudou a disciplinar a empresa e a melhorar a sua eficiência”, diz. Os benefícios se estendem a todo o segmento. “Com o apoio de investidores, essas instituições conseguem levar ensino de qualidade a muitas cidades e a preços acessíveis, ajudando a suprir a crescente demanda por mão-de-obra qualificada.” Ao adquirir, por R$ 80 milhões, a LFG, especializada em cursos de pós-graduação a distância, em outubro passado, a Anhanguera tornou-se o maior grupo de educação privada nacional. Teixeira diz que o ganho de escala possibilitou à instituição paulista baixar o valor dos cursos. Em dezembro de 2006, a mensalidade média do grupo estava em R$ 477,6, 7% mais que os R$ 445 de 24 meses depois. “A consolidação do setor, no fim das contas, traz custos mais palatáveis aos estudantes”, assegura Teixeira, da Anhanguera. Um “bolsa-escola” para ninguém botar defeito.

Inadimplência, evasão e crise no caminho
Para especialistas, o casamento entre educação e mercado de capitais continuará harmonioso em 2009, embora o ritmo de aquisições tenda a diminuir. A crise também se abateu sobre o setor. Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), acredita em uma diminuição de 50% nesse tipo de operação. “As fusões e aquisições que ocorrerem serão de instituições menores buscando sobreviver nessa conjuntura”, opina.

Outro ponto que preocupa as empresas é o aumento de atrasos no pagamento de mensalidades e a atração de novos alunos nos processos seletivos. Segundo dados do Semesp, 40% das associadas relataram queda de até 30% no número de rematrículas e ingressos. Projeções do sindicato indicam elevação no índice de inadimplência de 22,3%, em 2008, para 25%, neste ano.

Alícia Figueiró Pinheiro, vice-presidente executiva e diretora de RI da Kroton, vê esse movimento como natural. “Alguns alunos que passam no vestibular desistem de se matricular porque têm medo de perder o emprego e não poder pagar os estudos.” A saída para as empresas, diz Alícia, é se apoiar nas parcerias de crédito estudantil, para facilitar a vida do aluno, investir no crescimento orgânico das unidades e fazer aquisições de modo mais seletivo.


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Tags:  Abertura de capital/ IPO Fundos de investimento FIDCs Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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