Soberania à prova

GP, maior gestora de private equity da América Latina, também padece com a turbulência

Captação de recursos / Temas / Edição 66 / 1 de fevereiro de 2009
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Traçar a trajetória da GP Investimentos — e da indiscutível fama de seus atuais e ex-controladores — é quase como ouvir um disco de uma letra só. Serve para repetir mais uma vez, e como tantas outras, que essa turma faz jus à escola dos seus fundadores: o inseparável trio formado por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, acionistas da cervejaria AB InBev. Os três saíram da GP em 2003, mas deixaram um legado respeitável que vem sendo religiosamente seguido pela segunda geração — hoje sob o leme da dupla Antonio Bonchristiano e Fersen Lamas Lambranho, além de outros seis sócios.

Na nova ou na velha guarda, o lema se mantém. O primeiro item da cartilha é a obsessão quase compulsiva por resultados, somada à sobrecarga de trabalho — o que inclui qualquer hora, dia da semana ou lugar do planeta. Falar do estilo desses homens virou quase lugar comum. O difícil é colocar a soberania deles à prova. Afinal, pode até soar atrevido pôr em xeque uma equipe efetivamente vitoriosa, arrojada e que não esconde o orgulho de si. Mas Lente de Aumento se propõe a olhar a empresa do ponto de vista do acionista e do desempenho do seu papel na bolsa. Então, por que os BDRs — certificados emitidos no exterior que funcionam como ações no Brasil — do maior fundo de private equity da América Latina, dono de uma carteira de US$ 2,4 bilhões, estão murchando em sucessivos pregões da BMF&Bovespa?

Nos últimos seis meses (26 de julho a 26 de janeiro), a cotação saiu de R$ 17,50 para R$ 5,77, uma queda de 67% — contra 31,2% do Ibovespa. O valor da GP em bolsa chegou a ser superior a R$ 3 bilhões no ano passado. Em janeiro, beirava R$ 900 milhões. Esse montante é bem menor que o de sua estreia no pregão, em junho de 2006, quando captou US$ 300 milhões e foi avaliada em R$ 1 bilhão.

Questionada sobre o fato de o mercado estar castigando os papéis da companhia, a diretoria da GP preferiu silenciar, como de costume. Reiterou que seus executivos não dão entrevistas. Ora escudados pelo anonimato, ora não, analistas que acompanham o desempenho da GP foram unânimes em dizer que a empresa padece dos problemas inerentes aos fundos de private equity no momento atual, como a dificuldade de captar recursos e a falta de oportunidade para fazer desinvestimentos a bom preço. O mercado de capitais, via ofertas de ações, sempre foi uma das principais portas de saída para esses investidores. Mas, por enquanto, com a escassez desenfreada de recursos na praça, essa porta está fechada. “Em cenário de crise, o desinvestimento pode levar mais tempo que o programado”, diz Victor Mizusaki, analista da Itaú Corretora.

Em geral, o alvo da GP Investimentos são empresas sedentas por capital e com deficiências na gestão — dois fatores que tornam os preços extremamente atraentes. De praxe, ela assume a gestão da investida. Até porque, ganhar eficiência administrativa com a prática impiedosa de corte de custos, no melhor estilo GP, não é para qualquer um. Em razão desses investimentos, a gestora sofre hoje duplamente com a queda da bolsa. A maior parte das empresas está listada e todas perderam valor substancial diante da crise nos últimos meses. Esse fato, por si só, já joga o resultado no chão, pelo menos contabilmente. “O grupo tem um portfólio interessante e, assim que o mercado sinalizar uma melhora, a GP vai se recuperar”, afirma Mizusaki. A sua projeção para o papel é de R$ 30,00 no fim de 2009.

Allan Haid, diretor financeiro da GP, disse em teleconferência com analistas no terceiro trimestre de 2008 que o resultado foi impactado pela variação do preço das ações do portfólio. “É um resultado não caixa, ou seja, é só uma marcação a mercado das companhias de portfólio que são listadas. Isso basicamente é uma regra contábil do US GAAP, a forma que nós reportamos nossos resultados.” A redução no valor de mercado das companhias atingiu US$ 254,6 milhões. Hoje, sem dúvida, esse valor não é caixa. Mas, diante das dificuldades de desinvestimento, quem garante que esse prejuízo, ou parte dele, não será caixa um dia?

Uma das que mais sofreu foi a Magnesita. Perdeu 68,8% nos seis meses encerrados em 26 de janeiro. Quando brilhou na bolsa, a companhia passava por um momento particular: havia sido comprada pela GP e pelo fundo de investimentos Gávea (do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga) e passava pelo maior choque de gestão dos seus 70 anos de vida. Ao mesmo tempo, as indústrias siderúrgica e de construção civil, seus principais clientes, viviam momentos históricos de demanda. Agora, a situação se inverteu.

“Sem dúvida o cenário é diferente, mas a GP tem um caixa com US$ 400 milhões que pode ser usado para investir em oportunidades interessantes e com preços baixos”, observa Bento Müssnich, analista do Unibanco. Em seus três fundos, a GP reúne empresas como BRMalls, Hypermarcas, LA Hotels (que acaba de comprar a Invest Tur), a rede de churrascaria Fogão de Chão, a universidade Estácio de Sá, dentre outras. No exterior, seu primeiro investimento foi em San Antonio, empresa líder no setor de prestação de serviços para exploração em terra e produção de gás e petróleo na América Latina.


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